quarta-feira, março 18, 2026

IV DOMINGO DA QUARESMA












Se ouvirmos a história da cura de um cego de nascença – narrada pelo autor do Quarto Evangelho – apenas como algo que aconteceu em Jerusalém no longínquo ano 30 do séc. I, talvez ela nos soe como um fato bizarro, singular, mas que não nos diz respeito. No entanto, ao contá-la, o autor do Quarto Evangelho pretendeu envolver-nos e questionar-nos sobre a nossa maneira de viver. Não se trata apenas de uma história sobre um homem desconhecido que viveu há dois mil anos e que há muito desapareceu; é uma história sobre nós, os “cegos” do séc. XXI. Sobre nós? Mas nós estaremos realmente na mesma situação de cegueira daquele homem que se encontrou com Jesus próximo da piscina de Siloé? Talvez… Caminhamos às claras, vendo perfeitamente o caminho que trilhamos, ou arrastamo-nos pela vida sem rumo e sem objetivo? Sabemos para onde vamos e conhecemos o nosso destino final, ou limitamo-nos simplesmente a sobreviver, às escuras, apanhando pequenas migalhas de felicidade efêmera? Encaramos a realidade de frente, ou caminhamos de olhos fechados, recusando-nos a enfrentar as coisas que nos incomodam e que afetam o nosso bem-estar? Ousamos acolher os desafios que Deus nos vai apresentando, ou escondemo-nos atrás de um sem número de desculpas para justificar a nossa inércia e o nosso comodismo? Construímos a nossa vida ancorada na verdade e na autenticidade, ou vivemos iludidos, recusando-nos a enfrentar os nossos erros, preconceitos, manias, mentiras? Somos límpidos, sinceros, transparentes, leais, autênticos, ou tratamos de enganar os que nos rodeiam dando uma imagem falsa daquilo que somos? Vivemos na “luz”, ou vivemos nas “trevas”?

 

João, o autor do Quarto Evangelho, garante-nos: apesar das nossas escolhas erradas, apesar das nossas mentiras e hipocrisias, apesar do nosso egoísmo e da nossa autossuficiência, apesar da nossa instalação e do nosso comodismo, a nossa plena realização continua a ser a prioridade de Deus. Deus nunca se conforma quando vê os seus queridos filhos caminharem sem rumo, mergulhados e acomodados numa vida de “trevas”. Foi por isso que Ele enviou ao nosso encontro o Seu Filho Jesus. Jesus veio, segundo a Sua própria expressão, “trabalhar na obra” de Deus; e a “obra de Deus” é oferecer aos homens a possibilidade de abandonarem as trevas para viverem na luz. Jesus lutou objetivamente para derrotar as ideologias, as doutrinas, as instituições, as leis, os valores, os costumes que geram “escuridão”, sofrimento, injustiça, maldade. Jesus disse-nos claramente – com a Sua vida, com as Suas palavras, com os Seus gestos – como deveríamos viver para não ficarmos atolados numa vida sem saída. Deixou-se matar para vencer as “trevas” que dominavam o mundo. Apesar de tudo isso, continuamos – vinte e um séculos depois – a viver num mundo cheio de sombras. Porquê? O que é que está a faltar para que a luz de Deus ilumine plenamente os caminhos e a história dos homens?

 

Na catequese que hoje nos foi oferecida pelo autor joânico, o cego de nascença viu-se livre da cegueira quando se encontrou com Jesus, escutou as Suas orientações e cumpriu aquilo que Jesus lhe recomendou: lavar-se na “piscina de Siloé”, lavar-se na água “do Enviado”. Há, neste processo de “cura” e de transformação, uma intervenção de Jesus e uma ação do homem. A indicação do catequista João não podia ser mais transparente: Jesus mostra o caminho e disponibiliza o Seu Espírito; o homem, por sua vez, acolhe esse dom, compromete-se com Jesus, faz o que Jesus diz e torna-se um Homem Novo. Jesus mostra o caminho; o homem concretiza as indicações de Jesus. Quando somos batizados (quando mergulhamos na “água” que o “Enviado” de Deus nos oferece), aderimos a Jesus, acolhemos o dom do Espírito, escolhemos viver na “luz”. Depois, seguindo as orientações de Jesus, começamos a percorrer um caminho… Como tem sido a nossa caminhada? Temos cumprido a nossa parte? Temos vivido de forma coerente com o compromisso que abraçamos no dia em que nos encontramos com Jesus e recebemos o batismo? Ao longo do caminho mais ou menos longo que temos feito, continuamos a escutar as indicações de Jesus e a ser dirigidos pelo Espírito, ou entretanto mergulhamos noutras vidas, noutros caminhos, em realidades e valores que nos afastaram da luz?