quinta-feira, fevereiro 28, 2019

HISTÓRIA DA QUARTA-FEIRA DE CINZAS


A Quarta-Feira de Cinzas, começa oficialmente o tempo da Quaresma e o Ciclo Pascal. (Este ano, no dia 01 de março).
As cinzas são feitas com os ramos das palmeiras que se usaram na Procissão dos Ramos do ano anterior, que se guardam e se queimam para esse efeito.
O costume de pôr as cinzas na cabeça (testa) dos fiéis, bem como o uso de fatos de serapilheira, era uma penitência muito antiga praticada entre o povo hebreu:
– “Ó filha do Meu povo, veste-te de saco, revolve-te nas cinzas. Cobre-te de luto por um filho único..” (Jer.6,26).
– “Cobri-vos de cinzas, guardas do rebanho, pois que chegou o dia da vossa destruição”. (Jer.25,34).
Ao ritual das cinzas, com o significado das leituras da Escritura, não estava diretamente ligado ao princípio da Quaresma.
Foi cerca do Ano 300 que esse uso foi adotado pelas Igrejas locais, como parte da sua prática de temporariamente excomungar ou expulsar os pecadores públicos, das suas comunidades.
Esses pecadores públicos eram acusados de pecados públicos e escândalos, como apostasia, heresia, crime e adultério (os pecados capitais).
Foi no século VII que este costume se estendeu a muitas outras Igrejas com o ritual público da Quarta-Feira de Cinzas.
Primeiramente os pecadores públicos confessavam os seus pecados, em particular.
Depois eram apresentados ao bispo e inscritos publicamente nas listas dos penitentes que se preparavam para a absolvição de Quinta-Feira-Santa.
Depois de receberem a imposição das cinzas eram enviados para fora da Comunidade, à imitação de Adão que foi expulso do Paraíso depois do pecado, com sua mulher, Eva, para se lembrarem que a morte é a pena do pecado.
-“…Lembra-te que és pó e em pó te hás-de tornar”. (Gn 3,19)
Viviam depois afastados de sua família e da Comunidade durante os quarenta dias da Quaresma (Quarentena).
Vestidos de saco e com a imposição das cinzas eram identificados como penitentes públicos, perante a Comunidade, e em lugar separado na Igreja.
Como penitências comuns, abstinham-se de certos alimentos, de álcool; não tomavam banho, não cortavam o cabelo nem faziam á barba, nem podiam usar dos seus direitos conjugais.
Ficavam também privados das suas transações comerciais e dos seus interesses nos negócios.
Em certas dioceses, algumas penas duravam por vários anos e outras eram por toda a vida.
Durante a Idade Média foi dada maior ênfase aos pecados pessoais do que aos públicos.
Como resultado, as tradições da Quarta-Feira de Cinzas ficaram simplificadas para os membros da paróquia,
Estas tradições já eram observadas de maneira geral desde o século XI.
Mais recentemente a imposição das cinzas, reveste-se mais positivamente com o aspecto da Quaresma, segundo o pensamento do Evangelista S. Marcos:
– “Completou-se o tempo e o reino de Deus está perto; arrependei-vos e acreditai na Boa-Nova”.(Mc.1,15).
Mudaram-se os tempos e atualizaram-se os costumes de modo que ficou pelo menos o sentido de penitência necessária para uma conversão de vida em ordem à celebração da Páscoa que em cada ano deve ser uma renovação da vida interior de cada um.
Segundo as normas vigentes, Quarta-Feira de Cinzas é dia de Jejum e Abstinência.
Quem pode impor as cinzas
Em resposta a uma pergunta feita pela Comissão Litúrgica dos Bispos Americanos em 30 de Janeiro de 1975, a Secretaria da Sagrada Congregação para os Sacramentos e para o culto divino deu a seguinte resposta :
Os Ministros extraordinários (eucarísticos) não podem benzer as Cinzas, mas podem ajudar o Celebrante na sua imposição, e até, quando não houver sacerdote e as Cinzas já estiverem benzidas, podem impô-las por si mesmos.
Portanto, esta resposta indica que qualquer pessoa pode ser convidada ou encarregada de impor as Cinzas, mas não as pode benzer.

FONTE: https://cleofas.com.br/historia-da-quarta-feira-de-cinzas/

quarta-feira, fevereiro 27, 2019

Papa: o Pai-Nosso educa quem o invoca a não multiplicar palavras vazias



Mariangela Jaguraba - Cidade do Vaticano
O Papa Francisco prosseguiu o seu ciclo de catequeses sobre o Pai-Nosso, na  Audiência Geral desta quarta-feira (27/02), que contou com a participação de mais de dez mil pessoas, na Praça São Pedro. A catequese de hoje teve como tema “Santificado seja o vosso nome”.
Nesse percurso de redescoberta da oração do Pai-Nosso, o Papa aprofundou com os fiéis a primeira das sete invocações dessa oração.
Francisco ressaltou que as perguntas do Pai-Nosso são sete, divididas em dois grupos. “As primeiras três têm no centro o “Vosso” de Deus Pai. As outras quatro têm no centro o “nós” e as nossas necessidades humanas. Na primeira parte, Jesus nos faz entrar em seus desejos, todos dirigidos ao Pai: “Santificado seja o vosso nome. Venha a nós o vosso Reino, seja feita a vossa vontade”. Na segunda parte é Ele que entra em nós e torna-se intérprete de nossas necessidades: o pão nosso de cada dia, o perdão dos pecados, a ajuda na tentação e a libertação do mal”.

