terça-feira, junho 16, 2026

XI DOMINGO DO TEMPO COMUM












Estamos diante de uma das cenas mais comoventes dos Evangelhos. Jesus percorre as aldeias da Galileia e vê as multidões que o seguem. Não são apenas rostos anônimos, são pessoas concretas: pais de família esgotados pelo trabalho, mães preocupadas com os filhos doentes, jovens sem rumo, anciãos carregando o peso dos anos e das desilusões. O texto sagrado usa uma palavra forte: Jesus “compadeceu-se.

Fixemos bem esta imagem. Ovelhas sem pastor não sabem para onde ir, dispersam-se, tornam-se presa fácil dos lobos, ferem-se nos espinheiros, morrem de sede longe das fontes. Israel tinha escribas e fariseus, tinha doutores da Lei e sacerdotes no Templo, mas faltava-lhe o verdadeiro Pastor, aquele que conhece cada ovelha pelo nome e dá a vida por elas. Jesus vê esta necessidade e não fica indiferente. Seu Coração divino-humano vibra de compaixão. E desta compaixão nasce uma decisão: enviar colaboradores, operários para a messe, homens que prolonguem sua própria missão salvadora.

A primeira leitura nos conduz ao Sinai, onde Deus estabelece a Aliança com Israel. Ali Deus revela o sentido profundo de ter escolhido este povo: “Sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”. Que mistério admirável! Deus não escolhe Israel apenas para que este guarde a Lei para si mesmo, mas para que seja mediador, ponte entre o céu e a terra, sacerdote em favor das nações. Esta vocação se cumpre plenamente em Cristo, o único Mediador, e se estende à sua Igreja, novo Israel, povo sacerdotal.

Reparemos nos nomes: Simão Pedro, André, Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, o outro Tiago, Tadeu, Simão Zelota e até Judas Iscariotes. Homens comuns, pecadores, com suas fraquezas e limites. Um deles até trairá o Mestre. Contudo, Jesus lhes confere poder divino: expulsar demônios, curar doentes, ressuscitar mortos, purificar leprosos. “De graça recebestes, de graça deveis dar”. Aqui está a lei fundamental do apostolado: tudo é dom de Deus, tudo vem da graça, nada podemos atribuir a nós mesmos. O Catecismo da Igreja Católica ensina que os Apóstolos são as pedras de fundação da Igreja (CIC 857), e seus sucessores, os bispos, com os presbíteros, continuam esta missão até o fim dos tempos.

Amados, este Evangelho interpela cada um de nós hoje. A messe continua grande e os operários continuam poucos. Ao nosso redor, quantas almas cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor! Pessoas que buscam sentido na carreira, no dinheiro, nos prazeres, e não encontram paz. Jovens seduzidos pelas ideologias do mundo, que prometem liberdade e entregam escravidão. Famílias destroçadas pela infidelidade, pelo egoísmo, pela falta de oração. Quem levará a estas ovelhas o bálsamo do Evangelho? Quem lhes falará de Cristo?

Talvez penseis: “Não sou padre, não sou religioso, o que posso fazer?”. Muito, irmãos, muitíssimo! Cada batizado é enviado. No vosso lar, vivei a caridade conjugal e a paciência com os filhos como anúncio silencioso do amor de Deus. No trabalho, sede honestos, competentes, respeitosos, testemunhando que se pode viver de modo diferente. Na universidade, na escola, nos ambientes sociais, não vos envergonheis da fé: uma palavra oportuna, dita com mansidão e firmeza, pode semear a verdade num coração. Rezai pelos sacerdotes, rezai pelas vocações, e se Deus chama vosso filho ou vossa filha, não sejais obstáculo, sede cooperadores da graça.

De graça recebestes, de graça deveis dar. Que esta palavra ressoe em vossos corações. Tudo é graça: a fé, os sacramentos, a pertença à Igreja, a esperança da vida eterna. Não guardeis para vós este tesouro. Partilhai-o com generosidade, sem medo, sem cálculo. O mundo precisa de cristãos corajosos, não de tímidos. Cristo conta convosco. Santíssima Virgem Maria, Rainha dos Apóstolos, rogai por nós.