Logo
após o batismo no Jordão, o Espírito conduz Jesus ao deserto. Não o leva para
um lugar de aplausos, mas para um cenário de silêncio, calor e solidão. Ali,
longe das multidões, Cristo enfrenta a tentação. Portanto, antes de iniciar sua
missão pública, Ele escolhe entrar em combate. Isso já nos ensina algo
decisivo: quem deseja viver a vontade de Deus precisa aprender a lutar
interiormente.
Durante
quarenta dias, Jesus jejua. Ele sente fome. Ele experimenta fraqueza. Contudo,
não foge da realidade humana. Ao contrário, assume nossa condição até o fim. O
tentador então se aproxima e ataca justamente na necessidade mais básica: “Se
és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pão.” Aqui, o
inimigo sugere que Jesus use o poder para si. Em outras palavras, propõe uma fé
voltada para o conforto, não para a obediência.
Entretanto,
Cristo responde com firmeza: “Não só de pão vive o homem.” Com essa afirmação,
Ele recoloca a ordem das coisas. O corpo precisa de alimento, sim, mas a alma
precisa de Deus. Quando alguém coloca o prazer, o dinheiro ou a segurança acima
da verdade, já começou a ceder. Por isso, o deserto revela o que realmente
sustenta o coração.
Em
seguida, o diabo oferece todos os reinos do mundo. Ele promete poder, glória e
domínio imediato. A proposta parece eficiente, rápida, sedutora. No entanto,
exige adoração. Exige troca. Exige que Jesus dobre os joelhos diante do mal
para alcançar um bem aparente. Aqui aparece a tentação do atalho, da conquista
sem cruz, do sucesso sem fidelidade.
Contudo,
o Senhor responde novamente com clareza: “Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele
servirás.” Dessa forma, Ele reafirma que nenhum poder vale a perda da comunhão
com o Pai. Muitos hoje desejam resultados imediatos. Muitos aceitam
compromissos duvidosos para crescer, vencer ou aparecer. Entretanto, Cristo
mostra que a verdadeira autoridade nasce da fidelidade e não da negociação com
o erro.
Por
fim, o tentador leva Jesus ao ponto mais alto do templo e o provoca a se lançar
dali, citando até a Escritura. Agora o inimigo usa palavras sagradas para
distorcer a confiança. Ele propõe um espetáculo religioso. Ele sugere que Jesus
prove quem é por meio de um gesto impressionante. Aqui surge a tentação da
vaidade espiritual, do exibicionismo da fé.
Contudo,
mais uma vez, Cristo responde com equilíbrio: “Não tentarás o Senhor teu Deus.”
Ele não manipula o Pai. Ele não transforma fé em show, e confia sem exigir
provas. Nesse momento, Jesus nos ensina que a maturidade espiritual rejeita
tanto o desespero quanto a presunção.
Assim,
ao final do combate, o diabo se afasta. Cristo vence não com gritos, mas com
fidelidade à Palavra. Ele usa a Escritura como espada e a obediência como
escudo. Portanto, o deserto não representa fracasso; representa preparação.
Antes de anunciar o Reino, Jesus fortalece o interior. Agora precisamos olhar
para nós mesmos. Cada pessoa enfrenta seu próprio deserto. Cada um sente fome
de algo, deseja reconhecimento ou busca segurança. A tentação sempre aparece
disfarçada de solução fácil. Contudo, a decisão permanece nossa. Seguiremos a
lógica do mundo ou a verdade de Deus?
Hoje
o Evangelho nos convida a escolher. Cristo não elimina nossas lutas, mas
caminha conosco dentro delas. Ele mostra que a vitória nasce da confiança firme
no Pai. Se aprendermos a responder com a Palavra e a manter o coração
obediente, venceremos também.
Que
este tempo nos ajude a enfrentar nossas tentações com coragem. Que o deserto
nos ensine dependência. E que, ao sair dele, possamos iniciar nossa missão com
a mesma firmeza de Cristo.