Entrega de nós mesmos a Deus

“Aqui está a matriz de toda oração cristã, diria de toda oração humana, que é sempre feita, por um lado, de contemplação de Deus, de seu mistério, de sua beleza e bondade e, por outro lado, de sinceros e corajosos pedidos do que precisamos para viver e viver bem.
“ Assim, em sua simplicidade e essência, o Pai-Nosso educa que o invoca a não multiplicar palavras vazias, porque, como Jesus mesmo disse, o «vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes de pedirdes a Ele». ”
“Quando falamos com Deus, não o fazemos para revelar a Ele o que temos em nossos corações: Ele sabe muito melhor do que nós mesmos! Se Deus é um mistério para nós, nós não somos um enigma aos seus olhos. Deus é como aquelas mães que bastam um olhar para entender tudo sobre seus filhos: se estão felizes ou tristes, se são sinceros ou escondem alguma coisa”, disse o Papa.
O primeiro passo da oração cristã é a entrega de nós mesmos a Deus, à sua providência. É como dizer: “Senhor, vós sabeis tudo, não precisa que eu vos conte a minha dor. Peço-vos somente que estejais aqui perto de mim: vós sois a minha esperança”.

Santidade de Deus deve refletir-se em nossas ações

“É interessante notar que Jesus, no discurso da montanha, logo depois de ter ensinado o “Pai-Nosso”, nos exorta a não nos preocupar com as coisas. Parece uma contradição: primeiro, nos ensina a pedir o pão de cada dia e depois nos diz: «Não fiquem preocupados, dizendo: o que vamos comer? O que vamos beber? O que vamos vestir? Mas a contradição é apenas aparente: as perguntas do cristão manifestam a confiança no Pai; e é justamente essa confiança que nos faz pedir o que precisamos sem preocupação e agitação. É por isso que rezamos dizendo: “Santificado seja o vosso nome!”
Segundo o Papa, na primeira pergunta, “se sente a admiração de Jesus pela beleza e grandeza do Pai, e o desejo que todos o reconheçam e o amem por aquilo que realmente é. Ao mesmo tempo, a súplica para que o seu nome seja santificado em nós, em nossa família, em nossa comunidade e no mundo inteiro. É Deus que santifica, que nos transforma com o seu amor, mas ao mesmo tempo nós também, com o nosso testemunho, manifestamos a santidade de Deus no mundo, tornando o seu nome presente”.
“ Deus é santo, mas se nós, se a nossa vida não é santa, há uma grande incoerência! A santidade de Deus deve refletir-se em nossas ações, em nossa vida. ”
"Sou cristão, Deus é santo, mas eu faço coisas feias. Não. Isso não serve. Isso faz mal, escandaliza e não ajuda”, disse ainda Francisco.

A oração afasta o medo

“A santidade de Deus é uma força em expansão, e nós o suplicamos para que quebre rapidamente as barreiras do nosso mundo. Quando Jesus começa a rezar, o primeiro a pagar as consequências é o mal que aflige o mundo. Os espíritos malignos maldizem: «O que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para arruinar-nos? Sei quem tu és: o santo de Deus!”
“Nunca se viu uma santidade assim”, frisou o Papa, “não preocupada consigo mesma, mas orientada para fora. Uma santidade que se espalha em círculos concêntricos, como quando se joga uma pedra no lago. O mal tem seus dias contados, o mal não pode mais nos prejudicar: chegou o homem forte que toma posse de sua casa. Esse homem forte é Jesus, que nos dá a força para tomar posse de nossa casa interior”.
O Papa concluiu a sua catequese, dizendo que “a oração afasta todo o medo”. O Pai nos ama, o Filho está ao nosso lado, e o Espírito trabalha em segredo para a redenção do mundo. “Não vacilemos na incerteza. Mas temos uma grande certeza: Deus me ama; Jesus deu sua vida por mim! O Espírito está dentro de mim. Essa é a grande certeza. E o mal? Tem medo.”

