quarta-feira, março 31, 2021

DOMINGO DE RAMOS








1 – Nem tudo é explicável no Mistério divino

 

Hoje, convivemos com a grande facilidade de encontrar respostas para nossas curiosidades. Se surge um questionamento em nossas cabeças, uma pesquisa rápida na internet oferece milhares de respostas. Nós convivemos com uma curiosidade sadia de querer saber o segredo de tudo, conhecer a origem de tudo, entender as consequências daquilo que acontece. A ciência caminha na estrada da curiosidade; faz questionamentos para compreender o funcionamento do que existe em nós e na natureza. Se isto funciona bem para a ciência, nem sempre funciona na dinâmica da fé. Em tantas situações, a fé nos coloca diante do Mistério de Deus e, na maior parte das vezes, não se tem uma explicação teórica. Nem tudo, no Mistério divino, é explicável.

 

 

2 – Diante do Mistério divino, a contemplação

 

Um destes mistérios divinos sem explicação é a Paixão e Morte de Jesus. Tudo bem, a gente se contenta em dizer que Jesus morreu por amor a nós; esta é a grande verdade da fé. Mas, se tratou de uma morte escandalosa, cruel, vergonhosa. Por que Deus não interveio e impediu tanto sofrimento? Os primeiros cristãos, não conseguindo compreender este mistério, foram buscar uma resposta nas profecias do Antigo Testamento e se depararam com a profecia de Isaías, que ouvimos na 1ª leitura. Ali está um servo de Deus, que passou a vida ouvindo Deus e sendo fiel a Deus em tudo. E, mesmo assim, como cantava o salmo responsorial, foi torturado. É incompreensível que alguém tenha se dedicado tanto a Deus e tenha como sorte a tortura física e psicológica. Olhamos para Jesus e percebemos que o mesmo aconteceu com ele. São Paulo, na 2ª leitura, descreve a identidade de Jesus como Filho de Deus, mas que viveu como um escravo humano. Qual o motivo? A nossa Salvação. Não compreendemos porquê Deus não reagiu para livrá-lo do sofrimento, mas temos um motivo satisfatório maior que uma teoria sobre a Morte de Jesus: o amor divino para nos salvar.

 

 

3 – Três atitudes para viver bem a Semana Santa

 

A reflexão que fiz tem um objetivo. A Semana Santa não é um tempo para nos dedicarmos a curiosidades sobre Jesus Cristo. Temos o ano inteiro para fazer isso. A Semana Santa é um tempo para ser vivenciado profundamente no Mistério de Deus. Para isso, sugiro três atitudes. A primeira é convencer-se que nas coisas de Deus, que não campo da fé, existe um limite para o humano: é o inexplicável. É preciso crer e acolher; disto nasce a adoração. A segunda atitude é exercitar a oração da contemplação. Contemplar é um exercício religioso que produz uma compreensão sem passar pela mente, sem exigir explicações. O contemplativo, de sua parte, compreende e nem sempre sabe explicar. Por fim, a terceira atitude encontra-se no último verso do salmo responsorial: diante do amor divino é preciso silenciar e agradecer. A Semana Santa é um tempo propício para glorificar a Deus, respeitar Deus, agradecer porque, em seu amor imenso, se fez escravo e servidor para nos salvar. Amém!













sexta-feira, março 26, 2021

FESTA DA ANUNCIAÇÃO DO SENHOR






Hoje, celebramos a Anunciação do Arcanjo Gabriel à Maria. É mais do que um anúncio, celebramos a encarnação de Deus no meio de nós, celebramos a grande intervenção de Deus na história da humanidade, celebramos a nova criação. O novo paraíso de Deus é o ventre de Maria, a nova humanidade nasce no seio de Maria; o novo homem e a nova mulher estão ali na Virgem Maria. Ela, que é a nova mulher, concebe no seu ventre o novo homem, Jesus, Nosso Senhor e Salvador.

