sexta-feira, agosto 31, 2018

CARTA DO PAPA FRANCISCO AO POVO DE DEUS



"Um membro sofre? Todos os outros membros sofrem com ele" (1 Co 12, 26). Estas palavras de São Paulo ressoam com força no meu coração ao constatar mais uma vez o sofrimento vivido por muitos menores por causa de abusos sexuais, de poder e de consciência cometidos por um número notável de clérigos e pessoas consagradas. Um crime que gera profundas feridas de dor e impotência, em primeiro lugar nas vítimas, mas também em suas famílias e na inteira comunidade, tanto entre os crentes como entre os não-crentes. Olhando para o passado, nunca será suficiente o que se faça para pedir perdão e procurar reparar o dano causado. Olhando para o futuro, nunca será pouco tudo o que for feito para gerar uma cultura capaz de evitar que essas situações não só não aconteçam, mas que não encontrem espaços para serem ocultadas e perpetuadas. A dor das vítimas e das suas famílias é também a nossa dor, por isso é preciso reafirmar mais uma vez o nosso compromisso em garantir a proteção de menores e de adultos em situações de vulnerabilidade.


1. Um membro sofre?


Nestes últimos dias, um relatório foi divulgado detalhando aquilo que vivenciaram pelo menos 1.000 sobreviventes, vítimas de abuso sexual, de poder e de consciência, nas mãos de sacerdotes por aproximadamente setenta anos. Embora seja possível dizer que a maioria dos casos corresponde ao passado, contudo, ao longo do tempo, conhecemos a dor de muitas das vítimas e constamos que as feridas nunca desaparecem e nos obrigam a condenar veementemente essas atrocidades, bem como unir esforços para erradicar essa cultura da morte; as feridas “nunca prescrevem”. A dor dessas vítimas é um gemido que clama ao céu, que alcança a alma e que, por muito tempo, foi ignorado, emudecido ou silenciado. Mas seu grito foi mais forte do que todas as medidas que tentaram silenciá-lo ou, inclusive, que procuraram resolvê-lo com decisões que aumentaram a gravidade caindo na cumplicidade. Clamor que o Senhor ouviu, demonstrando, mais uma vez, de que lado Ele quer estar. O cântico de Maria não se equivoca e continua a se sussurrar ao longo da história, porque o Senhor se lembra da promessa que fez a nossos pais: «dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias» (Lc 1, 51-53), e sentimos vergonha quando percebemos que o nosso estilo de vida contradisse e contradiz aquilo que proclamamos com a nossa voz.


Com vergonha e arrependimento, como comunidade eclesial, assumimos que não soubemos estar onde deveríamos estar, que não agimos a tempo para reconhecer a dimensão e a gravidade do dano que estava sendo causado em tantas vidas. Nós negligenciamos e abandonamos os pequenos. Faço minhas as palavras do então Cardeal Ratzinger quando, na Via Sacra escrita para a Sexta-feira Santa de 2005, uniu-se ao grito de dor de tantas vítimas, afirmando com força: "Quanta sujeira há na Igreja, e precisamente entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer completamente a Ele! Quanta soberba, quanta autossuficiência!... A traição dos discípulos, a recepção indigna do seu Corpo e do seu Sangue é certamente o maior sofrimento do Redentor, o que Lhe trespassa o coração. Nada mais podemos fazer que dirigir-Lhe, do mais fundo da alma, este grito: Kyrie, eleison – Senhor, salvai-nos (cf. Mt 8, 25)" (Nona Estação).


2. Todos os outros membros sofrem com ele.


A dimensão e a gravidade dos acontecimentos obrigam a assumir esse fato de maneira global e comunitária. Embora seja importante e necessário em qualquer caminho de conversão tomar conhecimento do que aconteceu, isso, em si, não basta. Hoje, como Povo de Deus, somos desafiados a assumir a dor de nossos irmãos feridos na sua carne e no seu espírito. Se no passado a omissão pôde tornar-se uma forma de resposta, hoje queremos que seja a solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo e desafiador, a tornar-se o nosso modo de fazer a história do presente e do futuro, num âmbito onde os conflitos, tensões e, especialmente, as vítimas de todo o tipo de abuso possam encontrar uma mão estendida que as proteja e resgate da sua dor (cf. Exort. ap. Evangelii Gaudium, 228). Essa solidariedade exige que, por nossa vez, denunciemos tudo o que possa comprometer a integridade de qualquer pessoa. Uma solidariedade que exige a luta contra todas as formas de corrupção, especialmente a espiritual porque trata-se duma cegueira cômoda e autossuficiente, em que tudo acaba por parecer lícito: o engano, a calúnia, o egoísmo e muitas formas subtis de autorreferencialidade, já que “também Satanás se disfarça em anjo de luz” (2 Cor 11, 14)" (Exort. ap. Gaudete et exultate 165). O chamado de Paulo para sofrer com quem sofre é o melhor antídoto contra qualquer tentativa de continuar reproduzindo entre nós as palavras de Caim: "Sou, porventura, o guardião do meu irmão?" (Gn 4, 9).


Reconheço o esforço e o trabalho que são feitos em diferentes partes do mundo para garantir e gerar as mediações necessárias que proporcionem segurança e protejam a integridade de crianças e de adultos em situação de vulnerabilidade, bem como a implementação da “tolerância zero” e de modos de prestar contas por parte de todos aqueles que realizem ou acobertem esses crimes. Tardamos em aplicar essas medidas e sanções tão necessárias, mas confio que elas ajudarão a garantir uma maior cultura do cuidado no presente e no futuro.


Juntamente com esses esforços, é necessário que cada batizado se sinta envolvido na transformação eclesial e social de que tanto necessitamos. Tal transformação exige conversão pessoal e comunitária, e nos leva dirigir os olhos na mesma direção do olhar do Senhor. São João Paulo II assim o dizia: «se verdadeiramente partimos da contemplação de Cristo, devemos saber vê-Lo sobretudo no rosto daqueles com quem Ele mesmo Se quis identificar» (Carta ap. Novo millennio ineunte, 49). Aprender a olhar para onde o Senhor olha, estar onde o Senhor quer que estejamos, converter o coração na Sua presença. Para isso nos ajudarão a oração e a penitência. Convido todo o Povo Santo fiel de Deus ao exercício penitencial da oração e do jejum, seguindo o mandato do Senhor [1], que desperte a nossa consciência, a nossa solidariedade e o compromisso com uma cultura do cuidado e o “nunca mais” a qualquer tipo e forma de abuso.


É impossível imaginar uma conversão do agir eclesial sem a participação activa de todos os membros do Povo de Deus. Além disso, toda vez que tentamos suplantar, silenciar, ignorar, reduzir em pequenas elites o povo de Deus, construímos comunidades, planos, ênfases teológicas, espiritualidades e estruturas sem raízes, sem memória, sem rostos, sem corpos, enfim, sem vidas[2]. Isto se manifesta claramente num modo anômalo de entender a autoridade na Igreja - tão comum em muitas comunidades onde ocorreram as condutas de abuso sexual, de poder e de consciência - como é o clericalismo, aquela "atitude que não só anula a personalidade dos cristãos, mas tende também a diminuir e a subestimar a graça batismal que o Espírito Santo pôs no coração do nosso povo" 
[3]. O clericalismo, favorecido tanto pelos próprios sacerdotes como pelos leigos, gera uma ruptura no corpo eclesial que beneficia e ajuda a perpetuar muitos dos males que denunciamos hoje. Dizer não ao abuso, é dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo.