terça-feira, fevereiro 26, 2019

Mensagem do Papa Francisco para Quaresma 2019



Queridos irmãos e irmãs!
Todos os anos, por meio da Mãe Igreja, Deus «concede aos seus fiéis a graça de se prepararem, na alegria do coração purificado, para celebrar as festas pascais, a fim de que (…), participando nos mistérios da renovação cristã, alcancem a plenitude da filiação divina» (Prefácio I da Quaresma). Assim, de Páscoa em Páscoa, podemos caminhar para a realização da salvação que já recebemos, graças ao mistério pascal de Cristo: «De facto, foi na esperança que fomos salvos» (Rm 8, 24). Este mistério de salvação, já operante em nós durante a vida terrena, é um processo dinâmico que abrange também a história e toda a criação. São Paulo chega a dizer: «Até a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus» (Rm 8, 19). Nesta perspectiva, gostaria de oferecer algumas propostas de reflexão, que acompanhem o nosso caminho de conversão na próxima Quaresma.
1. A redenção da criação
A celebração do Tríduo Pascal da paixão, morte e ressurreição de Cristo, ponto culminante do Ano Litúrgico, sempre nos chama a viver um itinerário de preparação, cientes de que tornar-nos semelhantes a Cristo (cf. Rm 8, 29) é um dom inestimável da misericórdia de Deus.
Se o homem vive como filho de Deus, se vive como pessoa redimida, que se deixa guiar pelo Espírito Santo (cf. Rm 8, 14), e sabe reconhecer e praticar a lei de Deus, a começar pela lei gravada no seu coração e na natureza, beneficia também a criação, cooperando para a sua redenção. Por isso, a criação – diz São Paulo – deseja de modo intensíssimo que se manifestem os filhos de Deus, isto é, que a vida daqueles que gozam da graça do mistério pascal de Jesus se cubra plenamente dos seus frutos, destinados a alcançar o seu completo amadurecimento na redenção do próprio corpo humano. Quando a caridade de Cristo transfigura a vida dos santos – espírito, alma e corpo –, estes rendem louvor a Deus e, com a oração, a contemplação e a arte, envolvem nisto também as criaturas, como demonstra admiravelmente o «Cântico do irmão sol», de São Francisco de Assis (cf. Encíclica Laudato si’, 87). Neste mundo, porém, a harmonia gerada pela redenção continua ainda – e sempre estará – ameaçada pela força negativa do pecado e da morte.
2. A força destruidora do pecado
Com efeito, quando não vivemos como filhos de Deus, muitas vezes adotamos comportamentos destruidores do próximo e das outras criaturas – mas também de nós próprios –, considerando, de forma mais ou menos consciente, que podemos usá-los como bem nos apraz. Então sobrepõe-se a intemperança, levando a um estilo de vida que viola os limites que a nossa condição humana e a natureza nos pedem para respeitar, seguindo aqueles desejos incontrolados que, no livro da Sabedoria, se atribuem aos ímpios, ou seja, a quantos não têm Deus como ponto de referência das suas ações, nem uma esperança para o futuro (cf. 2, 1-11). Se não estivermos voltados continuamente para a Páscoa, para o horizonte da Ressurreição, é claro que acaba por se impor a lógica do tudo e imediatamente, do possuir cada vez mais.
Como sabemos, a causa de todo o mal é o pecado, que, desde a sua aparição no meio dos homens, interrompeu a comunhão com Deus, com os outros e com a criação, à qual nos encontramos ligados antes de mais nada através do nosso corpo. Rompendo-se a comunhão com Deus, acabou por falir também a relação harmoniosa dos seres humanos com o meio ambiente, onde estão chamados a viver, a ponto de o jardim se transformar num deserto (cf. Gn 3, 17-18). Trata-se daquele pecado que leva o homem a considerar-se como deus da criação, a sentir-se o seu senhor absoluto e a usá-la, não para o fim querido pelo Criador, mas para interesse próprio em detrimento das criaturas e dos outros.
Quando se abandona a lei de Deus, a lei do amor, acaba por se afirmar a lei do mais forte sobre o mais fraco. O pecado – que habita no coração do homem (cf. Mc 7, 20-23), manifestando-se como avidez, ambição desmedida de bem-estar, desinteresse pelo bem dos outros e muitas vezes também do próprio – leva à exploração da criação (pessoas e meio ambiente), movidos por aquela ganância insaciável que considera todo o desejo um direito e que, mais cedo ou mais tarde, acabará por destruir inclusive quem está dominado por ela.
3. A força sanadora do arrependimento e do perdão
Por isso, a criação tem impelente necessidade que se revelem os filhos de Deus, aqueles que se tornaram «nova criação»: «Se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era antigo passou; eis que surgiram coisas novas» (2 Cor 5, 17). Com efeito, com a sua manifestação, a própria criação pode também «fazer páscoa»: abrir-se para o novo céu e a nova terra (cf. Ap 21, 1). E o caminho rumo à Páscoa chama-nos precisamente a restaurar a nossa fisionomia e o nosso coração de cristãos, através do arrependimento, a conversão e o perdão, para podermos viver toda a riqueza da graça do mistério pascal.
Esta «impaciência», esta expectativa da criação ver-se-á satisfeita quando se manifestarem os filhos de Deus, isto é, quando os cristãos e todos os homens entrarem decididamente neste «parto» que é a conversão. Juntamente connosco, toda a criação é chamada a sair «da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8, 21). A Quaresma é sinal sacramental desta conversão. Ela chama os cristãos a encarnarem, de forma mais intensa e concreta, o mistério pascal na sua vida pessoal, familiar e social, particularmente através do jejum, da oração e da esmola.
Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade.
Queridos irmãos e irmãs, a «quaresma» do Filho de Deus consistiu em entrar no deserto da criação para fazê-la voltar a ser aquele jardim da comunhão com Deus que era antes do pecado das origens (cf. Mc 1,12-13; Is 51,3). Que a nossa Quaresma seja percorrer o mesmo caminho, para levar a esperança de Cristo também à criação, que «será libertada da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus» (Rm 8, 21). Não deixemos que passe em vão este tempo favorável! Peçamos a Deus que nos ajude a realizar um caminho de verdadeira conversão. Abandonemos o egoísmo, o olhar fixo em nós mesmos, e voltemo-nos para a Páscoa de Jesus; façamo-nos próximo dos irmãos e irmãs em dificuldade, partilhando com eles os nossos bens espirituais e materiais. Assim, acolhendo na nossa vida concreta a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, atrairemos também sobre a criação a sua força transformadora.
Vaticano, Festa de São Francisco de Assis,
4 de outubro de 2018.
FRANCISCO

segunda-feira, fevereiro 25, 2019

VII DOMINGO DO TEMPO COMUM


1 - Amar os inimigos é combater a violência
Como no Domingo passado, também neste Domingo, estamos diante de uma Palavra inspirada na literatura sapiencial Bíblica. Isto, principalmente no Evangelho. Jesus propõe orientações que favorecem nosso modo de viver, mostrando o lado positivo e o lado negativo. Não resta dúvida, que soa estranho a necessidade de amar os inimigos. Jesus teve inimigos e não os tratava com muita afeição; chamava-os de hipócritas, de sepulcros caiados, de víboras... palavras nada lisonjeiras. Isso nos ajuda a compreender que o amor aos inimigos não está na linha da afeição, mas nas atitudes e no modo de combater a violência. Não apelar para a violência e para a vingança é um modo de amar os inimigos, de mostrar a outra face do rosto... a face da misericórdia. Violência gera mais violência e quem entra na espiral da violência cedo ou tarde depara-se com a morte. 

2 - O amor fecha o ciclo da violência
Jesus foi condenado violentamente e injustamente. Jesus morreu de modo violento, pelo assassinato de Cruz. Lá na Cruz, ele mostrou a misericórdia do seu coração: perdoou seus inimigos. Sua morte, portanto, encerra o ciclo violento da lei de Talião, do "dente por dente, olho por olho" e abre um novo relacionamento humano, com uma proposta do amor absoluto: "amem a todos, até mesmo os vossos inimigos". A antiga lei da vingança não leva a nada; provoca mais violência. Com o seu perdão na Cruz e com a sua Morte, terminou o tempo da vingança, que multiplica a violência sobre violência, vingança sobre vingança. Deus não se vinga, perdoa. Assim misericordiosos devemos ser. Não somos da vingança, mas do perdão. E aqui tem um lado psicológico que precisamos compreender. Quando alguém nos ofende e deixamos de perdoar, a agressividade do outro entra dentro de nós; o inimigo fica dentro da gente e com ele brigamos em nossas cabeças. Quando Jesus pede para rezar pelo inimigo está dizendo também, que é importante ficar em paz tirando-o de nossos pensamentos.