O anúncio do anjo hoje é o anúncio da grande boa nova, é o anúncio de grande alegria. Por isso, hoje nós irrompemos toda e qualquer penitência no tempo quaresmal, para celebrarmos, com amor e entusiasmo, a intervenção de Deus em nosso favor. É Deus quem nos liberta, nos salva e nos restaura.

Sei quanta alegria traz para um casal a notícia de que a mulher engravidou, porque ela traz em si uma vida nova, ela traz em si um filho, fruto do amor. O casal gera uma vida e essa vida vai ser alegria para todos.

Que alegria não é hoje para a nossa humanidade essa boa notícia de que o Arcanjo Gabriel traz para nós: “Eis que você Maria vai conceber um filho…”. Não é um filho feito por intervenção humana, não é um filho feito com a participação de José, é um filho que vem por obra e ação do Espírito Santo.

Aqui acontece um dos mistérios mais profundos da bondade de Deus. A divindade se une à nossa humanidade no ventre de Maria para gerar Jesus homem e Deus. Veja que beleza!

Talvez, na nossa concepção ou na nossa lógica humana, não compreendamos tamanho desígnio, ação e graça, mas aqui não é para compreender, é para amar, adorar, é para dobrarmos o joelho quando o Verbo se faz carne, quando a Palavra de Deus se encarna no meio de nós. E Maria é a grande portadora dessa Palavra, é a primeira quem recebe a Palavra eterna de Deus, é Ela quem gera a humanidade de Jesus e nos traz aquele que é Nosso Senhor e Salvador.

Bendito seja Deus! Aquele que criou a natureza humana, Aquele que desce para resgatar a própria natureza corrompida pelo pecado enviando o Seu Filho em carne semelhante à nossa, para que possamos subir até Deus. Ele desce até nós, se torna um de nós.

Hoje, é dia de celebrarmos a vida encarnada, vida salva, vida que nos é resgatada no ventre de Maria. Bendito seja Deus que se encarnou e nos resgatou no ventre de Maria.

 

Deus abençoe você!


Fonte: Canção Nova







segunda-feira, março 22, 2021

V DOMINGO DA QUARESMA









Desde o início desta Quaresma, o tema da Aliança entre Deus e a humanidade sempre esteve presente. Assim, recordamos a aliança entre Deus e Noé, entre Deus e Abraão, a prática da aliança com Deus pela observância dos Mandamentos e, no Domingo passado, a consequência da infidelidade à aliança, com o povo sendo deportado e exilado na Babilônia. Diante deste quadro, Deus toma uma decisão: não escreverá mais a aliança em pedras, mas no coração de cada ser humano. A ideia divina é que a aliança seja vivida como algo natural, na nossa vida cotidiana. Simples assim? Nem tanto! Para isto acontecer, o nosso coração, quer dizer, o centro da nossa vida, o local onde tomamos as decisões, precisa ser habitado pelo Espírito de Deus. E nem sempre é assim. Por isso, temos necessidade de converter-nos e suplicar o perdão de todo pecado, como cantava o salmista. Somos capazes de fidelidade à Aliança se o Espírito de Deus morar em nossos corações e conduzir nossa existência.

 

 

Queremos interceder, nesta celebração, a graça de um coração puro, a graça do perdão dos nossos pecados, a graça de ter a culpa cancelada de nossos corações. Como os gregos, também nós suplicamos a graça de ver Jesus. Não se trata, aqui, da curiosidade de ver uma celebridade, um cantor ou esportista famoso; trata-se de entrar em contato com Jesus e entender que o acolhimento do projeto divino exige de nós a força da fidelidade incondicional. Como refletimos no Domingo passado, a fidelidade ao projeto divino exige a opção fundamental por Jesus Cristo e pelo Evangelho. Isto pode ser simples e fácil até o momento do primeiro desafio. Por isso, Jesus, no Evangelho insiste no seu seguimento, sem nos apegar à nossa vida, quer dizer, aos nossos projetos pessoais. Isto provoca angústia em nossos corações. Também Jesus ficou angustiado, como ouvimos no Evangelho, mas acima de tudo, ele colocou a fidelidade ao projeto do Pai. E isto, dizia a 2ª leitura, foi realizado

 

pela obediência.

