Se
ouvirmos a história da cura de um cego de nascença – narrada pelo autor do
Quarto Evangelho – apenas como algo que aconteceu em Jerusalém no longínquo ano
30 do séc. I, talvez ela nos soe como um fato bizarro, singular, mas que não
nos diz respeito. No entanto, ao contá-la, o autor do Quarto Evangelho
pretendeu envolver-nos e questionar-nos sobre a nossa maneira de viver. Não se
trata apenas de uma história sobre um homem desconhecido que viveu há dois mil
anos e que há muito desapareceu; é uma história sobre nós, os “cegos” do séc.
XXI. Sobre nós? Mas nós estaremos realmente na mesma situação de cegueira
daquele homem que se encontrou com Jesus próximo da piscina de Siloé? Talvez…
Caminhamos às claras, vendo perfeitamente o caminho que trilhamos, ou arrastamo-nos
pela vida sem rumo e sem objetivo? Sabemos para onde vamos e conhecemos o nosso
destino final, ou limitamo-nos simplesmente a sobreviver, às escuras, apanhando
pequenas migalhas de felicidade efêmera? Encaramos a realidade de frente, ou
caminhamos de olhos fechados, recusando-nos a enfrentar as coisas que nos
incomodam e que afetam o nosso bem-estar? Ousamos acolher os desafios que Deus
nos vai apresentando, ou escondemo-nos atrás de um sem número de desculpas para
justificar a nossa inércia e o nosso comodismo? Construímos a nossa vida
ancorada na verdade e na autenticidade, ou vivemos iludidos, recusando-nos a
enfrentar os nossos erros, preconceitos, manias, mentiras? Somos límpidos,
sinceros, transparentes, leais, autênticos, ou tratamos de enganar os que nos
rodeiam dando uma imagem falsa daquilo que somos? Vivemos na “luz”, ou vivemos
nas “trevas”?
João,
o autor do Quarto Evangelho, garante-nos: apesar das nossas escolhas erradas,
apesar das nossas mentiras e hipocrisias, apesar do nosso egoísmo e da nossa
autossuficiência, apesar da nossa instalação e do nosso comodismo, a nossa
plena realização continua a ser a prioridade de Deus. Deus nunca se conforma
quando vê os seus queridos filhos caminharem sem rumo, mergulhados e acomodados
numa vida de “trevas”. Foi por isso que Ele enviou ao nosso encontro o Seu
Filho Jesus. Jesus veio, segundo a Sua própria expressão, “trabalhar na obra”
de Deus; e a “obra de Deus” é oferecer aos homens a possibilidade de
abandonarem as trevas para viverem na luz. Jesus lutou objetivamente para
derrotar as ideologias, as doutrinas, as instituições, as leis, os valores, os
costumes que geram “escuridão”, sofrimento, injustiça, maldade. Jesus disse-nos
claramente – com a Sua vida, com as Suas palavras, com os Seus gestos – como
deveríamos viver para não ficarmos atolados numa vida sem saída. Deixou-se
matar para vencer as “trevas” que dominavam o mundo. Apesar de tudo isso,
continuamos – vinte e um séculos depois – a viver num mundo cheio de sombras.
Porquê? O que é que está a faltar para que a luz de Deus ilumine plenamente os
caminhos e a história dos homens?
Na
catequese que hoje nos foi oferecida pelo autor joânico, o cego de nascença
viu-se livre da cegueira quando se encontrou com Jesus, escutou as Suas
orientações e cumpriu aquilo que Jesus lhe recomendou: lavar-se na “piscina de
Siloé”, lavar-se na água “do Enviado”. Há, neste processo de “cura” e de
transformação, uma intervenção de Jesus e uma ação do homem. A indicação do
catequista João não podia ser mais transparente: Jesus mostra o caminho e
disponibiliza o Seu Espírito; o homem, por sua vez, acolhe esse dom,
compromete-se com Jesus, faz o que Jesus diz e torna-se um Homem Novo. Jesus
mostra o caminho; o homem concretiza as indicações de Jesus. Quando somos
batizados (quando mergulhamos na “água” que o “Enviado” de Deus nos oferece),
aderimos a Jesus, acolhemos o dom do Espírito, escolhemos viver na “luz”.
Depois, seguindo as orientações de Jesus, começamos a percorrer um caminho…
Como tem sido a nossa caminhada? Temos cumprido a nossa parte? Temos vivido de
forma coerente com o compromisso que abraçamos no dia em que nos encontramos
com Jesus e recebemos o batismo? Ao longo do caminho mais ou menos longo que
temos feito, continuamos a escutar as indicações de Jesus e a ser dirigidos
pelo Espírito, ou entretanto mergulhamos noutras vidas, noutros caminhos, em
realidades e valores que nos afastaram da luz?