3 - Esse ensinamento ainda tem valor?
Hoje, vivemos num mundo violento. Tantas diversões das crianças, adolescentes e jovens são violentas nos videogames. Por isso, este ensinamento de Jesus tem valor? Não resta dúvida que sim! Não se pode "espiritualizar" o que ouvimos no Evangelho; entendido numa dimensão espiritual apenas. Trata-se de algo muito concreto que nos desafia constantemente e em todos os momentos de nossa existência. Nós vemos, tocamos e sentimos o medo da violência em nossos dias. Hoje, existe muita agressividade e pouco amor. A educação nas famílias, nas escolas precisa deixar de ser competitiva para ser mais fraterna e mais solidária. Nós mesmos precisamos considerar nosso modo de viver para perceber se existem violências que cultivamos dentro de nós, fruto de inveja, competição, raiva... Sejamos misericordiosos como Deus, para que a paz e a serenidade habitem nossas vidas. Amém! 















sábado, fevereiro 23, 2019

VILA CANOAS RECONSTRUINDO VIDAS E CASAS



1. "Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos que são estrangeiros e estão espalhados no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia

2. – eleitos segundo a presciência de Deus Pai, e santificados pelo Espírito, para obedecer a Jesus Cristo e receber a sua parte da aspersão do seu sangue. A graça e a paz vos sejam dadas em abundância.

3. Bendito seja Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo! Na sua grande misericórdia ele nos fez renascer pela Ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma viva esperança,

4. para uma herança incorruptível, incontaminável e imarcescível, reservada para vós nos céus;

5. para vós que sois guardados pelo poder de Deus, por causa da vossa fé, para a salvação que está pronta para se manifestar nos últimos tempos.

6. É isso o que constitui a vossa alegria, apesar das aflições passageiras a vos serem causadas ainda por diversas provações,

7. para que a prova a que é submetida a vossa fé (mais precio­sa que o ouro perecível, o qual, entretanto, não deixamos de provar ao fogo) redunde para vosso louvor, para vossa honra e para vossa glória, quando Jesus Cristo se manifes­tar.

8. Esse Jesus vós o amais, sem o terdes visto; credes nele, sem o verdes ainda, e isso é para vós a fonte de uma alegria inefável e gloriosa,

9. porque vós estais certos de obter, como preço de vossa fé, a salvação de vossas almas."













quinta-feira, fevereiro 21, 2019

22 DE FEVEREIRO, CÁTEDRA DE SÃO PEDRO



A Igreja celebra neste dia 22 de fevereiro a Festa da Cátedra de São Pedro, para recordar a autoridade do Vigário de Cristo na terra; por isso, o sacerdote, escritor e funcionário da Secretaria de Estado do Vaticano, Mons. Florian Kolfhaus, refletiu sobre sua importância tanto na Igreja como no mundo inteiro.

“A Santa Sé, cujo conceito remonta ao banco de madeira de um pescador, a quem o Senhor nomeou Pastor de sua Igreja, é a mais alta autoridade moral em todo o mundo atual”.

“Também os não cristãos prestam atenção às palavras do Papa sobre paz, migração e proteção climática”, escreveu Mons. Kolfhaus em uma coluna publicada em CNA Deutsch – agência em alemão do grupo ACI –, em 22 de fevereiro de 2017.

O Papa “goza do reconhecimento de cerca de 170 Estados e 20 organizações internacionais” e “é reconhecido em virtude de suas relações de séculos com ouros Estados”, acrescentou o especialista, ao recordar que o Pontífice também é um soberano sujeito de direito internacional.

“O Papa, e só ele entre todos os demais líderes religiosos, é quem goza da autoridade de um chefe de Estado, equiparada a dos presidentes. E tudo isso se deve, por assim dizer, ao banquinho de madeira sobre o qual se sentou São Pedro, quando ensinava à comunidade de Roma”, acrescentou.

Entretanto, o sacerdote disse que mais importante do que os temas políticos é “a preservação e autêntica interpretação da fé, que foi confiada a Pedro e a seus sucessores”.

“A ele foi prometida – tal como belamente mostra o altar em São Pedro – a especial assistência do Espírito Santo ao explicar o Evangelho de Cristo a partir da Tradição da Igreja e de seus padres”.

“O Papa, e somente ele, tem a potestade das chaves, para atar e desatar. Ele tem poder direto, imediato, limitado só pela Lei Divina sobre toda a Igreja. Ele é o pastor supremo a quem é confiada a totalidade do rebanho do Senhor. A Igreja celebra hoje este elevado serviço do servidor dos servos de Deus”, enfatizou.

Apesar dessas características, Mons. Kolfhaus recordou que cada Papa deve ter consciência de que é um “homem frágil e débil” e “precisa constantemente de purificação e conversão”.

“Mas deve ter também consciência de que lhe vem do Senhor a força para confirmar seus irmãos na fé e mantê-los unidos na confissão de Cristo crucificado e ressuscitado”, acrescentou.

Por outro lado, o sacerdote indicou que o Bispo de Roma se senta em sua cátedra para dar “testemunho de Cristo” e que esse poder conferido por Cristo a ele e a seus sucessores “é, nesse sentido absoluto, um mandato para servir”.

“A potestade de ensinar, na Igreja, implica um compromisso ao serviço da obediência à fé”, ressaltou.

Finalmente, Mons. Kolfhaus recordou que o Papa “não é um soberano cujo pensamento e vontade são lei”.