 

 

Ser fiel ao projeto divino, viver na fidelidade ao Evangelho, não é coisa simples. Hoje, especialmente na mídia, o Evangelho é simplificado e, não poucas vezes, traduzido em frases de autoajuda. Uma frase bonita, uma canção, um sentimento e uma conclusão precipitada: eu amo Jesus. Tudo bem, não existe pecado neste processo e tem, até mesmo, a sua utilidade. Mas, o verdadeiro amor, que glorifica o Pai, como diz Jesus, acontece pela obediência ao projeto divino, acontece pelo acolhimento da vontade divina em minha vida. E isto, como dizia a 2ª leitura, precisa ser aprendido. Até Jesus precisou aprender a obedecer. Aprender a aceitar o projeto divino em todos os momentos e com todas as consequências. Nos momentos de tranquilidade, nos momentos de dificuldade e nos momentos de provocação. Amém!












sábado, março 20, 2021

MISSA DE SÃO JOSÉ





A Igreja convida-nos, hoje, a voltar-nos para S. José, a alegrar-nos e a bendizermos a Deus pelas graças com que o cumulou. S. José é o "homem justo" (Mt 1, 19). A sua justiça vem-lhe do acolhimento do dom da fé, da retidão interior e do respeito para com Deus e para com os homens, para com a lei e para com os acontecimentos. É o que nos sugere a segunda leitura. Não foi fácil para José aceitar uma paternidade que não era dele e, depois, a responsabilidade de ser o mestre e guia d´Aquele que, um dia, havia de ser o pastor de Israel. Respeito, obediência e humildade estão na base da "justiça" de José. Foi esta atitude interior, no desempenho da sua missão única, que guindaram José ao cume da santidade cristã, junto de Maria, a sua esposa.

 

As atitudes de José são características dos grandes homens, de que nos fala a Bíblia, escolhidos e chamados por Deus para missões importantes. Embora se considerassem pequenos, fracos e indignos, aceitavam e realizavam a missão, confiando n´Aquele que lhes dizia: "Eu estarei contigo".

 

José não procurou os seus interesses e satisfações, mas colocou-se inteiramente aos serviços dos que amava. O seu amor pela esposa, Maria, visava unicamente servir a vocação a ela que fora chamada. Deste modo, o casal chegou a uma união espiritual admirável, donde brotava uma enorme e puríssima alegria. Era a perfeição do amor. O amor de José por Jesus apenas visava servir a vocação de Jesus, a missão de Jesus. Para José, o filho não era uma espécie de propriedade a quem impunha uma autoridade e afeto tirânico, como, por vezes, acontece com alguns pais. José sabia que Jesus não era dele, e nada mais desejava do que prepará-lo, conforme as suas capacidades, para a missão de Salvador, como lhe fora dito pelo Anjo.

 

Por intercessão do nosso santo, peçamos a Deus a fé, a confiança, a docilidade, a generosidade e a pureza do amor para nós mesmos e para quantos têm responsabilidades na Igreja, para que as maravilhas de Deus se realizem também nos nossos dias.











segunda-feira, março 15, 2021

IV DOMINGO DA QUARESMA






DOMINGO LAETARE

14 de março de 2021

 

Paróquia São Conrado




João é o evangelista abismado na contemplação do amor de um Deus que não hesitou em enviar ao mundo o seu Filho, o seu único Filho, para apresentar aos homens uma proposta de felicidade plena, de vida definitiva; e Jesus, o Filho, cumprindo o mandato do Pai, fez da sua vida um dom, até à morte na cruz, para mostrar aos homens o "caminho" da vida eterna... O Evangelho deste domingo convida-nos a contemplar, com João, esta incrível história de amor e a espantar-nos com o peso que nós - seres limitados e finitos, pequenos grãos de pó na imensidão das galáxias - adquirimos nos esquemas, nos projetos e no coração de Deus.

