Vou
iniciar minha reflexão com a mesma pergunta que os discípulos fizeram a Jesus:
“por que falas ao povo em parábolas? A justificativa de Jesus é bem
interessante e se concentra no início da sua resposta: “porque a vós foi dado o
conhecimento dos mistérios do Reino dos céus, mas a eles não é dado.” Quem
conhece os mistérios do Reino? Aqueles que se tornam discípulos de Jesus. Mas,
prestemos atenção. Jesus não compreende o discipulado como uma sala de aula, na
qual um Mestre ensina e um grupo de pessoas aprende. A compreensão dos
Mistérios do Reino acontece pelo seguimento de Jesus, pelo ACOLHIMENTO da sua
mentalidade de vida, pelo modo como ele entende o que é a vida humana. Quem
apenas acha bonito a parábola do semeador (e todas as demais parábolas de Jesus)
faz parte daquele grupo de pessoas “do povo que se tornou insensível.” Ouvem,
mas não compreendem com o coração. Quer dizer, não colocam a Palavra no centro
de suas vidas. Para compreendermos a parábola do semeador é preciso ter uma
atitude de acolhimento. Assim como o coração da terra é preparado para acolher
a semente, assim é necessário que o coração esteja preparado para acolher a
Palavra que irá iluminar a compreensão da vida.
Jesus
fala do poder da Palavra comparando à uma semente, que é frágil, pequena e
necessitada de ser cultivada. Onde se encontra, pois, a força da semente?
Naquilo que ela contém dentro de si: ela contém um projeto de vida que produz
ainda mais vida em forma de flores e frutos. A Palavra de Deus é uma semente
que contém uma vida — a vida divina — que, sendo acolhida no terreno do coração
produzirá flores e frutos do Reino de Deus, que são os valores da vida cristã.
Isaias, na 1ª leitura, compara a Palavra com a chuva, dizendo que a chuva tem
uma força de fecundar a terra para que nela produza frutos. Os símbolos são
diferentes, mas a mensagem é a mesma: a Palavra é uma semente que contém dentro
dela a vida divina; a Palavra é uma chuva que contém a vida divina.
Interessante perceber, na parábola de Jesus, a prodigalidade do semeador:
semeia em todas as partes, no chão duro, na beira do caminho e até sobre
pedras. A chuva também cai no chão duro e sobre as pedras. São terrenos
impróprios para o cultivo e precisam ser preparados. A este ponto da minha
reflexão, convido cada um de nós a olhar para dentro de si e considerar se o
meu coração — se a minha vida interior — está preparado e em condições de
acolher a semente da Palavra de Deus.
Outro
detalhe da parábola são as dificuldades. Jesus apresenta alguns obstáculos que
impedem o acolhimento da Palavra: a superficialidade no modo de viver (vive de
qualquer jeito), resistências com relação à Igreja, preocupações excessivas
(ansiedades, medos, fobias...), dispersão pela perda de tempo (celular, TV,
lazer...) são exemplos dados por Jesus que continuam impedindo o acolhimento da
Palavra. Se a pessoa não é capaz de olhar para si mesma, olhar para seu modo de
viver, nunca terá condição de crescer espiritualmente porque, como dizia Jesus
no Evangelho, são pessoas insensíveis para com as coisas de Deus. O contrário
disso é o coração acolhedor que escuta e compreende a Palavra não somente como
explicações, mas compreende a Palavra a partir dos frutos que a Palavra produz
em sua vida: paz interior, calma, paciência, serenidade... e dos frutos que
produz na comunidade com relacionamentos fraternos, com a disposição de atuar
em atividades pastorais da comunidade. Os frutos da Palavra não se medem pelo tanto
de Teologia que se conhece, mas pelos frutos que produz dentro de si e nos
relacionamentos com as pessoas. A vida cristã, na parábola de Jesus e na
profecia de Isaías, nunca é vida parada, é sempre vida que produz flores e
frutos do Reino de Deus.