“Ao contrário: o ministério do Papa é garantia da obediência a Cristo e a sua Palavra. Não deve proclamar suas próprias ideias, mas vincular constantemente a si mesmo e a Igreja à obediência à Palavra de Deus , frente a todas as tentativas de adaptação e alteração, assim como frente a todo oportunismo”, concluiu.

quarta-feira, fevereiro 20, 2019

OS HOMENS DO TERÇO, POR DOM FERNANDO ARÊAS RIFAN



Dom Fernando Arêas Rifan*

No último dia 16, como todos os anos, na Basílica-Santuário Nacional de Aparecida, se reuniram cerca de 80 mil “Homens do Terço”. Foi emocionante presenciar a chegada das romarias de todo o Brasil, trazendo homens de todas as classes sociais, unidos por essa oração abençoada, o Rosário de Nossa Senhora. Esta foi a XI Romaria Nacional, com o tema “Terço dos Homens: Não basta rezar, é preciso agir!”, e com o lema: “Eis-me aqui!” A missão do Terço dos Homens é resgatar para o seio da Igreja homens de todas as idades, pois a presença masculina na Igreja é imprescindível para a formação da família e de uma sociedade cristã. 

O tema deste ano – orar e agir - é baseado na regra de São Bento: “Ora et labora”, “Ore e trabalhe”: não é suficiente rezar, é preciso agir, trabalhar, evangelizar, conquistar, corrigir, edificar, plantar e colher. E não basta a ação: é preciso, sobretudo, a oração, a união com Deus.
Iniciado no Santuário da Mãe Três Vezes Admirável de Schoenstatt, no Nordeste, e propagado pelo Brasil inteiro, o Terço dos Homens é já uma realidade em todos os Estados do Brasil, calculando-se um milhão de homens que fazem parte desse movimento. Parabéns! Eles merecem nosso incentivo. Como diz a bela letra do Hino do Terço dos Homens, composto pelo Pe. Antônio Maria, “Ó Mãe e Rainha do Santo Rosário, Mãe Admirável, Mãe do Santuário, o mundo sem fé, na dor se consome, ajuda esse mundo com o Terço dos Homens”. 

O Papa São João XXXIII dizia que o Terço é o Evangelho das pessoas simples. De fato, é uma recordação e meditação do Evangelho na escola de Maria, como diz a letra do mesmo hino de que falamos: “É Tua escola o Terço, ele é luz, ninguém como Tu sabe mais de Jesus; o Santo Evangelho ensina de novo, Teu Terço é a Bíblia que Deus deu ao povo”. 
O Papa São João Paulo II ensinou-nos que o Rosário “concentra a profundidade de toda a mensagem evangélica da qual é quase um compêndio... Com ele, o povo cristão frequenta a escola de Maria, para deixar-se introduzir na contemplação da beleza do rosto de Cristo e na experiência da profundidade do seu amor” (Carta Apost. Rosarium Virginis Mariae, 1).

Mesmo sendo uma oração de louvor a Maria Santíssima, o centro do Rosário está em Jesus Cristo, cujo nome é o centro de gravidade da Ave-Maria, a dobradiça entre a sua primeira parte e a segunda. “É precisamente pela acentuação dada ao nome de Jesus e ao seu mistério que se caracteriza a recitação expressiva e frutuosa do Rosário” nos ensina S. João Paulo II. 
E o Rosário é uma oração muito recomendada por todos os últimos Papas, incluindo o Papa Francisco. “Queira Deus – é um ardente desejo nosso – que esta prática de piedade retome em toda parte o seu antigo lugar de honra!” (Leão XIII). “O Rosário é a mais bela e a mais preciosa de todas as orações à Medianeira de todas as graças: é a prece que mais toca o coração da Mãe de Deus” (São Pio X). “Maria nos acompanha, luta conosco, apoia os cristãos no combate contra as forças do mal. A oração com Maria, em particular o Rosário – mas ouçam bem: o Rosário” (Francisco).


*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

O TESTEMUNHO DE 8 CRIANÇAS QUE ALCANÇARAM A SANTIDADE




A idade não é um impedimento para alcançar a santidade e isso é o que demostraram estas oito crianças que se destacaram pelo seu testemunho de piedade, fidelidade e amor a Deus.

Junto com sua prima Lúcia, Jacinta e Francisco Marto testemunharam as aparições da Virgem Maria em Portugal de 13 de maio a 13 de outubro de 1917. Eles tinham 9 e 7 anos, respectivamente.
Durante esses acontecimentos, os pastorinhos suportaram com coragem as calúnias e as perseguições e realizaram várias mortificações. O pequeno Francisco passava muito tempo diante do sacrário, rezava para consolar Deus pelos pecados da humanidade, enquanto Jacinta ia à Missa todos os dias e oferecia a comunhão pelos pecadores.
Jacinta e Francisco ficaram doentes com pneumonia brônquica durante uma epidemia na região. Ele morreu em 1919 e sua irmã um ano depois.

São Domingos Sávio queria ser sacerdote desde pequeno e, depois de conhecer Dom Bosco, entrou no Oratório de São Francisco de Sales, em Turim, Itália.
O menino se destacou pela sua intensa vida espiritual, sua alegria e a sua vontade de ajudar os outros, especialmente a sua família. Ele costumava dizer com frequência: “Quero ser santo!”.
Ficou doente e, a pedido dos médicos, teve que deixar o oratório e voltar para a sua casa. Antes de morrer, em 9 de março de 1857, disse: “Que coisa tão formosa vejo!”. Faltavam poucas semanas para completar 15 anos.

São José Sánchez del Río foi uma criança que, por amor a Jesus, se uniu aos Cristeros, um grupo armado de milhares de católicos que defenderam a sua fé durante a perseguição religiosa perpetrada no México, na segunda década do século XX.
“Joselito”, como é conhecido em seu país, serviu aos Cristeros – que inicialmente não quiseram aceitá-lo porque era jovem e pelo perigo ao qual estaria exposto – como porta-estandarte da imagem da Virgem de Guadalupe, mas não chegou a participar ativamente nos confrontos armados.
Quando tinha 14 anos, foi torturado e assassinado em 10 de fevereiro de 1928 pelos oficiais do governo de Plutarco Elías Calles, porque se recusou a renunciar a sua fé.