 

O amor de Deus traduz-se na oferta ao homem de vida plena e definitiva. É uma oferta gratuita, incondicional, absoluta, válida para sempre e que não discrimina ninguém. Aos homens - dotados de liberdade e de capacidade de opção - compete decidir se aceitam ou se rejeitam o dom de Deus. Às vezes, os homens acusam Deus pelas guerras, pelas injustiças, pelas arbitrariedades que trazem sofrimento e morte que pintam as paredes do mundo com a cor do desespero... O nosso texto, contudo, é claro: Deus ama o homem e oferece-lhe a vida. O sofrimento e a morte não vêm de Deus, mas são o resultado das escolhas erradas feitas pelo homem que se obstina na autossuficiência e que prescinde dos dons de Deus.

 

Neste texto, João define claramente o caminho que todo o homem deve seguir para chegar à vida eterna: trata-se de "acreditar" em Jesus. "Acreditar" em Jesus não é uma mera adesão intelectual ou teórica a certas verdades da fé; mas é escutar Jesus, acolher a sua mensagem e os seus valores, segui-lo no caminho do amor e da entrega ao Pai e aos irmãos. Passa pelo ser capaz de ultrapassar a indiferença, o comodismo, os projetos pessoais e pelo empenho em concretizar, no dia a dia da vida, os apelos e os desafios de Deus; passa por despir o egoísmo, o orgulho, a autossuficiência, os preconceitos, para realizar gestos concretos de dom, de entrega, de serviço que tragam alegria, vida e esperança aos irmãos que caminham lado a lado conosco. Neste tempo de caminhada para a Páscoa, somos convidados a converter-nos a Jesus e a percorrer o mesmo caminho de amor total que Ele percorreu.

 

Alguns cristãos vivem obcecados e assustados com esse momento final em que Deus vai julgar o homem, depois de pesar na balança as suas ações boas e as suas ações más... João garante-nos que Deus não é um contabilista, a somar os débitos e os créditos do homem para lhes pagar em conformidade... O cristão não vive no medo, pois ele sabe que Deus é esse Pai cheio de amor que oferece a todos os seus filhos a vida eterna. Não é Deus que nos condena; somos nós que escolhemos entre a vida eterna que Deus nos oferece ou a eterna infelicidade.


sábado, março 13, 2021

ANO DE SÃO JOSÉ. O QUE É E O QUE FAZER PARA RECEBER A INDULGÊNCIA PLENÁRIA.




O ANO DE SÃO JOSÉ

13 de março de 2021

 

Paróquia São Conrado




Para celebrar os 150 anos da proclamação de São José como patrono da Igreja, decretada por São Pio X através do Decreto Quemadmodum Deus em 08 de dezembro de 1870, o papa Francisco publicou a Carta Patres Corde (Coração de Pai), determinando a celebração do Ano especial de São José, que irá do dia 08 de dezembro de 2020 até 8 de dezembro de 2021. Você sabe o que é e qual o objetivo dessa celebração?

 

Este ano de São José busca reforçar a confiança dos fiéis naquele que se tornou pai adotivo do Menino-Deus. O exemplo de São José, que plenamente confiou no Senhor e aceitou a missão de criar Jesus, deve nos inspirar, para que possamos nos entregar à vontade de Deus e aos planos d’Ele para nós.

 

O decreto do papa Francisco estende a todo o ano de São José o benefício da indulgência plenária. Para isso, o fiel deve, primeiramente, cumprir uma das condições obrigatórias para obtê-la:

 

confessar-se, para estar livre do pecado;

receber a Sagrada Comunhão;

rezar pelo Santo Padre e pelas suas intenções de oração.