É sempre bom lembrar que o Senhor, "na história da salvação, salvou um povo. Não há identidade plena, sem pertença a um povo. Por isso, ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo em conta a complexa rede de relações interpessoais que se estabelecem na comunidade humana: Deus quis entrar numa dinâmica popular, na dinâmica dum povo" (Exort. ap. Gaudete et exultate, 6). Portanto, a única maneira de respondermos a esse mal que prejudicou tantas vidas é vivê-lo como uma tarefa que nos envolve e corresponde a todos como Povo de Deus. Essa consciência de nos sentirmos parte de um povo e de uma história comum nos permitirá reconhecer nossos pecados e erros do passado com uma abertura penitencial capaz de se deixar renovar a partir de dentro. Tudo o que for feito para erradicar a cultura do abuso em nossas comunidades, sem a participação ativa de todos os membros da Igreja, não será capaz de gerar as dinâmicas necessárias para uma transformação saudável e realista. A dimensão penitencial do jejum e da oração ajudar-nos-á, como Povo de Deus, a nos colocar diante do Senhor e de nossos irmãos feridos, como pecadores que imploram o perdão e a graça da vergonha e da conversão e, assim, podermos elaborar ações que criem dinâmicas em sintonia com o Evangelho. Porque "sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo actual" (Exort. ap. Evangelii Gaudium, 11).


É imperativo que nós, como Igreja, possamos reconhecer e condenar, com dor e vergonha, as atrocidades cometidas por pessoas consagradas, clérigos, e inclusive por todos aqueles que tinham a missão de assistir e cuidar dos mais vulneráveis. Peçamos perdão pelos pecados, nossos e dos outros. A consciência do pecado nos ajuda a reconhecer os erros, delitos e feridas geradas no passado e permite nos abrir e nos comprometer mais com o presente num caminho de conversão renovada.


Da mesma forma, a penitência e a oração nos ajudarão a sensibilizar os nossos olhos e os nossos corações para o sofrimento alheio e a superar o afã de domínio e controle que muitas vezes se torna a raiz desses males. Que o jejum e a oração despertem os nossos ouvidos para a dor silenciada em crianças, jovens e pessoas com necessidades especiais. Jejum que nos dá fome e sede de justiça e nos encoraja a caminhar na verdade, dando apoio a todas as medidas judiciais que sejam necessárias. Um jejum que nos sacuda e nos leve ao compromisso com a verdade e na caridade com todos os homens de boa vontade e com a sociedade em geral, para lutar contra qualquer tipo de abuso de poder, sexual e de consciência.


Desta forma, poderemos tornar transparente a vocação para a qual fomos chamados a ser "um sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano"(Conc. Ecum. Vat. II, Lumen Gentium, 1).


"Um membro sofre? Todos os outros membros sofrem com ele", disse-nos São Paulo. Através da atitude de oração e penitência, poderemos entrar em sintonia pessoal e comunitária com essa exortação, para que cresça em nós o dom da compaixão, justiça, prevenção e reparação. Maria soube estar ao pé da cruz de seu Filho. Não o fez de uma maneira qualquer, mas permaneceu firme de pé e ao seu lado. Com essa postura, Ela manifesta o seu modo de estar na vida. Quando experimentamos a desolação que nos produz essas chagas eclesiais, com Maria nos fará bem "insistir mais na oração" (cf. S. Inácio de Loiola, Exercícios Espirituais, 319), procurando crescer mais no amor e na fidelidade à Igreja. Ela, a primeira discípula, nos ensina a todos os discípulos como somos convidados a enfrentar o sofrimento do inocente, sem evasões ou pusilanimidade. Olhar para Maria é aprender a descobrir onde e como o discípulo de Cristo deve estar.


Que o Espírito Santo nos dê a graça da conversão e da unção interior para poder expressar, diante desses crimes de abuso, a nossa compunção e a nossa decisão de lutar com coragem.


Francisco

quinta-feira, agosto 30, 2018

MÃES QUE ORAM, POR DOM FERNANDO ARÊAS RIFAN



                                                                                                           


Dom Fernando Arêas Rifan*


Surgem, às vezes, na Igreja, certamente inspirados por Deus, ação do Divino Espírito Santo, movimentos e grupos especialmente dedicados à oração e ao bem do próximo.
Assim, paralelamente ao “Terço dos Homens”, que tão bem tem feito à Igreja no Brasil, levando milhares de homens à vida cristã, surgiu o movimento “Mães que oram pelos filhos”, fundado em 2011, pela mãe Sra. Ângela Abdo Campos Ferreira, na Arquidiocese de Vitória, com aprovação do Sr. Arcebispo D. Luiz Mancilha, que tem feito um grande bem em todas as Paróquias e Dioceses onde tem sido implantado. Já foi também fundado na Igreja Principal da nossa Administração Apostólica e em outras paróquias, com grande proveito para as mães e seus filhos. Recomendamos vivamente a expansão desse movimento em todas as nossas Paróquias e Igrejas. 


Tendo como padroeira Nossa Senhora de La Salette, que apareceu chorando pelos seus filhos, o movimento invoca como sua copadroeira Santa Mônica, mãe que orou por seu filho Agostinho e conseguiu a sua conversão. Celebramos a memória de ambos nesta semana. 
Aurélio Agostinho nasceu em Tagaste, na Região de Cartago, na África, filho de Patrício, pagão, e Mônica, cristã fervorosa. Segundo narra ele próprio, Agostinho bebeu o amor de Jesus com o leite de sua mãe. Mas afastou-se dos ensinamentos da mãe e, por causa de más companhias, entregou-se aos vícios. Cometeu maldades, viveu no pecado durante sua juventude, teve uma amante e um filho, e, pior, caiu na heresia gnóstica dos maniqueus. 


Sua mãe,Santa Mônica, rezava e chorava por ele todos os dias. “Fica tranquila”, disse-lhe certa vez um bispo, “é impossível que pereça um filho de tantas lágrimas!” E foi sua oração e suas lágrimas que conseguiram a volta para Deus desse filho querido transviado.
Nas suas “Confissões”, Agostinho relata a sua vida de pecador arrependido. Transferiu-se com sua mãe para Milão, na Itália. Levado pela mãe a ouvir os célebres sermões de Santo Ambrósio e nutrido com a leitura da Sagrada Escritura e da vida dos santos, Agostinho converteu-se realmente, recebeu o Batismo aos 33 anos e dedicou-se a uma vida de estudos e oração. Ordenado sacerdote e bispo, além de pastor dedicado e zeloso, foi intelectual brilhantíssimo, dos maiores gênios já produzidos em dois mil anos da História da Igreja. É Santo e Doutor da Igreja. Sua vida demonstra o poder da graça de Deus que vence o pecado e sempre, como Pai, espera a volta do filho pródigo. 


Sua mãe, Santa Mônica, é o exemplo da mulher forte, de oração poderosa, que rezou a vida toda pela conversão do seu filho, o que conseguiu de maneira admirável. Exemplo para todas as mães que, mesmo tendo ensinado o bom caminho aos seus filhos, os vêm desviados nas sendas do mal. A oração e as lágrimas de uma mãe são eficazes diante de Deus. E a vida de Santo Agostinho é uma lição para nunca desesperarmos da conversão de ninguém, por mais pecador que seja, e para sempre estarmos sinceramente à procura da verdade e do bem. 


*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/


terça-feira, agosto 28, 2018

29 DE AGOSTO, MARTÍRIO DE SÃO JOÃO BATISTA



Ele é tão importante que a Igreja o homenageia tanto no dia do martírio (29 de agosto) quanto no do nascimento (24 de junho) 

É fácil reconhecer São João Batista, um dos santos mais retratados na arte cristã: o profeta que se alimentava de gafanhotos e mel silvestre usa uma veste de pele de camelo e um cinto e está quase sempre junto a um cordeiro, imagem que evoca Jesus, o Cordeiro de Deus.

João, cujo nome significa “Deus é misericórdia”, é o último profeta do Antigo Testamento.

