Deve-se
notar alguns aspectos importantes nesse episódio: o limite humano de Jesus,
perturbado pela morte de João Batista; o limite das multidões, que se deslocam
das suas cidades e passam o dia com Jesus, revelando fome e cansaço; e o limite
dos discípulos, que, pela falta de fé, interpelam Jesus para que deixe-as ir.
Contudo, é exatamente diante dessas limitações que a potência de Deus se
manifesta de forma favorável e generosa. Há apenas cinco pães e dois peixes,
mas Jesus está com eles. Nada mais importa. A limitação de espaço, de tempo e de
comida não é um problema, porque é precisamente esses limites que permitem a
ação de Deus acontecer através de Jesus. Ao se colocar, nas mãos de Jesus, a
matéria disponível, a solução de fé acontece. Do lugar deserto se passa ao
local com muita grama. Do olhar voltado para a terra se passa para o céu. Das
mãos dos discípulos, os cinco pães e os dois peixes passam para as mãos de
Jesus e são abençoados. Das mãos de Jesus os pães passam novamente para as mãos
dos discípulos, que os distribuem às multidões. Assim, o que antes eram
limitações se convergem no mistério profundo que reside em Jesus, tornando-se
uma fonte inesgotável de bem, de paz, de curas e de saciedade, ao ponto de os
pedaços que sobraram encherem doze cestos. Nada que vem de Deus deve ser desperdiçado.
Além disso os cestos, na verdade, são uma referência ao íntimo dos discípulos
transformado, pois também passaram da incredulidade à fé. O episódio quer
recordar que Jesus Cristo é a realidade que permite ao fiel enfrentar os
próprios limites, olhar para estes com confiança, sabendo que só Jesus pode
transformar o nosso pouco em muito para que todos sejam saciados.
Estamos
diante de indicações que permitem colher o sentido positivo do empenho e da
ação cristã no mundo. Se, por um lado, o fiel deve reconhecer os seus limites,
por outro lado, é chamado a colocar em Deus a sua fé, pela qual supera todo
estado de necessidades. Há realidades que o fiel sozinho não supera, mas é
possível com Jesus Cristo. Todas as vezes que nos encontramos diante de
limites, e o maior de todos é a morte, mas os aceitamos, abraçamos,
reconhecemos e os apresentamos a Deus, por Jesus Cristo, tornam-se a matéria do
prodígio. Todas as vezes que agimos com generosidade, partilhando os próprios
dons diante dos nossos limites, oferecendo e se dando, do pouco que se tem e do
pouco que se é, Deus age em nossa existência e faz a sua graça superabundar na
realidade.
Se
nos dispusermos a seguir Jesus pelo deserto da nossa existência e se confiarmos
em sua proposta restauradora, presente na sua Boa Nova, nós assistiremos ao
prodígio que ele nos ensina a fazer: Não foi ele quem multiplicou os pães e os
peixes, pois, apenas passados por suas mãos e feita a ação de graças a Deus,
foram novamente entregues aos discípulos. O prodígio ocorreu no momento em que
os discípulos começaram a distribuir os pães à multidão que estava assentada
não no deserto, mas na grama. A sentença de Gn 3,18-19 foi revertida por Jesus
para a humanidade. Assim, somos nós que devemos nos deixar guiar pela proposta
renovadora de Jesus; então veremos o prodígio: a mudança de mentalidade e de
comportamento em cada um de nós, que faz nascer um mundo belo e querido por
Deus. Um mundo não mais marcado por raciocínios mesquinhos, como propuseram os
discípulos, mas um mundo onde a compaixão encontra o seu devido lugar em nossas
mentes e em nossos corações. A lógica humana é revertida. Se não
desperdiçássemos tantos bens (alimentos, água, energia, roupas, etc.), não
haveria tanta miséria no mundo.

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