Santa Maria Goretti cresceu em uma família pobre em bens materiais, mas rica na fé.
Quando tinha apenas 11 anos, foi apunhalada por Alessandro Serenelli, um jovem de 19 anos, porque se negou a ter relações sexuais com ele.
Em 6 de julho de 1902, antes de morrer, ela perdoou o seu assassino, que foi preso. Enquanto estava na prisão, Alessandro se arrependeu do seu crime. Quando saiu, foi procurar a mãe de Maria para pedir-lhe perdão.
Alguns anos depois, colaborou dando o seu testemunho para a causa da beatificação de Maria. Também foi admitido na ordem terceira de São Francisco.

Santos Cristóbal, Antonio e Juan, filhos dos mártires de Tlaxcala
Os santos Cristóbal, Antonio e Juan, foram assassinados por ódio à fé no México, entre 1527 e 1529. Eles são considerados os primeiros mártires da América.
Cristóbal era filho do cacique Acxotecatl e conhecia a fé católica graças ao trabalho evangelizador que os frades franciscanos realizavam na região entre 1524 e 1527. Depois de ser batizado, trabalhou pela conversão da sua família, mas seu pai ficou com raiva. Morreu aos 12 anos devido aos golpes e queimaduras perpetrados pelo seu pai.
Antonio e Juan receberam a formação dos franciscanos e dominicanos. Ambos tentaram erradicar a adoração de ídolos no seu povoado Tizatlan e nas aldeias próximas. Foram descobertos pelos habitantes de Cuautinchán, que os assassinarão com golpes.


segunda-feira, fevereiro 18, 2019

VI DOMINGO DO TEMPO COMUM



"As água profundas" , a rede lançada no fundo da nossa alma , como a rede jogada por Pedro, retira do nós o que temos de melhor : o AMOR .
Devemos mergulhar no profundo oceano que é o mundo, e sobretudo nossos irmãos, qualquer gesto de amor será como uma rede lançada no coração dos que sofrem . 
O estilo sapiencial distingue-se pela literatura dos dois caminhos: um produz vida; o outro a morte. O salmo responsorial é um exemplar desta literatura com a parábola da árvore plantada perto da fonte e aquela plantada em locais incapazes de produzir vida. Existe um modo de viver que produz frutos e um modo de viver que transforma a vida em palha: “espalhada e dispersa pelo vento”. As Bem-aventuranças, portanto, fazem esta proposta: existe felicidade em ser pobre, quer dizer desapegado das riquezas do mundo, e existe o perigo de perder a vida colocando a confiança nas riquezas do mundo.

O que se está em questão na proposta de Jesus, é o motivo pelo qual se vive. Por isso, é uma Palavra que questiona sobre o sentido da minha vida. Qual o motivo para o qual eu vivo? Que sentido tem a minha vida? Dependendo do objetivo proposto para se viver, a vida transforma-se em pressão, em ansiedade contínua, em necessidade de produzir até que se é transformado em máquina. Jesus, neste contexto de literatura sapiencial Bíblica, apresenta-se como Mestre que alerta, que chama atenção para investir em valores que produzem vida digna e livre; sem pressão. Por isso, a riqueza do dinheiro tem seu valor, mas um dia acaba; o riso das festas é necessário, mas as festas terminam... Tudo termina. Lá na frente, chega-se a um momento da vida que se começa a viver na saudade de um tempo que já não existe. Claro que precisamos de dinheiro, que precisamos de festas... mas existem necessidades que colocam um sentido verdadeiro e consolidado em nosso modo de viver. A Palavra de hoje, em resumo, pergunta: qual o sentido da sua vida? Para que e como você vive? Amém!









 AGRADECIMENTO DA COMUNIDADE DE 
VILA CANOAS










quinta-feira, fevereiro 14, 2019

A LAMA DO PECADO, POR DOM FERNANDO ARÊAS RIFAN



Dom Fernando Arêas Rifan*

O Brasil e o mundo se assustaram com o terrível desastre do rompimento da barragem em Brumadinho MG, especialmente com o sofrimento e a morte de pessoas, com a dor dos seus familiares, colegas e amigos. 

Com o Papa Francisco, exprimimos também os nossos sentimentos de pesar pela tragédia que atingiu o Estado de Minas Gerais. E com Sua Santidade recomendamos à misericórdia de Deus todas as vítimas e ao mesmo tempo rezamos pelos feridos, exprimindo o nosso afeto e proximidade espiritual às suas famílias. Estamos solidários com os Bispos de Minas, suas dioceses e o povo mineiro em geral.

Mas esse desastre ambiental, com sintomas de crime, nos leva a questionamentos e reflexões. A lama muitas vezes é tomada na Sagrada Escritura como símbolo do pecado. Será que essa lama de Minas Gerais não aponta pecados graves de omissão nos responsáveis?

Um dos princípios fundamentais da Doutrina Social da Igreja é a prioridade do ser humano sobre os bens materiais: “É preciso acentuar o primado do homem no processo de produção, o primado do homem em relação às coisas” (S. João Paulo II, Lab exercens, 12f). Quando o ser humano é tratado apenas como peça de uma engrenagem de produção, quando se põe o lucro e o dinheiro acima das pessoas, estamos no inverso do que se espera de uma sociedade humana e cristã. E essa prioridade é negligenciada quando se pensa mais no lucro e no dinheiro do que na segurança e bem-estar das pessoas, com gravíssimas consequências, como as que presenciamos. O Papa Francisco tem nos advertido contra a cultura do lucro, do descarte e da indiferença, sobretudo em se tratando de pessoas. O preço da vida humana é inestimável.