Ele é tão importante que a Igreja o homenageia tanto no dia do seu martírio (29 de agosto) quanto no do seu nascimento (24 de junho). Aliás, São João Batista, junto com Jesus e Nossa Senhora, é o único santo a quem a Igreja celebra no dia do nascimento neste mundo, já que a tradição é celebrar os santos apenas no dia do seu nascimento para a vida eterna.

Nascimento



São João Batista teria nascido em Ain Karim, cerca de 7 quilômetros a oeste de Jerusalém, numa família sacerdotal: seu pai, Zacarias, era da classe de Abias, e sua mãe, Isabel, descendia de Aarão. “Chamar-se-á João”, afirmou seu pai. 

No décimo quinto ano de Tibério (28-29 d.C.), João iniciou a sua missão no rio Jordão: pregar e batizar. É daí que vem o apelido “Batista”. 

Quando batiza Jesus, João revela a identidade do Filho de Deus: 

“Eis o Cordeiro de Deus, eis aquele que tira o pecado do mundo!”


O martírio


Impelido pela missão profética, João Batista denuncia os pecados do governador da Galileia, o rei Herodes, que tinha sequestrado a própria cunhada Herodíades e vivia com ela como se fossem esposos.

O Batista é preso em Maqueronte, na costa oriental do Mar Morto. Salomé, a filha de Herodíades, ganha do rei o direito de pedir o que desejasse. Sua mãe, vingativa, a instiga a fazer um pedido assassino:

“Quero que me dês imediatamente, numa bandeja, a cabeça de João, o Batista” (Mc 6,25).

E foi assim que o santo precursor de Cristo sofreu o martírio.

Seu corpo não achou a paz neste mundo nem sequer após a morte. Nos tempos do imperador Juliano, o Apóstata, em 361-362, o sepulcro do Batista foi profanado e queimado. Suas cinzas, segundo a tradição, estão hoje na catedral de São Lourenço, em Gênova, Itália, para onde os cruzados as teriam levado em 1098.


Padroeiro

São João Batista é padroeiro dos injustiçados por causa da fé: uma situação particularmente atual em meio à grande onde de violência e martírio sofrida pelos cristãos do nosso tempo em todo o mundo.


Sim: os cristãos ainda são, em 2017, a religião mais perseguida do mundo.
Em 2016, pelo menos 90.000 cristãos foram assassinados simplesmente por causa da sua fé

Em 2016, aproximadamente 90.000 cristãos foram mortos em todo o planeta simplesmente por causa da sua fé, o que mantém o cristianismo como a religião mais perseguida do mundo. Este número, que equivale a 1 cristão assassinado a cada 6 minutos, ficou ligeiramente abaixo dos 105.000 que foram mortos em 2015 apenas por serem cristãos.

Quase um terço das mortes em 2016 foram perpetradas por fanáticos extremistas como os do autodenominado Estado Islâmico, mas também houve assassinatos decorrentes de perseguição estatal.

Massimo Introvigne, diretor do CESNUR (Centro Studi sulle Nuove Religioni, ou Centro de Estudos sobre as Novas Religiões, em italiano), declarou à Rádio Vaticano que aproximadamente 70% dos cristãos martirizados em 2016 moravam em áreas tribais da África: parte dessas mortes se deveu ao fato de os cristãos muitas vezes se negarem a pegar em armas durante os muitos conflitos locais.

O Center for the Study of Global Christianity (Centro de Estudos sobre a Cristandade no Mundo) também monitora e estuda os dados sobre o martírio cristão histórico e contemporâneo. A entidade estima que entre 2005 e 2015 houve 900.000 mártires cristãos em todo o planeta, média de 90.000 por ano. Segundo este centro, devem ser levados em conta argumentos históricos, sociológicos e teológicos na quantificação do martírio cristão ao longo do tempo. Sua definição de mártir cristão é esta: “Crentes em Cristo que perderam a vida prematuramente, em situações de testemunho, em decorrência direta de hostilidade humana“.

O número de cristãos martirizados em 2016, na realidade, é provavelmente superior a 90.000, já que os estudos não conseguiram incluir os dados da China e da Índia, justamente os dois países mais populosos do planeta e nos quais, por causa da perseguição, há grandes comunidades cristãs clandestinas. Nesse contexto, o número de cristãos martirizados é difícil de quantificar.

segunda-feira, agosto 27, 2018

XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM




Estamos no final do episódio que começou com a multiplicação dos pães e dos peixes (cf. Jo 6,1-15) e que continuou com o “discurso do pão da vida” (cf. Jo 6,22-59). Trata-se de um episódio atravessado por diversos equívocos e onde se manifesta a perplexidade e a confusão daqueles que escutam as palavras de Jesus… A multidão esperava um messias rei que lhe oferecesse uma vida confortável e pão em abundância e Jesus mostrou que não veio “dar coisas”, mas oferecer-Se a Ele próprio para que a humanidade tivesse vida; a multidão esperava de Jesus uma proposta humana de triunfo e de glória e Jesus convidou-a a identificar-se com Ele e a segui-l’O no caminho do amor e do dom da vida até à morte… Os interlocutores de Jesus perceberam claramente que Jesus os tinha colocado diante de uma opção fundamental: ou continuar a viver numa lógica humana, virada para os bens materiais e para as satisfações mais imediatas, ou o assumir a lógica de Deus, seguindo o exemplo de Jesus e fazendo da vida um dom de amor para ser partilhado. Instalados nos seus esquemas e preconceitos, presos a aspirações e sonhos demasiado materiais, desiludidos com um programa que lhes parecia condenado ao fracasso, os interlocutores de Jesus recusaram-se a identificar-se com Ele e com o seu programa.
O nosso texto mostra-nos a reação negativa de “muitos discípulos” às propostas que Jesus faz. Nem todos os discípulos estão dispostos a identificar-se com Jesus (“comer a sua carne e beber o seu sangue”) e a oferecer a sua vida como dom de amor que deve ser partilhado com toda a humanidade.

Na Primeira Leitura 

O problema fundamental posto pelo autor do nosso texto é o das opções: “escolhei hoje a quem quereis servir” – diz Josué ao Povo reunido. É uma questão que nunca deixará de nos ser posta… Ao longo da nossa caminhada pela vida, vamos fazendo a experiência do encontro com esse Deus libertador e salvador que Israel descobriu na sua marcha pela história; mas encontramo-nos também, muito frequentemente, com outros deuses e outras propostas que parecem garantir-nos a vida, o êxito, a realização, a felicidade e que, quase sempre, nos conduzem por caminhos de escravidão, de dependência, de desilusão, de infelicidade. A expressão “escolhei hoje a quem quereis servir” interpela-nos acerca da nossa servidão ao dinheiro, ao êxito, à fama, ao poder, à moda, às exigências dos valores que a opinião pública consagrou, ao reconhecimento público… Naturalmente, nem todos os valores do mundo são geradores de escravidão ou incompatíveis com a nossa opção por Deus… Temos, no entanto, que repensar continuamente a nossa vida e as nossas opções, a fim de não corrermos atrás de falsos deuses e de não nos deixarmos seduzir por propostas falsas de realização e de felicidade. O verdadeiro crente sabe que não pode prescindir de Deus e das suas propostas; e sabe que é nesse Deus que nunca desilude aqueles que n’Ele confiam que pode encontrar a sua realização plena.

