Estamos
no deserto, sob o sol implacável que queima a pele dos filhos de Israel. O povo
caminha há dias, contornando Edom, e a impaciência toma conta dos corações.
Falta água, o pão é escasso, e aquele maná que antes pareceu milagre agora
provoca náusea. A murmuração se espalha como fogo: “Por que nos fizestes sair
do Egito para morrermos aqui?”. O pecado da ingratidão atrai o castigo divino.
Serpentes venenosas invadem o acampamento, suas presas injetam morte. O povo
cai mordido, e o terror se instala.
Então
Moisés intercede. Deus responde com um remédio paradoxal: uma serpente de
bronze, erguida sobre uma haste. Quem olhar para ela, viverá. Imaginai a cena:
um homem mordido, sentindo o veneno queimar suas veias, levanta os olhos para
aquele metal reluzente ao sol. Um simples olhar, um ato de fé, e a vida
retorna. Esta imagem do deserto atravessa os séculos e chega até nós,
preparando nossos olhos para enxergar outro madeiro, outra elevação, outro
remédio divino.
Nosso
Senhor Jesus Cristo, conversando com Nicodemos na obscuridade da noite, revela
o mistério da redenção. Ele mesmo estabelece a conexão: “Do mesmo modo como
Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem
seja levantado”. A serpente de bronze era figura; a Cruz é a realidade. O
veneno que nos mata não vem de répteis do deserto, mas do pecado original e de
nossas transgressões pessoais. Todos fomos mordidos. Todos carregamos em nós o
veneno mortal da concupiscência, do orgulho, da rebelião contra Deus.
Pois
bem, queridos irmãos, Deus nos amou de tal modo que deu seu Filho unigênito.
Não enviou um profeta, não mandou um anjo. Deu o próprio Filho. São João
Crisóstomo contempla este versículo e exclama que aqui está resumido todo o
Evangelho: o amor infinito do Pai manifestado na entrega do Filho à morte de
cruz. Cristo assumiu nossa natureza humana, desceu do céu, fez-se um de nós,
para poder ser elevado naquele madeiro infame.
A
Cruz não é derrota; é vitória. Não é vergonha; é glória. Santo Agostinho nos
ensina que Cristo quis morrer no madeiro para que ali mesmo, onde a morte
triunfara pela árvore do Éden, a vida triunfasse pela árvore da Cruz. O veneno
da serpente antiga é vencido pelo remédio da serpente levantada, isto é, pelo
Cristo crucificado que toma sobre si nosso pecado, nossa morte, nossa
condenação. Ele se fez pecado por nós, como diz São Paulo, para que nele
fôssemos feitos justiça de Deus.
Mas
notai bem: no deserto, era preciso olhar para a serpente de bronze. Não bastava
estar no acampamento, não bastava ser filho de Israel. Era necessário um ato de
fé, um erguer dos olhos, um voltar-se para o sinal divino. Assim também
conosco. Cristo foi elevado na Cruz, mas é preciso crer nele. “Para que todos
os que nele crerem tenham a vida eterna”. A fé não é mero assentimento
intelectual; é olhar confiante, abandono filial, adesão total da vontade ao
amor crucificado.
Nosso
Senhor Jesus Cristo, conversando com Nicodemos na obscuridade da noite, revela
o mistério da redenção. Ele mesmo estabelece a conexão: “Do mesmo modo como
Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem
seja levantado”. A serpente de bronze era figura; a Cruz é a realidade. O
veneno que nos mata não vem de répteis do deserto, mas do pecado original e de
nossas transgressões pessoais. Todos fomos mordidos. Todos carregamos em nós o
veneno mortal da concupiscência, do orgulho, da rebelião contra Deus.



