segunda-feira, junho 08, 2026

X DOMINGO DO TEMPO COMUM













Imaginai a cena: Mateus está sentado em sua mesa de publicano, contando moedas arrancadas de seus próprios irmãos. O ofício de cobrador de impostos era desprezado não apenas pela rapina que frequentemente o acompanhava, mas sobretudo porque representava colaboração com o invasor romano. Mateus conhecia bem os olhares de desprezo que recebia diariamente. Sabia o que pensavam dele na sinagoga, nas praças, nas casas de seus conterrâneos. Vivia cercado de dinheiro e isolado de amor.

Então Jesus passa. E faz algo totalmente inesperado: para diante da coletoria. Não para denunciar, não para exortar ao arrependimento com longas palavras. Para e olha. Naquele olhar, Mateus encontra algo que nunca havia encontrado: misericórdia que enxerga não o pecado, mas o pecador; não a função infame, mas a pessoa amada por Deus desde toda a eternidade. E Jesus pronuncia duas palavras apenas: “Segue-me!” Duas palavras que bastam para mudar toda uma vida. Mateus levanta-se, deixa tudo e segue. Fixai esta imagem em vossa alma: Cristo passa hoje também diante de vossa mesa, de vosso lugar de pecado, de vossa prisão interior. E vos olha com o mesmo amor.

Santo Agostinho nos ensina que Cristo veio buscar o que estava perdido, curar o que estava enfermo. Não são os sãos que precisam de médico, diz o Senhor aos fariseus escandalizados. Palavra salutar! Os fariseus julgavam-se justos, julgavam-se sãos. Por isso mesmo, fechavam-se à graça. Quem não reconhece sua enfermidade não busca remédio. Quem se considera justo por suas próprias forças dispensa o Médico divino. Eis o grande perigo da soberba espiritual: ela nos torna impermeáveis à misericórdia.

Mateus, ao contrário, sabia-se doente. Sabia-se pecador. E precisamente por isso, quando a Misericórdia o chamou, pôde responder sem demora. A Igreja, corpo místico de Cristo, continua esta missão: é hospital de campanha, como nos recordou o Papa Francisco ecoando toda a tradição patrística. Não é clube de perfeitos, mas casa de pecadores que buscam a santidade. Os sacramentos, especialmente a Confissão, são o encontro pessoal com Cristo Médico, que não veio condenar, mas salvar.

O Senhor cita o profeta Oséias: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Que significa isto? Deus não deseja ritos vazios, observâncias exteriores sem conversão do coração. O que Ele quer é amor verdadeiro, conhecimento íntimo dEle, relacionamento filial. O sacrifício que Deus aceita é o coração contrito e humilhado, como reza o Salmo. É este o conhecimento de Deus que o profeta reclama: não teoria sobre Deus, mas experiência viva de seu amor paterno. Quantos cumprem deveres religiosos, mas têm o coração longe! Quantos rezam com os lábios, mas vivem como se Deus não existisse!

A misericórdia que Deus exige de nós é reflexo da misericórdia que Ele próprio exerce. Sentar-se à mesa com pecadores, como fez Jesus na casa de Mateus, é gesto profundamente simbólico: comer junto, no Oriente antigo, significava comunhão, intimidade, aceitação. Cristo não teme contaminar-se; ao contrário, Ele é o Santo que santifica pelo contato, o Puro que purifica pela presença. Na Eucaristia, este banquete se perpetua: Cristo continua sentando-se à mesa conosco, pecadores, para nos alimentar com seu próprio Corpo e Sangue.

Queridos fiéis, que lição concreta tiramos deste Evangelho? Primeiro: nunca é tarde para responder ao chamado de Cristo. Mateus estava atolado em pecado, isolado pela infâmia de seu ofício, mas quando Cristo o chamou, ele se levantou imediatamente. Talvez carregues há anos um peso, uma vergonha, um vício. Talvez julgues que teu pecado é grande demais para a misericórdia de Deus. Mentira do demônio! Cristo vos chama hoje, agora, neste momento. Levantai-vos da mesa da vossa coletoria, do lugar onde negociais com o pecado. Segui-o sem demora.

Segundo: não julgueis com dureza quem erra. Os fariseus escandalizavam-se porque Jesus comia com pecadores. Quantas vezes nós, católicos praticantes, olhamos com desprezo para quem está afastado, para quem vive em situação irregular, para quem caiu! Nosso dever é imitar Cristo: aproximar-nos com misericórdia, não para aprovar o pecado, mas para amar o pecador e conduzi-lo ao arrependimento. A correção fraterna exige caridade verdadeira, não farisaísmo orgulhoso. Vossa casa, vosso ambiente de trabalho, pode ser a mesa onde Cristo se senta com os pecadores. Sede vós o instrumento de sua misericórdia.

Frequentai os sacramentos, especialmente a Confissão e a Eucaristia. Neles, Cristo Médico vos cura e alimenta. Não espereis ser perfeitos para vos aproximardes: aproximai-vos para serdes curados. Levantai-vos de onde estais e segui o Mestre. Ele vos espera, com olhar de amor infinito. Jesus, Médico das almas, curai-me e serei curado.