A
liturgia deste Domingo lembra-nos que Deus chama todos os seus filhos a
desempenhar um determinado papel no projeto que Ele tem para o mundo e para os
homens. Nesse sentido, apresentou-nos a vocação do Servo de Javé, a vocação do
apóstolo Paulo e a vocação dos cristãos de Corinto (que é, afinal, a vocação
dos cristãos de todos os tempos e lugares). O quadro não estaria completo sem
uma referência a Jesus e à missão que o Pai Lhe confiou no seu projeto de
salvação. É esse o tema do Evangelho deste dia. No entanto, antes de nos
questionarmos sobre a missão que o Pai confiou a Jesus, detenhamo-nos um pouco
a olhar para esse fato espantoso e verdadeiramente improvável que é Deus
escolher-nos, chamar-nos, enviar-nos, envolver-nos nos planos que Ele desenhou
para levar todos os homens ao encontro da vida plena. É verdade: apesar da
nossa pequenez, dos nossos limites, da nossa indignidade, Deus conta conosco –
com cada um de nós – para concretizar o seu projeto de salvação. Como nos
sentimos diante do chamamento de Deus? Como Jesus, estamos dispostos a cumprir
o papel que Deus quer confiar-nos no contexto do seu plano salvador?
João
Batista, o “apresentador oficial” de Jesus, diz-nos que Jesus é “o Cordeiro de
Deus” que veio tirar o pecado do mundo”. O que é que isso significa? Que Deus,
irritado com as ofensas que Lhe fazemos, decidiu enviar alguém da sua confiança
para nos controlar e para nos impor a sua vontade? Não. Deus não é um ditador
cujo programa é restringir a liberdade dos seus súditos; mas é um Pai cheio de
amor, um Pai que detesta ver os seus filhos a escolher caminhos que os afastam
da felicidade e da vida verdadeira. O pecado não é uma ofensa contra Deus; é
uma decisão estúpida nossa, uma decisão que nos leva por caminhos sem saída. O
envio de Jesus ao encontro dos homens para “tirar o pecado do mundo”, é a
decisão amorosa de um Pai que quer estar sempre ao nosso lado e ajudar-nos a
vencer tudo aquilo que nos destrói e nos rouba a vida. Jesus enfrentou
precisamente o “pecado do mundo” – o egoísmo, a injustiça, a violência, a
maldade – para nos mostrar como devemos viver para ter vida verdadeira. Jesus
morreu porque decidiu enfrentar “o pecado”; mas Deus ressuscitou-O e deu-Lhe
razão. A ressurreição de Jesus significa a sua vitória sobre o pecado. Nós,
esses filhos e filhas que Deus quer salvar, escutamos e acolhemos as indicações
de Jesus? Já percebemos que o pecado é “um mau negócio”, uma opção que não
ajuda a construir uma vida com pleno sentido?
Apesar
da vitória de Jesus, o pecado não desapareceu da história e da vida dos homens.
O “pecado” continua hoje a enegrecer o nosso horizonte diário, apresentando-se
em forma de guerras, de terrorismo, de corrupção, de injustiça, de indiferença,
de exploração dos mais fracos, de tráfico de pessoas, de açambarcamento por
alguns dos recursos que pertencem a todos, de destruição da natureza e da
criação… Jesus falhou? Não. Jesus disse-nos, em nome de Deus, que o pecado
frustra a nossa vocação à vida plena; lutou contra o pecado e mostrou-nos como
derrotá-lo. A questão é que nós continuamos a fazer escolhas duvidosas e a
preferir seguir caminhos de autossuficiência, passando ao lado de tudo o que
Jesus nos veio dizer. No entanto, a nossa missão é continuar a obra de Jesus e
lutar objetivamente contra “o pecado” instalado no coração de cada um de nós e
instalado em cada degrau da nossa vida coletiva. A missão dos seguidores de
Jesus consiste em anunciar a vida plena e em lutar contra tudo aquilo que
impede a sua concretização na história. É isso que fazemos? Enquanto discípulos
de Jesus, lutamos objetivamente contra os mecanismos de pecado que, por todo o
lado, trazem sofrimento e morte à vida dos homens?
João
Batista diz-nos também que Jesus é o “Filho de Deus” que veio ao encontro dos
homens e que dá testemunho no mundo dessa vida de Deus que O habita em
plenitude. A vida de Deus brilha no mundo e ilumina a história dos homens
através das palavras, dos gestos, do amor que Jesus partilhou com todos os que
com Ele se cruzaram nos caminhos da Galileia e da Judeia, especialmente os
pobres, os marginalizados, os pequeninos, os sofredores, os injustiçados. Em
Jesus, Deus encontrou-se com os homens e manifestou-lhes a sua bondade e a sua
misericórdia. Jesus, quando terminou o seu caminho neste mundo, encarregou os
seus discípulos de continuarem a sua obra. Hoje são os discípulos de Jesus que,
apesar das suas limitações e fragilidades, têm como missão testemunhar no mundo
o rosto de Deus, o coração de Deus, a misericórdia de Deus, a vida de Deus.
Segundo
João Batista, Jesus veio “batizar no Espírito”. A todos aqueles que se
dispuserem a acolher a sua proposta, Jesus comunica a vida de Deus, a força de
Deus, o amor de Deus (o Espírito Santo). Os primeiros discípulos de Jesus
fizeram essa experiência no dia de Pentecostes (cf. At 2). Aquele que recebe
esse “batismo no Espírito”, passa a viver segundo um dinamismo novo: os seus
gestos, as suas palavras e o seu estilo de vida refletem a vida de Deus. O que
é batizado no Espírito, renuncia à escravidão do pecado e passa a fazer as
obras de Deus. Ser batizado no Espírito corresponde a um novo nascimento. Para
nós, este caminho começou no dia em que fomos batizados, o dia em que nos
comprometemos a caminhar com Jesus e recebemos d’Ele a vida de Deus. Temos
vivido de forma coerente com essa opção? Renovamos em cada dia a nossa decisão
por Jesus ou, entretanto, optamos por outros caminhos, outras propostas, outras
formas de vida? A nossa vida, as nossas escolhas, os nossos valores, os nossos
gestos refletem a opção que fizemos no dia em que fomos “batizados no
Espírito”?