São Leonardo de Porto Maurício, exímio pregador, falando sobre a grande responsabilidade dos que têm outros sob sua guarda, conta-nos uma curiosa parábola: certo pastor de cabras foi preso e lançado na prisão sem saber por quê. E ele dizia a si mesmo: eu não fiz mal algum. E no tribunal lhe perguntaram: você não é o pastor tal, guardião daquele rebanho? Sim, respondeu ele. Você está condenado às galés. Mas por que? Enquanto você tocava sua flauta e descansava, suas cabras romperam a cerca, entraram na plantação do vizinho e destruíram tudo. Elas são animais irracionais. Mas você era o guardião e responsável: crime de omissão. Pela sua negligência, está condenado a pagar todos os prejuízos. 

Grandes tragédias já aconteceram por negligência dos (ir)responsáveis. No Titanic, o telegrafista não se importou com as insistentes advertências dos outros navios sobre a presença de perigosos icebergs. Uma inadvertência do comandante do transatlântico, um cochilo do piloto do avião que depois ficou ingovernável, a falta de colocação de disjuntores em aparelhos de ar condicionado, etc. Mede-se a gravidade da negligência pelo tamanho do prejuízo causado. Os responsáveis devem ser responsabilizados e punidos, para se evitar desastres futuros. 

*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/

quarta-feira, fevereiro 13, 2019

CONVIVER COM A NATUREZA



Deus fez uma aliança com toda a criação, de modo que em si mesmo cada acontecimento manifesta a bênção ou o juízo divinos. Neste sentido, tudo o que acontece tem um significado moral, na medida em que é expressão e resultado do respeito ou da transgressão a esse apelo do Criador, que convoca a estabelecer boas relações entre todas as criaturas.

Esta aliança com Deus pode servir de fundamento para uma sociedade mais justa, mas também de base para uma natureza mais saudável. É preciso ter em conta que desobedecer ao mandato divino – enquanto convocação a promover relações sustentáveis – acarreta consequentemente violência para a sociedade e desastre para a natureza. Isto não significa que Deus se serve dos eventos naturais para castigar ou abençoar. Significa isso sim que há uma conexão a unir as diversas interacções, seja entre os seres humanos, seja aquelas com a natureza. Assim, qualquer transgressão à justiça nas relações entre os seres humanos comporta uma transgressão nas interacções estabelecidas para a natureza, de modo que quebrar ou infringir alguma destas relações terá sempre um impacto negativo no conjunto da criação. Por conseguinte, a aliança que Deus selou com todo o ser criado deve orientar e guiar a interacção entre todas as criaturas.

Torna-se evidente então que a ecologia não se reduz ao meio ambiente e que os desafios ambientais que estamos a enfrentar são expressão de uma crise mais ampla e profunda. Estes desafios estão estreitamente vinculados com os problemas sociais de justiça e iniquidade. Deste modo, as problemáticas ambientais não deveriam de nenhum modo eclipsar outros desafios globais, como a fome, a pobreza, o crescimento demográfico, o consumismo exacerbado, a migração forçada…

O desenvolvimento humano não deve estar desconectado da vida das outras criaturas. Todo e qualquer progresso humano, feito à margem ou em oposição ao bem-estar dos outros seres criados, é uma ilusão insustentável. Do mesmo modo, a preocupação e o cuidado da natureza não pode levar a que os seres humanos sejam ignorados ou esquecidos. No fundo, não se trata de escolher entre desafios naturais e desafios sociais, mas de compreender que por detrás de qualquer problemática social há também uma problema de ordem natural e vice-versa. É exactamente por este motivo que Laudato si’ fala em «ecologia integral» (LS 10), recordando que «a análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação de cada pessoa consigo mesma, que gera um modo específico de se relacionar com os outros e com o meio ambiente. Há uma interacção entre os ecossistemas e entre os diferentes mundos de referência social, e, assim, se demonstra mais uma vez que o todo é superior à parte» (LS 141).