O escândalo não tardou em rebentar! “Estas palavras são duras. Quem pode escutá-las?” Desta vez, não são os escribas e os fariseus que se opõem violentamente a Jesus, mas a maior parte dos seus discípulos. No lugar de Jesus, teríamos, sem dúvida, tentado acalmar os espíritos dizendo, por exemplo, que comer o seu corpo, beber o seu sangue para ter a vida eterna, era uma imagem, certamente chocante, mas apenas uma imagem! Nada disso com Jesus! Ele não apenas não retira nenhuma das suas palavras, mas provoca os Doze: “Também vós quereis ir embora?” Ele aceitaria antes ver partir os seus discípulos mais próximos do que negar uma só das suas palavras! O desafio era capital, incontornável. Não podemos apagar estas palavras se queremos ser seus discípulos. Tudo à luz do acontecimento central da Morte e Ressurreição, celebrado na Eucaristia! Isso exige uma dupla atitude para entrarmos no mistério da Eucaristia: Reconhecemos verdadeiramente neste homem, Jesus de Nazaré, o Filho de Maria, o verdadeiro Filho único de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, como dizemos no Credo? Cremos verdadeiramente que Jesus ressuscitou e é verdadeiramente vencedor da morte? Aí está o centro da nossa fé, onde tudo se decide! Quando comungamos o corpo e o sangue de Cristo, dizemos: “Ámen! Adiro a esta presença de Jesus ressuscitado com todas as fibras do meu ser!” Uma fé celebrada na Eucaristia a marcar toda a nossa existência… Não há meios-termos!


















sexta-feira, agosto 24, 2018

24 DE AGOSTO, SÃO BARTOLOMEU





Queridos irmãos e irmãs!

Na série dos Apóstolos chamados por Jesus durante a sua vida terrena, hoje quem atrai a nossa atenção é o apóstolo Bartolomeu. Nos antigos elencos dos Doze ele é sempre colocado antes de Mateus, enquanto varia o nome daquele que o precede e que pode ser Filipe (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 14) ou Tomé (cf. Act 1, 13). O seu nome é claramente um patronímico, porque é formulado com uma referência explícita ao nome do pai. De facto, trata-se de um nome provavelmente com uma marca aramaica, Bar Talmay,que significa precisamente "filho de Talmay".

Não temos notícias de relevo acerca de Bartolomeu; com efeito, o seu nome recorre sempre e apenas no âmbito dos elencos dos Doze acima citados e, por conseguinte, nunca está no centro de narração alguma. Mas, tradicionalmente ele é identificado com Natanael: um nome que significa "Deus deu". Este Natanael provinha de Caná (cf. Jo 21, 2), e portanto é possível que tenha sido testemunha do grande "sinal" realizado por Jesus naquele lugar (cf. Jo 2, 1-11). A identificação das duas personagens provavelmente é motivada pelo facto que este Natanael, no episódio de vocação narrada pelo Evangelho de João, é colocado ao lado de Filipe, isto é, no lugar que Bartolomeu ocupa nos elencos dos Apóstolos narrados pelos outros Evangelhos. Filipe tinha comunicado a este Natanael que encontrara "aquele sobre quem escreveram Moisés, na Lei, e os profetas: Jesus, filho de José de Nazaré" (Jo 1, 45). Como sabemos, Natanael atribuiu-lhe um preconceito bastante pesado: "De Nazaré pode vir alguma coisa boa?" (Jo 1, 46a). Esta espécie de contestação é, à sua maneira, importante para nós. De facto, ela mostra-nos que segundo as expectativas judaicas, o Messias não podia provir de uma aldeia tanto obscura como era precisamente Nazaré (veja também Jo 7, 42). Mas, ao mesmo tempo realça a liberdade de Deus, que surpreende as nossas expectativas fazendo-se encontrar precisamente onde não o esperávamos. Por outro lado, sabemos que Jesus na realidade não era exclusivamente "de Nazaré", pois tinha nascido em Belém (cf. Mt 2, 1; Lc 2, 4) e que por fim provinha do céu, do Pai que está no céu.

Outra reflexão sugere-nos a vicissitude de Natanael: na nossa relação com Jesus não devemos contentar-nos unicamente com as palavras. Filipe, na sua resposta, faz um convite significativo: "Vem e verás!" (Jo 1, 46b). O nosso conhecimento de Jesus precisa sobretudo de uma experiência viva: o testemunho de outrem é certamente importante, porque normalmente toda a nossa vida cristã começa com o anúncio que chega até nós por obra de uma ou de várias testemunhas. Mas depois devemos ser nós próprios a deixar-nos envolver pessoalmente numa relação íntima e profunda com Jesus; de maneira análoga os Samaritanos, depois de terem ouvido o testemunho da sua concidadã que Jesus tinha encontrado ao lado do poço de Jacob, quiseram falar directamente com Ele e, depois deste colóquio, disseram à mulher: "Já não é pelas tuas palavras que acreditamos, nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo" (Jo 4, 42).

Voltando ao cenário de vocação, o evangelista refere-nos que, quando Jesus vê Natanael aproximar-se exclama: "Aqui está um verdadeiro Israelita, em quem não há fingimento" (Jo 1, 47). Trata-se de um elogio que recorda o texto de um Salmo: "Feliz o homem a quem Iahweh não atribui iniquidade" (Sl 32, 2), mas que suscita a curiosidade de Natanael, o qual responde com admiração: "Como me conheces?" (Jo 1, 48a). A resposta de Jesus não é imediatamente compreensível. Ele diz: "Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas sob a figueira" (Jo 1, 48b). Não sabemos o que aconteceu sob esta figueira. É evidente que se trata de um momento decisivo na vida de Natanael. Ele sente-se comovido com estas palavras de Jesus, sente-se compreendido e compreende: este homem sabe tudo de mim, Ele sabe e conhece o caminho da vida, a este homem posso realmente confiar-me. E assim responde com uma confissão de fé límpida e bela, dizendo: "Rabi, tu és o filho de Deus, tu és o Rei de Israel" (Jo 1, 49). Nela é dado um primeiro e importante passo no percurso de adesão a Jesus. As palavras de Natanael ressaltam um aspecto duplo e complementar da identidade de Jesus: Ele é reconhecido quer na sua relação especial com Deus Pai, do qual é Filho unigénito, quer na relação com o povo de Israel, do qual é proclamado rei, qualificação própria do Messias esperado. Nunca devemos perder de vista nenhuma destas duas componentes, porque se proclamamos apenas a dimensão celeste de Jesus, corremos o risco de o transformar num ser sublime e evanescente, e se ao contrário reconhecemos apenas a sua colocação concreta na história, acabamos por descuidar a dimensão divina que propriamente o qualifica.

Da sucessiva actividade apostólica de Bartolomeu-Natanael não temos notícias claras. Segundo uma informação referida pelo historiador Eusébio do século IV, um certo Panteno teria encontrado até na Índia os sinais de uma presença de Bartolomeu (cf. Hist. eccl., V 10, 3). Na tradição posterior, a partir da Idade Média, impôs-se a narração da sua morte por esfolamento, que se tornou muito popular. Pense-se na conhecidíssima cena do Juízo Universal na Capela Sistina, na qual Michelangelo pintou São Bartolomeu que segura com a mão esquerda a sua pele, sobre a qual o artista deixou o seu auto-retrato. As suas relíquias são veneradas aqui em Roma na Igreja a ele dedicada na Ilha Tiberina, aonde teriam sido levadas pelo Imperador alemão Otão III no ano de 983. Para concluir, podemos dizer que a figura de São Bartolomeu, mesmo sendo escassas as informações acerca dele, permanece contudo diante de nós para nos dizer que a adesão a Jesus pode ser vivida e testemunhada também sem cumprir obras sensacionais. Extraordinário é e permanece o próprio Jesus, ao qual cada um de nós está chamado a consagrar a própria vida e a própria morte.

PAPA EMÉRITO BENTO XVI (ALOCUÇÃO DE 2008)

quinta-feira, agosto 23, 2018

23 DE AGOSTO, SANTA ROSA DE LIMA




Para todos nós, hoje é dia de grande alegria, pois podemos celebrar a memória da primeira santa da América do Sul, Padroeira do Peru, das Ilhas Filipinas e de toda a América Latina. Santa Rosa nasceu em Lima (Peru) em 1586; filha de pais espanhóis, chamava-se Isabel Flores, até ser apelidada de Rosa por uma empregada índia que a admirava, dizendo-lhe: “Você é bonita como uma rosa!”. 
Rosa bem sabia dos elogios que a envaideciam, por isso buscava ser cada vez mais penitente e obedecer em tudo aos pais, desta forma, crescia na humildade e na intimidade com o amado Jesus. 

