terça-feira, junho 30, 2026

SOLENIDADE DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO











Estamos em Cesareia de Filipe, longe do tumulto de Jerusalém, nas encostas do monte Hermon. Ali, onde os gentios erguiam templos aos deuses pagãos e onde as águas brotavam das rochas como nascente do Jordão, Jesus reúne os seus e lhes faz uma pergunta. Não é pergunta ociosa, nem curiosidade de mestre. É o momento em que o Verbo Encarnado exige de seus amigos uma resposta pessoal, uma decisão do coração. Os discípulos começam relatando o que dizem os outros: uns afirmam que Jesus é João Batista ressuscitado, outros que é Elias, outros ainda que é Jeremias ou algum profeta. Opiniões flutuantes, rumores de multidão. Mas então vem a pergunta decisiva, aquela que atravessa os séculos e chega até nós: “E vós, quem dizeis que eu sou?”

Pedro não hesita. Simão, o pescador impetuoso, responde com fé que não vem da carne nem do sangue: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Não diz apenas “um profeta”, nem “um enviado”. Proclama a divindade de Cristo, a filiação eterna, o mistério que nenhum olho humano pode penetrar sem a graça. E Jesus, ao ouvir essa confissão, não a corrige, não a atenua. Antes, revela que foi o Pai celeste quem abriu os olhos de Pedro. A fé verdadeira é dom de Deus, luz que desce do alto. Fixemos o olhar nesta cena: o Filho de Deus diante do homem que confessa sua divindade, e sobre esse homem, sobre essa confissão de fé, Cristo edificará sua Igreja.

A promessa de Cristo é solene e irrevogável. “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. O jogo de palavras não é acidental: Simão recebe um nome novo, Kефа em aramaico, Petrus em latim, Pedra. Não é ele quem constrói a Igreja; é Cristo quem a edifica. Mas Cristo a edifica sobre Pedro, constituindo-o fundamento visível da unidade da fé. Santo Agostinho ensina que Pedro recebeu as chaves não para si somente, mas em nome de toda a Igreja, e que nele se simboliza a unidade do corpo místico. Todavia, as chaves foram entregues a Pedro pessoalmente, e nele aos seus sucessores, os Romanos Pontífices, para que a Igreja jamais ficasse órfã, jamais dispersa ao sabor das opiniões humanas.

O poder de ligar e desligar é poder de jurisdição e de doutrina. É autoridade para absolver e condenar, para definir o que pertence à fé e o que dela se afasta. Não é poder arbitrário, pois o que Pedro liga na terra já está ligado nos céus: ele não inventa a verdade, mas a guarda e a proclama com autoridade recebida do alto. O Catecismo da Igreja Católica nos recorda que o colégio dos Apóstolos, com Pedro à cabeça, recebeu a missão de ensinar, santificar e governar em nome de Cristo. Esta estrutura hierárquica não é acidente histórico, mas vontade expressa do Senhor.

Hoje celebramos Pedro e Paulo, colunas da Igreja de Roma. Pedro, a quem foram confiadas as chaves; Paulo, o Apóstolo dos gentios, que pregou Cristo até os confins do mundo conhecido. Ambos selaram com o sangue, nesta cidade santa, o testemunho de sua fé. A primeira leitura nos mostra Pedro nas correntes, guardado por soldados, destinado à morte. Mas a Igreja reza, e o anjo do Senhor o liberta. Eis o mistério: a Igreja pode ser perseguida, acorrentada, entregue aos verdugos, mas o poder do inferno não prevalecerá contra ela. Cristo o prometeu, e a história de vinte séculos o confirma.

Amados, a pergunta de Jesus não ficou em Cesareia de Filipe. Ele a dirige a cada um de nós, neste domingo, em meio às tribulações e confusões do nosso tempo: “E tu, quem dizes que eu sou?” Não basta repetir o que dizem os outros, nem seguir as modas teológicas ou as opiniões da maioria. É preciso responder com fé pessoal, firme, enraizada na Tradição da Igreja. Essa fé se alimenta da oração, dos sacramentos, da comunhão com o sucessor de Pedro. Quantos católicos hoje vivem como se a Igreja fosse uma associação humana qualquer, sujeita a reformas segundo o gosto do momento! Mas a Igreja é obra de Cristo, edificada sobre a rocha, e não sobre a areia das nossas preferências.

Concretamente, isto significa: acolher o ensinamento do Magistério mesmo quando contraria as tendências do mundo; rezar pelos nossos pastores, especialmente pelo Santo Padre; defender a fé com caridade mas sem contemporizar com o erro. Significa educar os filhos na doutrina católica íntegra, frequentar os sacramentos com devoção, viver a moral cristã sem envergonhar-nos dela. Pedro e Paulo não morreram para que tivéssemos uma fé acomodada, mas para que tivéssemos a fé que salva, a fé que transforma, a fé que vence o mundo.

Que a intercessão destes santos Apóstolos nos obtenha a graça de permanecer firmes na confissão de Pedro e no zelo de Paulo, até que possamos, como eles, apresentar-nos diante do Senhor com o testemunho de uma vida gasta por amor ao Evangelho. São Pedro e São Paulo, rogai por nós. Amém.