 

Além disso, é preciso cumprir ao menos uma das seguintes obras:

 

meditar durante pelo menos 30 minutos sobre a oração do Pai-Nosso ou fazer um dia de retiro espiritual que inclua ao menos uma meditação sobre São José;

realizar uma obra de misericórdia – seja corporal ou espiritual;

recitar o Sacratíssimo Rosário em família ou entre noivos;

oferecer diariamente o seu trabalho à proteção de São José;

rezar a Ladainha de São José, Akathistos (inteira ou uma parte dela) ou qualquer oração litúrgica em favor da Igreja perseguida interna ou externamente e pelos cristãos perseguidos;

fazer qualquer oração a São José aprovada pela Igreja, como “A te Beate Joseph”, especialmente nos dias 19 de março, 1º de maio, Festa da Sagrada Família, Domingos de São José, no dia 19 de cada mês e às quartas-feira, dia da semana dedicado à memória do santo, segundo o rito latino.

 

Idosos e pessoas enfermas, que não podem sair de casa para cumprir as três condições obrigatórias para indulgência plenária, se tiverem se arrependido de seus pecados e assumido a intenção de cumprir as condições de costume assim que possível, podem rezar a São José pelos doentes e agonizantes, oferecendo a Deus suas próprias dores e sofrimentos.

 

Que São José interceda por todos nós!!!

segunda-feira, março 08, 2021

III DOMINGO DA QUARESMA







Os mandamentos que dizem respeito à relação do homem com Deus sublinham a centralidade que Deus deve assumir no coração e na vida do seu Povo. Na vida de todos os dias somos, com frequência, seduzidos por outros "deuses" - o dinheiro, o poder, os afetos humanos, a realização profissional, o reconhecimento social, os interesses egoístas, as ideologias, os valores da moda - que se tornam o objetivo supremo, no valor último que condiciona os nossos comportamentos, as nossas atitudes e as nossas opções. Com frequência, prescindimos de Deus e instalamo-nos num esquema de orgulho e de autossuficiência que coloca Deus e as suas propostas fora da nossa vida. A Palavra de Deus garante-nos: esse não é um caminho que nos conduza em direção à vida definitiva e à liberdade plena. Neste tempo de Quaresma, somos convidados a voltarmo-nos para Deus e a redescobrirmos o seu papel fundamental na nossa existência... Quais são os "deuses" que nos seduzem mais e que condicionam a nossa vida, as nossas tomadas de posição, as nossas opções? Que espaço é que reservamos, na nossa vida, para o verdadeiro Deus?

Interiorizar a lógica de Deus, que é bem diferente da lógica dos homens. Os homens sentem-se mais seguros e confortáveis diante de líderes vencedores, que se impõem pela força e que exibem o seu poder através de gestos espetaculares; e Deus aparece-lhes na figura de um obscuro carpinteiro galileu, condenado pelas autoridades constituídas, abandonado por amigos e discípulos, escarnecido pelas multidões, e morto numa cruz fora dos muros da cidade. Os homens gostam de ser convencidos por projetos intelectualmente brilhantes, que apresentem argumentos fortes e uma lógica inquestionável; e Deus oferece-lhes um projeto de salvação que passa pela morte na cruz, em plena e radical contradição com todos os esquemas mentais e toda a lógica humana. O apóstolo Paulo sugere-nos uma conversão à lógica de Deus... É preciso que descubramos que a salvação, a vida plena, a felicidade sem fim não estão numa lógica de poder, de autoridade, de riqueza, de importância, mas está no amor total, no dom da vida até às últimas consequências, no serviço simples e humilde aos irmãos.

Como é que podemos encontrar Deus e chegar até Ele? Como podemos perceber as propostas de Deus e descobrir os seus caminhos? O Evangelho deste domingo responde: é olhando para Jesus. Nas palavras e nos gestos de Jesus, Deus revela-Se aos homens e manifesta-lhes o seu amor, oferece aos homens a vida plena, faz-Se companheiro de caminhada dos homens e aponta-lhes caminhos de salvação. Neste tempo de Quaresma - tempo de caminhada para a vida nova do Homem Novo - somos convidados a olhar para Jesus e a descobrir nas suas indicações, no seu anúncio, no seu "Evangelho" essa proposta de vida nova que Deus nos quer apresentar.

