segunda-feira, setembro 21, 2026

XXV DOMINGO DO TEMPO COMUM









Imaginai a cena: desde a madrugada, o patrão caminha pela praça. Homens aguardam ali, esperando trabalho. Alguns são fortes, outros já envelhecidos; uns cheios de esperança, outros resignados. O patrão convoca os primeiros, combina o salário e os envia à vinha. Mas o patrão retorna. Às nove, ao meio-dia, às três, às cinco da tarde. A cada hora, encontra novos trabalhadores desocupados. Não os ignora, não passa reto. Chama-os, envia-os para a mesma vinha.

 

Notai bem: esses últimos não estavam lá por preguiça. “Porque ninguém nos contratou”, respondem. Estavam ali, disponíveis, mas ninguém os havia chamado. Quando o patrão lhes dirige a palavra, movem-se imediatamente. O chamado transforma a espera em missão, a ociosidade em trabalho fecundo.

Ao fim do dia, acontece o inesperado. O patrão ordena que se pague a todos o mesmo salário, começando pelos últimos. Os primeiros murmuram, indignados: “Suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro!” Aqui está o coração da parábola. Nosso Senhor não ensina injustiça. O patrão cumpriu exatamente o combinado com os primeiros. Não houve fraude. O que perturba esses trabalhadores não é terem recebido menos, mas que os outros receberam igual.

 

Santo Agostinho, ao comentar esta passagem, observa que Deus não pratica injustiça quando nos dá sua graça, pois a graça, por definição, não se mede pelo mérito humano. Se fosse merecida, não seria graça, seria salário. O Reino dos céus não opera segundo a aritmética humana do dar e receber. Opera segundo a lógica do amor divino, que é abundante, generoso, incalculável.

O profeta Isaías já nos advertia: “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos”. Deus não pensa como um patrão terreno que calcula lucros. Pensa como Pai que deseja ver todos os seus filhos em casa. A salvação não se reparte em porções menores porque muitos a recebem. Pelo contrário: quanto mais almas entram no Reino, maior a alegria celeste.

Considerai ainda: aqueles que trabalharam desde a madrugada tiveram a graça de estar na vinha o dia todo, sob o olhar do patrão, cumprindo sua vontade. Os últimos perderam esse privilégio. Quem serviu a Deus desde a juventude conhece alegrias que o convertido tardio jamais experimentará nesta vida. Mas ambos recebem a vida eterna, porque Deus é bom.

 

Amados, esta parábola fala diretamente a nós que frequentamos a Igreja, que rezamos, que nos esforçamos. Cuidado com a tentação dos primeiros trabalhadores. Quantas vezes nos escandalizamos porque Deus acolhe o pecador que se converte no leito de morte? Porque perdoa com facilidade aquele que nos ofendeu gravemente? Porque derrama graças sobre quem, aos nossos olhos, não as merece?

Essa murmuração revela algo terrível em nossa alma: servimos a Deus não por amor, mas por cálculo. Queremos ser superiores aos outros. Desejamos um céu hierarquizado segundo nossos méritos, não a comunhão dos santos na caridade perfeita. São João Crisóstomo adverte que esta inveja espiritual é mais perigosa que muitos pecados carnais, pois corrói a raiz da caridade.

 

Buscai o Senhor enquanto pode ser achado, diz Isaías. Importa começar agora, não comparar-se com os outros. Na vinha do Senhor há trabalho para todos: na família, no cuidado dos pobres, na oração perseverante, no testemunho silencioso da fé. Não vos preocupeis se outros chegaram antes ou chegarão depois. Preocupai-vos em responder ao chamado quando ele vos alcança. E quando virdes um pecador converter-se, alegrai-vos. Ele é vosso irmão, não vosso concorrente. No céu não há primeiros e últimos em sentido de privilégio, mas todos primeiros no amor de Deus.