segunda-feira, janeiro 19, 2026

II DOMINGO DO TEMPO COMUM








A liturgia deste Domingo lembra-nos que Deus chama todos os seus filhos a desempenhar um determinado papel no projeto que Ele tem para o mundo e para os homens. Nesse sentido, apresentou-nos a vocação do Servo de Javé, a vocação do apóstolo Paulo e a vocação dos cristãos de Corinto (que é, afinal, a vocação dos cristãos de todos os tempos e lugares). O quadro não estaria completo sem uma referência a Jesus e à missão que o Pai Lhe confiou no seu projeto de salvação. É esse o tema do Evangelho deste dia. No entanto, antes de nos questionarmos sobre a missão que o Pai confiou a Jesus, detenhamo-nos um pouco a olhar para esse fato espantoso e verdadeiramente improvável que é Deus escolher-nos, chamar-nos, enviar-nos, envolver-nos nos planos que Ele desenhou para levar todos os homens ao encontro da vida plena. É verdade: apesar da nossa pequenez, dos nossos limites, da nossa indignidade, Deus conta conosco – com cada um de nós – para concretizar o seu projeto de salvação. Como nos sentimos diante do chamamento de Deus? Como Jesus, estamos dispostos a cumprir o papel que Deus quer confiar-nos no contexto do seu plano salvador?

João Batista, o “apresentador oficial” de Jesus, diz-nos que Jesus é “o Cordeiro de Deus” que veio tirar o pecado do mundo”. O que é que isso significa? Que Deus, irritado com as ofensas que Lhe fazemos, decidiu enviar alguém da sua confiança para nos controlar e para nos impor a sua vontade? Não. Deus não é um ditador cujo programa é restringir a liberdade dos seus súditos; mas é um Pai cheio de amor, um Pai que detesta ver os seus filhos a escolher caminhos que os afastam da felicidade e da vida verdadeira. O pecado não é uma ofensa contra Deus; é uma decisão estúpida nossa, uma decisão que nos leva por caminhos sem saída. O envio de Jesus ao encontro dos homens para “tirar o pecado do mundo”, é a decisão amorosa de um Pai que quer estar sempre ao nosso lado e ajudar-nos a vencer tudo aquilo que nos destrói e nos rouba a vida. Jesus enfrentou precisamente o “pecado do mundo” – o egoísmo, a injustiça, a violência, a maldade – para nos mostrar como devemos viver para ter vida verdadeira. Jesus morreu porque decidiu enfrentar “o pecado”; mas Deus ressuscitou-O e deu-Lhe razão. A ressurreição de Jesus significa a sua vitória sobre o pecado. Nós, esses filhos e filhas que Deus quer salvar, escutamos e acolhemos as indicações de Jesus? Já percebemos que o pecado é “um mau negócio”, uma opção que não ajuda a construir uma vida com pleno sentido?

Apesar da vitória de Jesus, o pecado não desapareceu da história e da vida dos homens. O “pecado” continua hoje a enegrecer o nosso horizonte diário, apresentando-se em forma de guerras, de terrorismo, de corrupção, de injustiça, de indiferença, de exploração dos mais fracos, de tráfico de pessoas, de açambarcamento por alguns dos recursos que pertencem a todos, de destruição da natureza e da criação… Jesus falhou? Não. Jesus disse-nos, em nome de Deus, que o pecado frustra a nossa vocação à vida plena; lutou contra o pecado e mostrou-nos como derrotá-lo. A questão é que nós continuamos a fazer escolhas duvidosas e a preferir seguir caminhos de autossuficiência, passando ao lado de tudo o que Jesus nos veio dizer. No entanto, a nossa missão é continuar a obra de Jesus e lutar objetivamente contra “o pecado” instalado no coração de cada um de nós e instalado em cada degrau da nossa vida coletiva. A missão dos seguidores de Jesus consiste em anunciar a vida plena e em lutar contra tudo aquilo que impede a sua concretização na história. É isso que fazemos? Enquanto discípulos de Jesus, lutamos objetivamente contra os mecanismos de pecado que, por todo o lado, trazem sofrimento e morte à vida dos homens?

João Batista diz-nos também que Jesus é o “Filho de Deus” que veio ao encontro dos homens e que dá testemunho no mundo dessa vida de Deus que O habita em plenitude. A vida de Deus brilha no mundo e ilumina a história dos homens através das palavras, dos gestos, do amor que Jesus partilhou com todos os que com Ele se cruzaram nos caminhos da Galileia e da Judeia, especialmente os pobres, os marginalizados, os pequeninos, os sofredores, os injustiçados. Em Jesus, Deus encontrou-se com os homens e manifestou-lhes a sua bondade e a sua misericórdia. Jesus, quando terminou o seu caminho neste mundo, encarregou os seus discípulos de continuarem a sua obra. Hoje são os discípulos de Jesus que, apesar das suas limitações e fragilidades, têm como missão testemunhar no mundo o rosto de Deus, o coração de Deus, a misericórdia de Deus, a vida de Deus.

Segundo João Batista, Jesus veio “batizar no Espírito”. A todos aqueles que se dispuserem a acolher a sua proposta, Jesus comunica a vida de Deus, a força de Deus, o amor de Deus (o Espírito Santo). Os primeiros discípulos de Jesus fizeram essa experiência no dia de Pentecostes (cf. At 2). Aquele que recebe esse “batismo no Espírito”, passa a viver segundo um dinamismo novo: os seus gestos, as suas palavras e o seu estilo de vida refletem a vida de Deus. O que é batizado no Espírito, renuncia à escravidão do pecado e passa a fazer as obras de Deus. Ser batizado no Espírito corresponde a um novo nascimento. Para nós, este caminho começou no dia em que fomos batizados, o dia em que nos comprometemos a caminhar com Jesus e recebemos d’Ele a vida de Deus. Temos vivido de forma coerente com essa opção? Renovamos em cada dia a nossa decisão por Jesus ou, entretanto, optamos por outros caminhos, outras propostas, outras formas de vida? A nossa vida, as nossas escolhas, os nossos valores, os nossos gestos refletem a opção que fizemos no dia em que fomos “batizados no Espírito”?