Jesus vem mudar a maneira de encontrar Deus seu Pai. Até aqui bastava ir ao templo, doravante é preciso escutar a mensagem de amor do seu Enviado e beneficiar dos seus gestos de salvação, sinais da bondade de Jesus para com os homens. Mesmo que se procure destruir o verdadeiro templo de Deus entre os homens, o seu próprio Filho, Ele levantar-se-á. E quando tiver desaparecido aos olhos dos homens, é a sua Igreja que será o novo templo, porque Deus vem morar no meio dos homens. Se os seus discípulos se recordam das palavras e dos gestos de Jesus, é para fazer memória da fidelidade de Deus. É com os olhos da fé que reconheceram, nos sinais realizados por Jesus, a ação de Deus. E se hoje podemos fazer memória da morte e da ressurreição de Cristo, tal acontece graças a todas estas testemunhas que acreditaram e contaram o que tinham visto e ouvido.










quarta-feira, março 03, 2021

A VITÓRIA DO MEDO...





A VITÓRIA DO MEDO...

3 de março de 2021


Paróquia São Conrado



O Covid pôs a nu o medo da morte que levamos dentro de nós. Não foi o vírus que fechou as escolas, que nos encerrou dentro das nossas casas, que pôs muita gente em home office, que impediu as deslocações entre concelhos, etc. Há outros vírus, mais poderosos ainda, e nunca nenhum deles conseguiu exercer tal poder sobre a humanidade.

 

Quem efetivamente fez tudo isto foi o medo de morrer, levado ao extremo de uma forma ansiosa e irracional, e exposto diariamente naquelas contagens do número de mortos e dos doentes em UCI, que os nossos telejornais nos ofereceram ao desbarato. Somos capazes de saber quem morreu de Covid, mas quantos terão morrido de medo?

 

Se há ensinamento que podemos retirar desta experiência é que temos um medo medonho de morrer. Para garantir a nossa sobrevivência, não só estamos dispostos a deixar ir os anéis, mas parece também que aceitamos sacrificar alguns dedos. Deixamos inclusivamente que nos limitem a liberdade de uma forma inaceitável noutro contexto. Da mesma forma, é o mesmo medo da morte que nos faz andar obcecados com as vacinas, lutando para as ter o mais rápido possível, mesmo que isso possa significar que outros países e regiões se vejam privados delas, porque não podem pagar aquilo que estamos nós dispostos a oferecer.

 

O medo é uma força extremamente poderosa. Quem consegue incutir medo nas pessoas consegue manipulá-las e levá-las a fazer o que elas se recusariam fazer noutras circunstâncias. Quem consegue incutir medo nas populações tem ao seu dispor um verdadeiro exército… de escravos, dispostos a obedecer cegamente. Não tenhamos ilusões: é o medo quem ordena que se levantem muros e barreiras; é o medo quem afasta imigrantes e refugiados; é o medo quem faz a melhor publicidade a sistemas de vide vigilância, alarmes e empresas de segurança.

 

A força do medo é de tal ordem que nos leva a procurar a segurança nas coisas e a acumular bens de forma desproporcional. Na verdade, penso que é o medo que se esconde por detrás daquilo a que chamamos consumismo e que nessa penumbra reina sobre nós. Consumimos desenfreadamente para nos sentirmos mais seguros, açambarcamos bens com a desculpa de estar abastecidos, se eles por algum motivo vierem a faltar. Basta lembrar-se de como, no início da pandemia, o papel higiénico se tornou no produto mais procurado nos nossos supermercados.

 

Por tudo isto, deve fazer-nos pensar que a frase que Jesus mais repete é precisamente “não tenhais medo”. À luz do que acima referi, até parece um insulto ou uma piada de mau gosto. Só nos resta, portanto, reconhecer que se insistirmos em continuar neste trilho, “o nosso mundo avança numa dicotomia sem sentido, pretendendo garantir a estabilidade e a paz com base numa falsa segurança sustentada por uma mentalidade de medo e desconfiança” (FT 26).

