Imaginai
a cena: desde a madrugada, o patrão caminha pela praça. Homens aguardam ali,
esperando trabalho. Alguns são fortes, outros já envelhecidos; uns cheios de
esperança, outros resignados. O patrão convoca os primeiros, combina o salário
e os envia à vinha. Mas o patrão retorna. Às nove, ao meio-dia, às três, às
cinco da tarde. A cada hora, encontra novos trabalhadores desocupados. Não os
ignora, não passa reto. Chama-os, envia-os para a mesma vinha.
Notai
bem: esses últimos não estavam lá por preguiça. “Porque ninguém nos contratou”,
respondem. Estavam ali, disponíveis, mas ninguém os havia chamado. Quando o
patrão lhes dirige a palavra, movem-se imediatamente. O chamado transforma a
espera em missão, a ociosidade em trabalho fecundo.
Ao
fim do dia, acontece o inesperado. O patrão ordena que se pague a todos o mesmo
salário, começando pelos últimos. Os primeiros murmuram, indignados:
“Suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro!” Aqui está o coração da
parábola. Nosso Senhor não ensina injustiça. O patrão cumpriu exatamente o
combinado com os primeiros. Não houve fraude. O que perturba esses
trabalhadores não é terem recebido menos, mas que os outros receberam igual.
Santo
Agostinho, ao comentar esta passagem, observa que Deus não pratica injustiça
quando nos dá sua graça, pois a graça, por definição, não se mede pelo mérito
humano. Se fosse merecida, não seria graça, seria salário. O Reino dos céus não
opera segundo a aritmética humana do dar e receber. Opera segundo a lógica do
amor divino, que é abundante, generoso, incalculável.
O
profeta Isaías já nos advertia: “Meus pensamentos não são como os vossos
pensamentos”. Deus não pensa como um patrão terreno que calcula lucros. Pensa
como Pai que deseja ver todos os seus filhos em casa. A salvação não se reparte
em porções menores porque muitos a recebem. Pelo contrário: quanto mais almas
entram no Reino, maior a alegria celeste.
Considerai
ainda: aqueles que trabalharam desde a madrugada tiveram a graça de estar na
vinha o dia todo, sob o olhar do patrão, cumprindo sua vontade. Os últimos
perderam esse privilégio. Quem serviu a Deus desde a juventude conhece alegrias
que o convertido tardio jamais experimentará nesta vida. Mas ambos recebem a
vida eterna, porque Deus é bom.
Amados,
esta parábola fala diretamente a nós que frequentamos a Igreja, que rezamos,
que nos esforçamos. Cuidado com a tentação dos primeiros trabalhadores. Quantas
vezes nos escandalizamos porque Deus acolhe o pecador que se converte no leito
de morte? Porque perdoa com facilidade aquele que nos ofendeu gravemente?
Porque derrama graças sobre quem, aos nossos olhos, não as merece?
Essa
murmuração revela algo terrível em nossa alma: servimos a Deus não por amor,
mas por cálculo. Queremos ser superiores aos outros. Desejamos um céu
hierarquizado segundo nossos méritos, não a comunhão dos santos na caridade
perfeita. São João Crisóstomo adverte que esta inveja espiritual é mais
perigosa que muitos pecados carnais, pois corrói a raiz da caridade.
Buscai
o Senhor enquanto pode ser achado, diz Isaías. Importa começar agora, não
comparar-se com os outros. Na vinha do Senhor há trabalho para todos: na
família, no cuidado dos pobres, na oração perseverante, no testemunho
silencioso da fé. Não vos preocupeis se outros chegaram antes ou chegarão
depois. Preocupai-vos em responder ao chamado quando ele vos alcança. E quando
virdes um pecador converter-se, alegrai-vos. Ele é vosso irmão, não vosso
concorrente. No céu não há primeiros e últimos em sentido de privilégio, mas
todos primeiros no amor de Deus.