Quando o pai perdeu toda a fortuna, Rosa não se perturbou ao ter que trabalhar de doméstica, pois tinha esta certeza: “Se os homens soubessem o que é viver em graça, não se assustariam com nenhum sofrimento e padeceriam de bom grado qualquer pena, porque a graça é fruto da paciência”. A mudança oficial do nome de Isabel para Rosa ocorreu quando ela tomou o hábito da Ordem Terceira Dominicana, da mesma família de sua santa e modelo de devoção: Santa Catarina de Sena e, a partir desta consagração, passou a chamar-se Rosa de Santa Maria. Devido à ausência de convento no local em que vivia, Santa Rosa de Lima renunciou às inúmeras propostas de casamento e de vida fácil: “O prazer e a felicidade de que o mundo pode me oferecer são simplesmente uma sombra em comparação ao que sinto”. 

Começou a viver a vida religiosa no fundo do quintal dos pais e, assim, na oração, penitência, caridade para com todos, principalmente índios e negros, Santa Rosa de Lima cresceu na união com Jesus Cristo, tanto quanto no sofrimento, por isso, tempos antes de morrer, aos 31 anos (1617), exclamou: “Senhor, fazei-me sofrer, contanto que aumenteis meu amor para convosco”. Foi canonizada a 12 de abril de 1671 pelo Papa Clemente X.

Santa Rosa de Lima, rogai por nós!




quarta-feira, agosto 22, 2018

ABORTO - A VOZ DA CIÊNCIA, POR DOM FERNANDO ARÊAS RIFAN


Dom Fernando Arêas Rifan*


Considerando-se o feto como um amontoado de células ou algo pertencente ao corpo da mãe, o aborto seria defensável. Mas, cientificamente falando, não é. Trata-se, segundo a ciência moderna, de um ser humano, apesar de ainda em formação, - como, aliás, também o é um bebê recém-nascido - com código genético, conjunto de cromossomos e personalidade independente da sua mãe. E a sua morte provocada vem a se constituir em um voluntário e direto ato de se tirar a vida de um ser humano inocente, ato ilícito perante a lei natural e a lei positiva de Deus. 

E já foi estatisticamente refutado o argumento de que, nos países em que o aborto foi legalizado, o seu número diminuiu. E mesmo que o fosse, continua o princípio de que não se pode legalizar um crime, mas sim estabelecer a proteção da criança que está no ventre de sua mãe. Cada bebê é um dom precioso com personalidade própria e não um número de estatística. 
E ao argumento falso de que a mulher é dona do seu próprio corpo devemos responder com a ciência que o nascituro não faz parte do corpo da sua mãe, não é um apêndice ou um órgão seu, mas é um ser independente em formação nela. 

A questão de uma nova vida começar com a concepção é um dado científico atual e não objeto da fé. Portanto, ser contra o aborto é posição normal de quem aceita os dados da ciência. 

“O ciclo vital, do ponto de vista estritamente biológico, é que, cada ser humano é um organismo distinto e singular... A fertilização dá início ao ciclo vital levando a um período de desenvolvimento, chamado de embriogênese, no qual as células, os tecidos e os órgãos se desenvolvem progressivamente a partir de uma única célula, o zigoto... Segundo as evidências fornecidas pela biologia, o zigoto humano, que dá início ao embrião multicelular que dele deriva, é verdadeiramente um indivíduo, e não parte de um todo ou um agregado de elementos... Isto tudo leva a concluir que o embrião humano, mesmo no seu primeiro passo, não é um amontoado de células, mas um indivíduo real... A partir da constituição do Zigoto, exige-se o respeito, que é moralmente devido aos seres humanos em sua totalidade corporal e espiritual” (exposição do Prof. Dr. Carlos Mateus Rotta, Doutor e Mestre em Medicina, Professor responsável pela disciplina de Clínica Cirúrgica e gestor acadêmico do Curso de Medicina da Universidade de Mogi das Cruzes).

Dr. Jerôme Lejeune, cientista, professor da Universidade René Descartes, de Paris, e especialista em Genética Fundamental, descobridor da causa da síndrome de Down, em entrevista à VEJA, que lhe perguntou se, para ele, a vida começa a existir no momento da concepção, respondeu: “Não quero repetir o óbvio. Mas, na verdade, a vida começa na fecundação. Quando os 23 cromossomos masculinos transportados pelo espermatozoide se encontram com os 23 cromossomos da mulher, todos os dados genéticos que definem o novo ser humano já estão presentes. A fecundação é a marco do início da vida. Daí para frente, qualquer método artificial para destruí-la é um assassinato”.

terça-feira, agosto 21, 2018

22 DE AGOSTO, NOSSA SENHORA RAINHA





A encíclica Ad Caeli Reginam (Rainha do Céu), do Papa Pio XII, de 11 de outubro de 1954 trata sobre a Realeza de Maria e a instituição Festa de Nossa Senhora Rainha, celebrada a cada dia 31 de maio com o costume de coroar-se a imagem da Virgem e da recitação pública da Consagração do Gênero Humano ao Imaculado Coração de Maria.

Nas palavras do Papa Pio XII: “Tudo isso nos incute grande esperança de que há de surgir nova era, iluminada pela paz cristã e pelo triunfo da religião.” Na mesma encíclica o Papa Pio XII escreveu: “Maria é Rainha não só por ser a Mãe de Deus, mas também por ter sido associada, pela vontade de Deus, a Jesus Cristo na obra da salvação. Isenta de qualquer culpa pessoal ou hereditária, e sempre estreitissimamente unida ao Filho, ela o ofereceu no Calvário ao Eterno Pai, sacrificando seu amor de mãe em benefício de toda a humanidade manchada pelo pecado. Por isso, assim como Jesus é Rei não só por ser o Filho de Deus, mas também por ser o nosso Redentor, assim pode-se afirmar que Maria é Rainha não só por ser a Mãe de Deus, mas também porque se associou a Cristo na redenção do gênero humano".


Maria-Rainha na Tradição da Igreja

“Maria participa da dignidade real – ensina Pio XII – porque desta união com Cristo Rei deriva para ela tão esplendente sublimidade, que supera a excelência de todas as coisas criadas. Desta mesma união com Cristo nasce aquele poder real, pelo qual ela pode dispor dos tesouros do Reino do Redentor divino”. O Reino de Maria é vasto como o de seu Filho, porque nada se exclui de seu domínio.”

O dia 22 de agosto era reservado à homenagem ao Coração Imaculado de Maria. Mas, a Igreja desejando aproximar a festa da realeza de Maria à da sua gloriosa ascensão ao céu, inverteu estas datas a partir da última reforma do seu calendário litúrgico em 1969.

Os Papas não cansaram de louvar Maria como Rainha. Podemos elencar algumas citações dos sumos pontífices sobre Maria Rainha:

Papa Sisto IV: “…Maria uma “rainha sempre vigilante, a interceder junto ao Rei, que ela gerou.” (Bula Cum Praeexcelsa, de 28 de fevereiro de 1476)

Paulo VI: escreve sobre a Intercessão valiosa: a de Maria, Mãe da Igreja e “Rainha da paz.” (Encíclica Christi Matri Rosarii, de 15 de setembro de 1966.)

