Estamos
diante de uma das cenas mais comoventes dos Evangelhos. Jesus percorre as
aldeias da Galileia e vê as multidões que o seguem. Não são apenas rostos
anônimos, são pessoas concretas: pais de família esgotados pelo trabalho, mães
preocupadas com os filhos doentes, jovens sem rumo, anciãos carregando o peso
dos anos e das desilusões. O texto sagrado usa uma palavra forte: Jesus
“compadeceu-se.
Fixemos
bem esta imagem. Ovelhas sem pastor não sabem para onde ir, dispersam-se,
tornam-se presa fácil dos lobos, ferem-se nos espinheiros, morrem de sede longe
das fontes. Israel tinha escribas e fariseus, tinha doutores da Lei e
sacerdotes no Templo, mas faltava-lhe o verdadeiro Pastor, aquele que conhece
cada ovelha pelo nome e dá a vida por elas. Jesus vê esta necessidade e não
fica indiferente. Seu Coração divino-humano vibra de compaixão. E desta
compaixão nasce uma decisão: enviar colaboradores, operários para a messe,
homens que prolonguem sua própria missão salvadora.
A
primeira leitura nos conduz ao Sinai, onde Deus estabelece a Aliança com
Israel. Ali Deus revela o sentido profundo de ter escolhido este povo: “Sereis
para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”. Que mistério admirável!
Deus não escolhe Israel apenas para que este guarde a Lei para si mesmo, mas
para que seja mediador, ponte entre o céu e a terra, sacerdote em favor das
nações. Esta vocação se cumpre plenamente em Cristo, o único Mediador, e se
estende à sua Igreja, novo Israel, povo sacerdotal.
Reparemos
nos nomes: Simão Pedro, André, Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, o
outro Tiago, Tadeu, Simão Zelota e até Judas Iscariotes. Homens comuns,
pecadores, com suas fraquezas e limites. Um deles até trairá o Mestre. Contudo,
Jesus lhes confere poder divino: expulsar demônios, curar doentes, ressuscitar
mortos, purificar leprosos. “De graça recebestes, de graça deveis dar”. Aqui
está a lei fundamental do apostolado: tudo é dom de Deus, tudo vem da graça,
nada podemos atribuir a nós mesmos. O Catecismo da Igreja Católica ensina que
os Apóstolos são as pedras de fundação da Igreja (CIC 857), e seus sucessores,
os bispos, com os presbíteros, continuam esta missão até o fim dos tempos.
Amados,
este Evangelho interpela cada um de nós hoje. A messe continua grande e os
operários continuam poucos. Ao nosso redor, quantas almas cansadas e abatidas
como ovelhas sem pastor! Pessoas que buscam sentido na carreira, no dinheiro,
nos prazeres, e não encontram paz. Jovens seduzidos pelas ideologias do mundo,
que prometem liberdade e entregam escravidão. Famílias destroçadas pela
infidelidade, pelo egoísmo, pela falta de oração. Quem levará a estas ovelhas o
bálsamo do Evangelho? Quem lhes falará de Cristo?
Talvez
penseis: “Não sou padre, não sou religioso, o que posso fazer?”. Muito, irmãos,
muitíssimo! Cada batizado é enviado. No vosso lar, vivei a caridade conjugal e
a paciência com os filhos como anúncio silencioso do amor de Deus. No trabalho,
sede honestos, competentes, respeitosos, testemunhando que se pode viver de
modo diferente. Na universidade, na escola, nos ambientes sociais, não vos
envergonheis da fé: uma palavra oportuna, dita com mansidão e firmeza, pode
semear a verdade num coração. Rezai pelos sacerdotes, rezai pelas vocações, e
se Deus chama vosso filho ou vossa filha, não sejais obstáculo, sede
cooperadores da graça.
De
graça recebestes, de graça deveis dar. Que esta palavra ressoe em vossos
corações. Tudo é graça: a fé, os sacramentos, a pertença à Igreja, a esperança
da vida eterna. Não guardeis para vós este tesouro. Partilhai-o com
generosidade, sem medo, sem cálculo. O mundo precisa de cristãos corajosos, não
de tímidos. Cristo conta convosco. Santíssima Virgem Maria, Rainha dos
Apóstolos, rogai por nós.