José Domingos Ferreira, scj

terça-feira, fevereiro 12, 2019

11 DE FEVEREIRO, DIA MUNDIAL DOS ENFERMOS



Queridos irmãos e irmãs!
«Recebestes de graça, dai de graça» (Mt 10, 8): estas são palavras pronunciadas por Jesus, quando enviou os apóstolos a espalhar o Evangelho, para que, através de gestos de amor gratuito, se propagasse o seu Reino.
Por ocasião do XXVII Dia Mundial do Doente, que será celebrado de modo solene em Calcutá, na Índia, a 11 de fevereiro de 2019, a Igreja – Mãe de todos os seus filhos, mas com uma solicitude especial pelos doentes – lembra que o caminho mais credível de evangelização são gestos de dom gratuito como os do Bom Samaritano. O cuidado dos doentes precisa de profissionalismo e ternura, de gestos gratuitos, imediatos e simples, como uma carícia, pelos quais fazemos sentir ao outro que nos é «querido».
A vida é dom de Deus, pois – como adverte São Paulo – «que tens tu que não tenhas recebido?» (1 Cor 4, 7). E, precisamente porque é dom, a existência não pode ser considerada como mera possessão ou propriedade privada, sobretudo à vista das conquistas da medicina e da biotecnologia, que poderiam induzir o homem a ceder à tentação de manipular a «árvore da vida» (cf. Gn 3, 24).
Contra a cultura do descarte e da indiferença, cumpre-me afirmar que se há de colocar o dom como paradigma capaz de desafiar o individualismo e a fragmentação social dos nossos dias, para promover novos vínculos e várias formas de cooperação humana entre povos e culturas. Como pressuposto do dom, temos o diálogo, que abre espaços relacionais de crescimento e progresso humano capazes de romper os esquemas consolidados de exercício do poder na sociedade. O dar não se identifica com o ato de oferecer um presente, porque só se pode dizer tal se for um dar-se a si mesmo: não se pode reduzir a mera transferência duma propriedade ou dalgum objeto. Distingue-se de presentear, precisamente porque inclui o dom de si mesmo e supõe o desejo de estabelecer um vínculo. Assim, antes de mais nada, o dom é um reconhecimento recíproco, que constitui o caráter indispensável do vínculo social. No dom, há o reflexo do amor de Deus, que culmina na encarnação do Filho Jesus e na efusão do Espírito Santo.
Todo o homem é pobre, necessitado e indigente. Quando nascemos, para viver tivemos necessidade dos cuidados dos nossos pais; de forma semelhante, em cada fase e etapa da vida, cada um de nós nunca conseguirá, de todo, ver-se livre da necessidade e da ajuda alheia, nunca conseguirá arrancar de si mesmo o limite da impotência face a alguém ou a alguma coisa. Também esta é uma condição que carateriza o nosso ser de «criaturas». O reconhecimento leal desta verdade convida-nos a permanecer humildes e a praticar com coragem a solidariedade, como virtude indispensável à existência.
Esta consciência impele-nos a uma práxis responsável e responsabilizadora, tendo em vista um bem que é indivisivelmente pessoal e comum. Apenas quando o homem se concebe, não como um mundo fechado em si mesmo, mas como alguém que, por sua natureza, está ligado a todos os outros, originariamente sentidos como «irmãos», é possível uma práxis social solidária, orientada para o bem comum. Não devemos ter medo de nos reconhecermos necessitados e incapazes de nos darmos tudo aquilo de que teríamos necessidade, porque não conseguimos, sozinhos e apenas com as nossas forças, vencer todos os limites. Não temamos este reconhecimento, porque o próprio Deus, em Jesus, Se rebaixou (cf. Flp 2, 8), e rebaixa, até nós e até às nossas pobrezas para nos ajudar e dar aqueles bens que, sozinhos, nunca poderíamos ter.
Aproveitando a circunstância desta celebração solene na Índia, quero lembrar, com alegria e admiração, a figura da Santa Madre Teresa de Calcutá, um modelo de caridade que tornou visível o amor de Deus pelos pobres e os doentes. Como dizia na sua canonização, «Madre Teresa, ao longo de toda a sua existência, foi uma dispensadora generosa da misericórdia divina, fazendo-se disponível a todos, através do acolhimento e da defesa da vida humana, dos nascituros e daqueles abandonados e descartados. (…) Inclinou-se sobre as pessoas indefesas, deixadas moribundas à beira da estrada, reconhecendo a dignidade que Deus lhes dera; fez ouvir a sua voz aos poderosos da terra, para que reconhecessem a sua culpa diante dos crimes (…) da pobreza criada por eles mesmos. A misericórdia foi para ela o “sal”, que dava sabor a todas as suas obras, e a “luz” que iluminava a escuridão de todos aqueles que nem sequer tinham mais lágrimas para chorar pela sua pobreza e sofrimento. A sua missão nas periferias das cidades e nas periferias existenciais permanece nos nossos dias como um testemunho eloquente da proximidade de Deus junto dos mais pobres entre os pobres» (Homilia, 4/IX/2016).
A Santa Madre Teresa ajuda-nos a compreender que o único critério de ação deve ser o amor gratuito para com todos, sem distinção de língua, cultura, etnia ou religião. O seu exemplo continua a guiar-nos na abertura de horizontes de alegria e esperança para a humanidade necessitada de compreensão e ternura, especialmente para as pessoas que sofrem.
A gratuidade humana é o fermento da ação dos voluntários, que têm tanta importância no setor socio-sanitário e que vivem de modo eloquente a espiritualidade do Bom Samaritano. Agradeço e encorajo todas as associações de voluntariado que se ocupam do transporte e assistência dos doentes, aquelas que providenciam nas doações de sangue, tecidos e órgãos. Um campo especial onde a vossa presença expressa a solicitude da Igreja é o da tutela dos direitos dos doentes, sobretudo de quantos se veem afetados por patologias que exigem cuidados especiais, sem esquecer o campo da sensibilização e da prevenção. Revestem-se de importância fundamental os vossos serviços de voluntariado nas estruturas sanitárias e no domicílio, que vão da assistência sanitária ao apoio espiritual. Deles beneficiam tantas pessoas doentes, sós, idosas, com fragilidades psíquicas e motoras. Exorto-vos a continuar a ser sinal da presença da Igreja no mundo secularizado. O voluntário é um amigo desinteressado, a quem se pode confidenciar pensamentos e emoções; através da escuta, ele cria as condições para que o doente deixe de ser objeto passivo de cuidados para se tornar sujeito ativo e protagonista duma relação de reciprocidade, capaz de recuperar a esperança, mais disposto a aceitar as terapias. O voluntariado comunica valores, comportamentos e estilos de vida que, no centro, têm o fermento da doação. Deste modo realiza-se também a humanização dos tratamentos.
A dimensão da gratuidade deveria animar sobretudo as estruturas sanitárias católicas, porque é a lógica evangélica que qualifica a sua ação, quer nas zonas mais desenvolvidas quer nas mais carentes do mundo. As estruturas católicas são chamadas a expressar o sentido do dom, da gratuidade e da solidariedade, como resposta à lógica do lucro a todo o custo, do dar para receber, da exploração que não respeita as pessoas.
Exorto-vos a todos, nos vários níveis, a promover a cultura da gratuidade e do dom, indispensável para superar a cultura do lucro e do descarte. As instituições sanitárias católicas não deveriam cair no estilo empresarial, mas salvaguardar mais o cuidado da pessoa que o lucro. Sabemos que a saúde é relacional, depende da interação com os outros e precisa de confiança, amizade e solidariedade; é um bem que só se pode gozar «plenamente», se for partilhado. A alegria do dom gratuito é o indicador de saúde do cristão.
A todos vos confio a Maria, Salus infirmorum. Que Ela nos ajude a partilhar os dons recebidos com o espírito do diálogo e mútuo acolhimento, a viver como irmãos e irmãs cada um atento às necessidades dos outros, a saber dar com coração generoso, a aprender a alegria do serviço desinteressado. Com afeto, asseguro a todos a minha proximidade na oração e envio-vos de coração a Bênção Apostólica.

Vaticano, 25 de novembro de 2018
Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo
FRANCISCUS