“Maria é “aquela que, sentada ao lado do Rei dos Séculos, resplandece como Rainha e intercede como Mãe.( Marialis cultus)”

João Paulo II: “Maria, serva do Senhor, tem parte neste Reino do Filho. A glória de servir não cessa de ser a sua exaltação real: elevada ao céu, não suspende aquele seu serviço salvífico em que se exprime a mediação materna, “até à consumação perpétua de todos os eleitos”. Assim, aquela que, aqui na terra, “conservou fielmente a sua união com o Filho até à Cruz”, permanece ainda unida a ele, uma vez que “tudo lhe está submetido, até que ele sujeite ao Pai a sua pessoa e todas as criaturas”. (Encíclica Redemptoris Mater)

São Luis Maria Grignion de Montfort, no seu Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, previu o reino da Mãe de Deus na Terra. Animado de ardoroso carisma profético, esse grande apóstolo marial previu que, ao ser conhecida e posta em prática a devoção a Maria por ele ensinada, o reino da Mãe de Deus estaria implantado na Terra. Em outras palavras, ele já antevia o triunfo do Imaculado Coração de Maria, por Ela prometido em 1917.

Assim exclama São Luis Grignion: “Ah! Quando virá este tempo feliz em que Maria será estabelecida Senhora e Soberana nos corações, para submetê-los plenamente ao império de seu grande e único Jesus? Quando chegará o dia em que as almas respirarão Maria, como o corpo respira o ar? Então, coisas maravilhosas acontecerão neste mundo, onde o Espírito Santo, encontrando sua querida Esposa como que reproduzida nas almas, a elas descerá abundantemente, enchendo-as de seus dons, particularmente do dom da sabedoria, a fim de operar maravilhas de graça. Meu caro irmão, quando chegará esse tempo feliz, esse século de Maria, em que inúmeras almas escolhidas, perdendo-se no abismo de seu interior, se tornarão cópias vivas de Maria, para amar e glorificar Jesus Cristo? Esse tempo só chegará quando se conhecer e praticar a devoção que ensino. Ut adveniat regunum tuum, adveniat regnum Mariae (Que venha o Reino de Maria, para que assim venha o Reino de Jesus Cristo)!”.

Nas revelações de Fátima, podemos confirmar as palavras de São Luis Grignion de Montfort “Que venha o Reino de Maria, para que assim venha o Reino de Jesus Cristo” : a Irmã Lúcia perguntou certa vez a Nosso Senhor, por que não convertia a Rússia independemente da consagração dessa nação ao Imaculado Coração de Maria, a ser feita pelo Santo Padre. Nosso Senhor lhe respondeu: “Porque quero que toda a minha Igreja reconheça essa consagração como um triunfo do Coração Imaculado de Maria, para depois estender o seu culto e pôr, ao lado da devoção ao meu Divino Coração, a devoção deste Imaculado Coração”.

Nossa Senhora Rainha, rogai por nós!

Fonte: SÁ FREIRE, Rita de Cássia Pinho França de. Mensagem de Nossa Senhora de Fátima: O Plano Divino de Paz e Salvação – Editora Petrus, 2011.

segunda-feira, agosto 20, 2018

SOLENIDADE ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA




A mulher e o dragão
A primeira consideração sobre a Assunção de Nossa Senhora apresenta dois símbolos: a mulher e o dragão (1L). São dois arquétipos, indicativo de não ser exclusividade da simbologia Bíblica. A mulher, referente da geração humana da vida e, o dragão, referente do mal, do inimigo destruidor da vida. Símbolos, portanto, não propostos à contemplação, mas para serem lidos e interpretados.

A luta da mulher com o dragão aparece no Genesis e no Apocalipse. Não significa o começo e o fim, mas explicação da totalidade da história pessoal. A narrativa da 1ª leitura descreve a preservação da vida contra as ameaças destruidoras do dragão, posicionado diante da mulher (da humanidade) geradora da vida; o dragão, a maldade, está sempre pronto para matar e devorar a vida humana. A defesa da vida é a luta constante contra um inimigo destruidor que se apresenta das mais diversas formas, cuja grande e maior de todas as catástrofes chama-se guerra.

Como não ver na cena do Apocalipse (1L) — da mulher em trabalho de parto tendo o dragão diante de si para devorar a vida que começa a nascer — a estrutura fundamental da História da Salvação? Como não ver, de um lado, na fragilidade da mulher e do recém-nascido, a força frágil da vida e, do outro lado, o poder necrófilo de impérios, da constante ameaça de morte promovido pelos sistemas de governo ideológicos , que se interessam mais pelo poder que pela vida? — De onde, então, vem a salvação da vida? Vem de Deus, que leva a mulher e a vida recém-nascida a um lugar seguro e deserto (1L). A mulher e o recém-nascido são imagens da fragilidade da vida humana diante do mal e, ao mesmo tempo, imagem da possibilidade humana de preservar a vida quando confiada a Deus e quando conduzida pelos caminhos de Deus.


Aquela que acreditou

A perícope evangélica proposta pela Liturgia da Assunção está em estreita ligação com a reflexão do Apocalipse (1L). Maria é saudada por Isabel como "aquela que acreditou" (E). É apresentada como mulher de fé, pois nela acontece o que foi anunciado por Deus. A fé, portanto, como condição para que a vontade divina aconteça na vida pessoal. A Palavra de Deus, anunciada pelo anjo a Maria (E), torna-se a referência fundamental da sua existência. Ou seja, a partir daquela Palavra de Deus dita pelo anjo, Maria passa a viver, a relacionar-se com as pessoas, a cultivar seus valores — como o serviço solidário a Isabel —, de um modo novo. Mulher de fé, sem se preocupar tanto com os sucessos ou insucessos da vida, mas vivendo cada momento de sua existência com a luz proposta pela Palavra de Deus.

A decisão de colocar a vida pessoal nas mãos de Deus é a mesma que colocar o futuro da vida, o futuro da história, nas mãos divinas, para que ele a conduza. Nisto, a necessidade da fé como confiança total em Deus. É o que Maria expressa no canto do Magnificat (E). Se na primeira parte, Maria transforma sua fé em ação de graças porque Deus a elegeu, na segunda parte do Magnificat, Maria canta a ação divina na história depondo o poder destruidor da vida (1L e E) e fazendo prevalecer a sua misericórdia. Neste sentido, a história humana torna-se também o local da presença divina desde a encarnação do Verbo. Presença divina para que a vida seja protegida, vitoriosa e coroada de eternidade, como acontece com Maria, na Assunção.

Se a história humana é o local da manifestação de Deus, é compreensível que seja Deus o condutor da história ao destino celeste, cuja Assunção de Maria é manifestação e garantia. Uma celebração, portanto, que proclama o destino da história pessoal e de toda a humanidade, porque eterna é a misericórdia divina (E).












20 DE AGOSTO, SÃO BERNARDO




São Bernardo de Claraval dizia que existem quatro graus do amor humano:

1 – O homem ama a si próprio.
2 – Ao descobrir que não pode estar só e que Deus lhe é necessário, o homem começa a procurar o seu Criador e a amá-lo, mas como fonte de benefício.
3 – Como as necessidades o obrigam a recorrer a Deus com frequência, na meditação, na leitura, na oração e na obediência, o homem acaba compreendendo a doçura divina e atinge o terceiro grau: amar a Deus puramente e por Si próprio, mas ainda não com amor exclusivo.
4 – O homem ama somente a Deus e, em Deus e por causa de Deus, também ama o próximo e a si mesmo como filhos de Deus.

E Deus, como nos ama? São Bernardo passa a palavra:
“Deixemos que responda São João evangelista: ‘Tanto amou Deus o mundo que lhe deu o seu Filho Unigênito’”.

Ó doce Virgem Maria, minha augusta Soberana!
Minha amável Senhora!
Minha boníssima e amorosíssima Mãe!

Doce Virgem Maria, coloquei em Vós toda a minha esperança e não serei em nada confundido.
Doce Virgem Maria, creio tão firmemente que do alto do Céu Vós velais dia e noite por mim e por todos os que esperam em Vós, e estou tão intimamente convencido de que jamais faltará coisa alguma quando se espera tudo de Vós, que resolvi viver para o futuro sem nenhuma apreensão e descarregar inteiramente em Vós todas as minhas inquietações.

