Imaginai
a cena: Mateus está sentado em sua mesa de publicano, contando moedas
arrancadas de seus próprios irmãos. O ofício de cobrador de impostos era
desprezado não apenas pela rapina que frequentemente o acompanhava, mas
sobretudo porque representava colaboração com o invasor romano. Mateus conhecia
bem os olhares de desprezo que recebia diariamente. Sabia o que pensavam dele
na sinagoga, nas praças, nas casas de seus conterrâneos. Vivia cercado de
dinheiro e isolado de amor.
Então
Jesus passa. E faz algo totalmente inesperado: para diante da coletoria. Não
para denunciar, não para exortar ao arrependimento com longas palavras. Para e
olha. Naquele olhar, Mateus encontra algo que nunca havia encontrado:
misericórdia que enxerga não o pecado, mas o pecador; não a função infame, mas
a pessoa amada por Deus desde toda a eternidade. E Jesus pronuncia duas
palavras apenas: “Segue-me!” Duas palavras que bastam para mudar toda uma vida.
Mateus levanta-se, deixa tudo e segue. Fixai esta imagem em vossa alma: Cristo
passa hoje também diante de vossa mesa, de vosso lugar de pecado, de vossa
prisão interior. E vos olha com o mesmo amor.
Santo
Agostinho nos ensina que Cristo veio buscar o que estava perdido, curar o que
estava enfermo. Não são os sãos que precisam de médico, diz o Senhor aos
fariseus escandalizados. Palavra salutar! Os fariseus julgavam-se justos,
julgavam-se sãos. Por isso mesmo, fechavam-se à graça. Quem não reconhece sua
enfermidade não busca remédio. Quem se considera justo por suas próprias forças
dispensa o Médico divino. Eis o grande perigo da soberba espiritual: ela nos
torna impermeáveis à misericórdia.
Mateus,
ao contrário, sabia-se doente. Sabia-se pecador. E precisamente por isso,
quando a Misericórdia o chamou, pôde responder sem demora. A Igreja, corpo
místico de Cristo, continua esta missão: é hospital de campanha, como nos
recordou o Papa Francisco ecoando toda a tradição patrística. Não é clube de
perfeitos, mas casa de pecadores que buscam a santidade. Os sacramentos,
especialmente a Confissão, são o encontro pessoal com Cristo Médico, que não
veio condenar, mas salvar.
O
Senhor cita o profeta Oséias: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Que
significa isto? Deus não deseja ritos vazios, observâncias exteriores sem
conversão do coração. O que Ele quer é amor verdadeiro, conhecimento íntimo
dEle, relacionamento filial. O sacrifício que Deus aceita é o coração contrito
e humilhado, como reza o Salmo. É este o conhecimento de Deus que o profeta
reclama: não teoria sobre Deus, mas experiência viva de seu amor paterno.
Quantos cumprem deveres religiosos, mas têm o coração longe! Quantos rezam com
os lábios, mas vivem como se Deus não existisse!
A
misericórdia que Deus exige de nós é reflexo da misericórdia que Ele próprio
exerce. Sentar-se à mesa com pecadores, como fez Jesus na casa de Mateus, é
gesto profundamente simbólico: comer junto, no Oriente antigo, significava
comunhão, intimidade, aceitação. Cristo não teme contaminar-se; ao contrário,
Ele é o Santo que santifica pelo contato, o Puro que purifica pela presença. Na
Eucaristia, este banquete se perpetua: Cristo continua sentando-se à mesa
conosco, pecadores, para nos alimentar com seu próprio Corpo e Sangue.
Queridos
fiéis, que lição concreta tiramos deste Evangelho? Primeiro: nunca é tarde para
responder ao chamado de Cristo. Mateus estava atolado em pecado, isolado pela
infâmia de seu ofício, mas quando Cristo o chamou, ele se levantou
imediatamente. Talvez carregues há anos um peso, uma vergonha, um vício. Talvez
julgues que teu pecado é grande demais para a misericórdia de Deus. Mentira do
demônio! Cristo vos chama hoje, agora, neste momento. Levantai-vos da mesa da
vossa coletoria, do lugar onde negociais com o pecado. Segui-o sem demora.
Segundo:
não julgueis com dureza quem erra. Os fariseus escandalizavam-se porque Jesus
comia com pecadores. Quantas vezes nós, católicos praticantes, olhamos com
desprezo para quem está afastado, para quem vive em situação irregular, para
quem caiu! Nosso dever é imitar Cristo: aproximar-nos com misericórdia, não
para aprovar o pecado, mas para amar o pecador e conduzi-lo ao arrependimento.
A correção fraterna exige caridade verdadeira, não farisaísmo orgulhoso. Vossa
casa, vosso ambiente de trabalho, pode ser a mesa onde Cristo se senta com os
pecadores. Sede vós o instrumento de sua misericórdia.
Frequentai
os sacramentos, especialmente a Confissão e a Eucaristia. Neles, Cristo Médico
vos cura e alimenta. Não espereis ser perfeitos para vos aproximardes:
aproximai-vos para serdes curados. Levantai-vos de onde estais e segui o
Mestre. Ele vos espera, com olhar de amor infinito. Jesus, Médico das almas,
curai-me e serei curado.