 

José Domingos Ferreira, scj

 

 

Fonte: Dehonianos de Portugal


segunda-feira, março 01, 2021

II DOMINGO DA QUARESMA






A prova da fé

 

Depois de Noé, proposto como exemplo de fé (1DTQ-B), a Liturgia propõe o exemplo de fé na provação de Abraão (1L). Noé é apresentado como homem silencioso e Abraão como homem que fala uma palavra: "aqui estou!" (1L). Na sua disposição, e sem saber que estava sendo provado na fé, Abraão acolhe a proposta divina e, de certo modo, Deus acreditou na fidelidade de Abraão.

A prova de fé é comum na Sagrada Escritura. Tem a finalidade de verificar a verdade da fé confiante na pessoa. No caso de Abraão, a prova da fé consiste em saber quem estava no centro da sua vida: Deus ou Isaac? A atitude de Abraão demonstra a prioridade a Deus. A prova de fé sempre acontece em situações extremas da vida; é nos momentos mais extremos, desafiadores, que a pessoa revela onde e em quem deposita sua confiança. É em tais situações, que a pessoa revela o que é essencial na sua vida. Na vida de Abraão, o essencial era Deus.

 

 

Este é o meu Filho: ouvi

 

Na contemplação da cena da Transfiguração de Jesus (E) nos deparamos com uma curiosidade: por que foram escolhidos somente três discípulos e não todos? Os demais não estavam à altura? Aqueles três deveriam assumir alguma função importante depois da morte de Jesus?

Não temos uma resposta conhecida. O que temos é o comportamento atrapalhado e surpreso dos discípulos. Marcos deixa transparecer que não entendiam o que estava acontecendo e, tampouco, como deveriam se comportar. Pedro tenta ensaiar uma proposta: construir três tendas e ficar lá em cima para sempre; transformar o Tabor em céu. Além disso, não compreendiam o significado de ressuscitar dos mortos. É a representação da incompreensão presente no exercício de crer.

Nem tudo é claro na fé. O que ficou claro foi Jesus ter sido apresentado como Filho de Deus pelo próprio Pai. Isto significa "obediente" ao Pai e ao projeto divino. Por isso, Deus o ama como Filho dileto. A tradução brasileira do Lecionário diz que "Jesus se transfigurou diante deles". No original grego, os estudos dizem que está escrito: "Jesus foi transfigurado diante deles". O sujeito é o Pai e Jesus acolhe a transfiguração realizada pelo Pai em seu corpo. Os dois personagens, Moisés e Elias, profetizam a morte de Jesus. Ambos tiveram morte misteriosa, indicativo para compreender a Transfiguração em relação à morte de Jesus que se transforma em Ressurreição, que é a Transfiguração definitiva do Senhor. Isto, os discípulos só compreenderam depois da Ressurreição.

 

 

 

Deus está do nosso lado

 

Diante da fé de Abraão (1L), a fé cantada pelo salmista (SR) favorece uma aproximação na compreensão da 2ª leitura. O salmista diz: "guardei minha fé mesmo dizendo: é demais o sofrimento em minha vida!" Podemos nos remeter a uma pergunta diante do sofrimento extremo: se Deus é bom, por que ele permite o sofrimento? Será que Deus está do nosso lado?

No texto da 2ª leitura, Paulo dá a entender que está tratando — respondendo —um questionamento semelhante: dizemos que Deus é bom, mas constatamos, no tecido da história, que ele não age a nosso favor. Este tempo de pandemia comprova este fato. Será assim mesmo? Paulo responde que não é assim e chama em causa a prova do grande amor divino manifestado no envio do seu Filho amado ao mundo, unicamente por nos amar e manifestar sua bondade imensa. A resposta de Paulo é clara: Deus está do nosso lado e para isso não poupou nem mesmo o seu Filho (2L).