Doce Virgem Maria, Vós me estabelecestes na mais inabalável confiança. Mil vezes Vos agradeço por tão precioso favor!

Doravante habitarei em paz em vosso coração tão puro; não pensarei senão em Vos amar e Vos obedecer, enquanto Vós mesma, ó Mãe bondosa, gerireis os meus interesses mais queridos.

Doce Virgem Maria! Como, entre os filhos dos homens, uns esperam a felicidade da sua riqueza, outros a procuram nos talentos!

Outros se apóiam sobre a inocência de sua vida, ou sobre o rigor de sua penitência, ou sobre o fervor de suas preces, ou no grande número de suas boas obras.

Quanto a mim, minha Mãe, esperarei em Vós somente, depois de Deus;
e todo fundamento de minha esperança será sempre a minha confiança em vossas maternais bondades.

Doce Virgem Maria, os maus poderão roubar-me a reputação e o pouco de bem que possuo;
as doenças poderão tirar-me as forças e a faculdade exterior de Vos servir;
poderei eu mesmo — ai de mim, minha terna Mãe! — perder vossas boas graças pelo pecado;
mas a minha amorosa confiança em vossa maternal bondade, jamais — oh, não! — jamais a perderei!

Conservarei esta inabalável confiança até meu último suspiro.

Todos os esforços do inferno não a arrebatarão de mim.
Morrerei repetindo mil vezes o vosso nome bendito, fazendo repousar em vosso Coração toda a minha esperança.

E por que estou tão firmemente seguro de esperar sempre em Vós?

Não é senão porque Vós mesma me ensinastes, dulcíssima Virgem, que sois toda misericórdia e somente misericórdia.

Estou, pois, seguro, ó boníssima e amorosíssima Mãe!

Estou certo de que Vos invocarei sempre, porque Vós sempre me consolareis;
de que Vos agradecerei sempre, porque sempre me confortareis;
de que Vos servirei sempre, porque sempre me ajudareis;
de que Vos amarei sempre, porque sempre me amareis;
de que obterei sempre tudo de Vós, porque o vosso liberal amor sempre ultrapassará a minha esperança.

Sim, é de Vós somente, ó doce Virgem Maria, que, apesar de minhas faltas, espero e aguardo o único bem que desejo: a união a Jesus no tempo e na eternidade.

É de Vós somente, porque sois Vós aquela a quem meu Divino Salvador escolheu para me dispensar todos os Seus favores, para me conduzir a Ele com segurança.

Sim, sois Vós, minha Mãe, que, após me terdes ensinado a compartilhar as humilhações e sofrimentos de vosso Divino Filho, me introduzireis em Sua glória e em Suas delícias, para O louvar e bendizer, junto a Vós e convosco, pelos séculos dos séculos.

Assim seja.

São Bernardo de Claraval

sábado, agosto 18, 2018

A FAMÍLIA É A PRIMEIRA ESCOLA DA GRATIDÃO





Padre Douglas de Freitas Ferreira - Cidade do Vaticano

Olá amigos ouvintes do nosso programa em preparação para o Encontro mundial das famílias com o Papa que acontecerá nos próximos dias, de 21 a 26, em Dublin, na Irlanda. Aqui na nossa Rádio Vaticano você poderá acompanhar e participar do evento graças aos nossos amigos repórteres que estarão lá e nos trarão todas as novidades do evento.

A família é a célula basica da sociedade

O primeiro desafio que a família ajuda a superar é o desafio social. A família é a célula basica da sociedade e, por isso, uma sociedade constituída com famílias fortes, segundo o plano de Deus, será uma sociedade forte, nesse sentido é necessário que os cristãos estejam ativamente no contexto social e político e exijam dos governantes a criação de recursos jurídicos e sociais para a defesa da família. Não é luta ideologica, mas defesa da verdade sobre homem criado segundo a vontade de Deus e confirmada por Cristo, sobre sociedade e sobre bem comum. A clara divisão social com o crescente individualismo é reflexo da divisão familiar quer seja no seu núcleo intimo, quer seja no isolamento da família do convívio social. Famílias fortes e unidas dão testemunho e constroem a sociedade.

A família também auxilia a superar a perda da identidade que aparece cada vez mais as relações hoje. Na família recebemos um nome e por ele somos reconhecidos, recebemos uma posição social clara: somos avôs e avós, pais e mães, filhos e filhas, irmãos e irmãs, tios e tias, primos e primas. Todos os papeis, uma vez recebidos, não podem ser cancelados o que revela, também algo mais: não fomos nós que os criamos e, ao vir ao mundo, alguém nos deu o nome reconhecê-los e cultivá-los nos ajuda superar outro desafio: a falta de gratidão.

A família é a primeira escola da gratidão

Em um mundo cheio de individualismo, como muitas vezes alertou Papa Francisco e, também o papa Bento, a falta de gratidão é clara, e é no intimo da família que aprendemos à agradecer por que ali recebemos o maior dos dons: o dom da Vida, que foi possível somente porque outros se dispuseram a doar e a vida que recebemos existe para amar e doar. Se somos ingratos a vida se torna triste e sem horizonte. A família é a primeira escola da gratidão, é lá onde aprendemos os grandes valores humanos. 

A família, por outro lado, ajuda a superar, também a crescente falta de linguagem humana. No íntimo da vida familiar aprendemos a linguagem humana da vida e para a vida que não é somente o falar. É a linguagem que aprendemos no intimidade familiar que nos permite falar aos outros, com Deus e de Deus. Onde se assiste o combate contra a família, se vê claramente o combate contra o homem e a sua humanidade e também o combate contra Deus.

O Evangelho da família 

Caro amigo, amiga da nossa Rádio, desejo que o nosso encontro de hoje possa ter ajudado você a perceber a grandeza e a centralidade da família para o homem, para a sociedade e para a vida com Deus. Espero que nossos encontros até aqui tenham ajudado você a perceber que O evangelho da família é uma alegria para o mundo! No próximo encontro falaremos do Encontro mundial e dos temas que lá serão apresentados! Um abraço e com alegria rezemos a oração final.

Oração oficial da família para o encontro mundial das Famílias, 2018


Deus, nosso Pai,

Somos irmãos e irmãs em Jesus, teu Filho,

Uma família, no Espírito do teu amor.

Abençoa-nos com a alegria do amor.

Faz-nos pacientes e compassivos Amáveis e generosos,

Acolhendo os que mais precisam.

Ajuda-nos a viver o teu perdão e a tua paz.

Protege todas as famílias com o cuidado do teu amor

Especialmente aqueles por quem rezamos agora:



[Fazemos uma pausa para lembrar, pelo nome, membros da família e outras pessoas]



Aumenta a nossa fé,

Fortalece a nossa esperança,

Protege-nos com o teu amor,

Faz-nos sempre agradecidos pelo dom da vida que partilhamos.

Isto te pedimos, por Cristo nosso Senhor Amém.



Maria, mãe e guia, rogai por nós.

São José, pai e protetor, rogai por nós.

Santos Joaquim e Ana, rogai por nós.

Santos Luís e Zélia Martin, rogai por nós

FONTE: SITE DO VATICANO

sexta-feira, agosto 17, 2018

MARIA, RAINHA DA CRIAÇÃO



Provavelmente já escutamos – ou até o tenhamos dito – que os mais novos acham que “o leite vem do pacote”. Com estas palavras, manifestamos a percepção que temos da grande distância que se gerou entre a vida humana – especialmente nas grandes cidades – e a natureza. Também damos conta que tudo o que actualmente entra em nossas casas passa por um grande processo de transformação, a ponto de já não sermos capazes de reconhecer a origem de cada produto.

Porque a nossa consciência a este nível pode estar algo debilitada, é bom lembrar que a criação é a fonte daquilo que precisamos para viver. Dela recebemos a comida que nos alimenta, a bebida que sacia a nossa sede, o oxigénio que inalamos e até os medicamentos que nos curam… Quantos artistas e criadores não tiveram outra intenção que “imitar a natureza”? Por isso, acho que tem todo o sentido falar-se numa dimensão maternal da criação, pois nos cuida e também nos ensina a cuidar, ao jeito de uma mãe. No entanto, a natureza, que tanto se tem prodigalizado por nós ao longo dos tempos, reclama hoje o nosso cuidado, neste momento em que ela se mostra doente, cansada e envelhecida. Parece ter chegado a hora de cada um de nós demonstrar até que ponto aprendeu e desenvolveu a sua vocação de cuidador e custódio.

O paradigma desta atitude maternal de cuidado encontramo-lo em Maria de Nazaré. De facto, “Maria, a mãe que cuidou de Jesus, agora cuida com carinho e preocupação materna deste mundo ferido. Assim como chorou com o coração trespassado a morte de Jesus, assim também agora Se compadece do sofrimento dos pobres crucificados e das criaturas deste mundo exterminadas pelo poder humano. Ela vive, com Jesus, completamente transfigurada, e todas as criaturas cantam a sua beleza. É a Mulher «vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça» (Ap 12, 1). Elevada ao céu, é Mãe e Rainha de toda a criação. No seu corpo glorificado, juntamente com Cristo ressuscitado, parte da criação alcançou toda a plenitude da sua beleza. Maria não só conserva no seu coração toda a vida de Jesus, que «guardava» cuidadosamente (cf. Lc 2, 51), mas agora compreende também o sentido de todas as coisas. Por isso, podemos pedir-Lhe que nos ajude a contemplar este mundo com um olhar mais sapiente” (LS 241).

Às portas da Solenidade da Assunção, festa com uma grande tradição no nosso país, reforçada ainda pela presença maciça e contagiante de muitos dos nossos emigrantes, estas palavras do papa Francisco adquirem um peso especial e podem ter uma ressonância mais forte no nosso coração. Num momento em que o drama dos incêndios se volta a abater sobre o nosso país, acudamos à «Mãe e Rainha de toda a criação» e saibamos aprender com ela a cuidar e a reparar a extraordinária obra que o Criador fez com tanto amor e engenho.

FONTE: http://www.dehonianos.org (PT de Portugal)

terça-feira, agosto 14, 2018

ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA



A Sagrada Tradição da Igreja ensina que Nossa Senhora foi elevada ao céu de corpo e alma após sua morte. No entanto, as particularidades da “morte” da Virgem Maria não são conhecidas. Santo Epifânio, bispo de Salamina de Chipre, compôs, nos anos de 374-377, o livro sobre as heresias, no qual escreve: “Ou a Santa Virgem morreu e foi sepultada e seguiu-se depois sua Assunção na glória, ou, sem fim, verificou-se em plena e ilibada pureza, adornando a coroa de sua virgindade” (MS, p. 267).
O Dogma da Assunção da Virgem Santíssima foi proclamado, solenemente, pelo Papa Pio XII, no dia 1º de novembro de 1950, e sua festa é celebrada no dia 15 de agosto. Grande júbilo e alegria pairou sobre todo o mundo católico naquela data, especialmente para os filhos de Maria. Quando o Papa o decretou, por meio da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, foi uma verdadeira apoteose, tanto na Praça de São Pedro, em Roma, como nas outras cidades do mundo católico.
Nesse documento, disse o Papa: “Cristo, com Sua morte, venceu o pecado e a morte e sobre esta e sobre aquele alcançará também vitória pelos merecimentos de Cristo quem for regenerado sobrenaturalmente pelo batismo. Mas por lei natural Deus não quer conceder aos justos o completo efeito dessa vitória sobre a morte, senão quando chegar o fim dos tempos. Por isso, os corpos dos justos se dissolvem depois da morte, e somente no último dia tornarão a unir-se, cada um com sua própria alma gloriosa. Mas desta lei geral Deus quis excetuar a Bem-Aventurada Virgem Maria. Ela, por um privilégio todo singular, venceu o pecado; por sua Imaculada Conceição, não estando por isso sujeita à lei natural de ficar na corrupção do sepulcro, não foi preciso que esperasse até o fim do mundo para obter a ressurreição do corpo”.

Assim, na Praça de São Pedro, em Roma, diante do pórtico de São Pedro, circundado por 36 Cardeais, 555 Patriarcas, Arcebispos e Bispos e sacerdotes, e perante cerca de um milhão de fiéis, o Papa proclamava solenemente: depois de haver mais uma vez elevado a Deus nossas súplicas e invocado as luzes do Espírito Santo, a glória de Deus Onipotente, que derramou sobre a Virgem Maria Sua especial benevolência, em honra de Seu Filho, Rei imortal dos séculos e vencedor do pecado e da morte, para maior glória de Sua augusta Mãe e para a alegria e exultação de toda a santa Igreja, e pela autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo e nossa, pronunciamos, declaramos e definimos ser dogma de fé revelado por Deus que: a Imaculada Mãe de Deus, sempre Virgem Maria, terminado o curso de sua vida terrena, foi elevada à glória celeste em corpo e alma (MS, p. 282).

Solenidade

Papa Paulo VI, na Exortação Apostólica Marialis Cultus, resume a importância desse dogma numa expressão cheia de densidade: “A solenidade de 15 de agosto celebra a gloriosa Assunção de Maria ao Céu, festa de seu destino de plenitude e de bem-aventurança, glorificação de sua alma imaculada e de seu corpo virginal, de sua perfeita configuração com Cristo ressuscitado” (MC n.6).
Assim, Maria participa da ressurreição e glorificação de Cristo. É preciso lembrar, aqui, que somente Jesus e Maria subiram ao Céu de corpo e alma. Os santos estão lá apenas com suas almas, pois os corpos estão na terra, aguardando a ressurreição do último dia. Maria, ao contrário, foi elevada ao céu também com seu corpo já ressuscitado. É uma grande glória dela.
A Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, em uma Instrução de 17-05-1979, deixou bem claro: a Igreja, ao expor a sorte do homem após a morte, exclui qualquer explicação que tire o sentido à Assunção de Nossa Senhora naquilo que ela tem de único, ou seja, o fato de ser a glorificação corporal da Virgem Santíssima uma antecipação da glorificação que está destinada a todos os outros eleitos (n. 6).

Quais os motivos da Assunção de Nossa Senhora?

1 – Como Maria não esteve sujeita ao poder do pecado para poder ser a Mãe de Deus, também não podia ficar sob o império da morte; pois, como disse São Paulo, “o salário do pecado é a morte” (Rm 6,23). Assim, Maria não experimentou a corrupção da carne, mas foi glorificada em sua alma e seu corpo.
2 – A carne de Jesus e a de Maria são a mesma carne. Portanto, a carne de Maria devia ter a mesma glória que teve a de seu Filho.
São João de Damasco, no ano 749, escreve: “Era necessário que aquela que, no parto, havia conservado ilesa sua virgindade, conservasse também sem corrupção alguma seu corpo depois da morte. Era preciso que aquela que havia trazido no seio o Criador feito menino habitasse nos tabernáculos divinos. Era necessário que aquela que tinha visto o Filho sobre a cruz, recebendo no coração aquela espada das dores das quais fora imune ao dá-Lo à luz, O contemplasse sentado à direita do Pai. Era necessário que a Mãe de Deus possuísse aquilo que pertence ao Filho e fosse honrada por todas as criaturas como Mãe de Deus”.
E assim também se exprime São Germano, patriarca de Constantinopla, falecido em 735, e outros santos (MS, pp. 272 e 273).