segunda-feira, setembro 14, 2026

XXIV DOMINGO DO TEMPO COMUM













A Liturgia propõe continuar o capítulo de Mt 18 que, como ouvimos, trata do perdão. Na primeira parte deste capítulo de Mt 18, no Domingo passado, ouvimos a importância da correção fraterna no sentido de cuidar para que o outro não perca a vida, mas a viva de modo pleno. O modo de fazer isso fundamenta-se no Mandamento Novo dado por Jesus. Hoje, ouvimos que uma atitude prática e bem concreta se encontra no perdão. Mas, temos uma questão inicial: por que é tão difícil perdoar? Talvez porque toda ferida carregue consigo a memória da dor, da decepção e, em alguns casos, carregue consigo até mesmo uma injustiça sofrida. Muitas vezes acreditamos que perdoar significa esquecer ou minimizar aquilo que aconteceu. Entretanto, o Evangelho nos conduz por outro caminho. Deus conhece profundamente as feridas humanas e sabe que um coração aprisionado pelo ressentimento perde a capacidade de experimentar a liberdade. Quando sofremos algum mal e ficamos ruminando dentro de nós o mal sofrido, então nos tornamos como que algemados pela raiva, pela ira, pela irritação... a ponto de alguns adoecerem por isso. A Liturgia deste Domingo nos convida a entrar na escola da misericórdia. Ali aprendemos que o perdão não nasce da força humana, mas da experiência de ter sido amado por Deus. Quem acolhe a misericórdia divina descobre um novo modo de olhar para si mesmo, para os outros e para a própria história. O perdão torna-se, então, um caminho de cura e de vida nova.

A Palavra de Deus que acabamos de ouvir apresenta um itinerário espiritual que conduz da misericórdia à reconciliação. O livro do Eclesiástico, na 1ª leitura, convidava a abandonar o rancor a ira e a vingança, lembrando que aquele que pede perdão a Deus também é chamado a perdoar. O sábio do Eclesiástico está propondo uma dinâmica terapêutica para viver de modo livre; em vez de ficar remoendo raiva, rancor, ira dentro do coração, ele diz que é melhor abandonar isso. Quem vive remoendo raivas fica doente. Por isso, na escola da misericórdia, se aprende não ruminar raivas, mas a perdoar. Se aprende a ter um coração como é o Coração de Deus, cantado no salmo responsorial: “compassivo e misericordioso, lento para a ira e rico em bondade”. Veja que estou falando de um itinerário espiritual, de um caminho que, pouco a pouco vai modelando nosso coração na compaixão, na misericórdia, no afastamento da ira e no enriquecimento da bondade. Tudo isso faz bem para o coração e para o corpo. Pessoas bondosas e perdoadoras vivem melhor e com poucas doenças. A resposta de Jesus sobre a pergunta de Pedro, no Evangelho, para saber quantas vezes perdoar, rompe toda lógica de cálculo ao responder: “setenta vezes sete”; perdoar sempre. A parábola do servo impiedoso revela que a misericórdia recebida precisa transformar as relações humanas. Deus perdoa para que aprendamos a perdoar. A graça recebida não permanece fechada no coração; ela não é dada somente para mim, em benefício próprio, mas para ser repartida em forma de perdão.

A Liturgia de hoje nos convida a identificar quais feridas ainda governam nosso coração. Perdoar não significa aprovar o mal e nem deixar “para lá” agressividades contra mim, mas impedir que as agressividades contra mim continuem produzindo destruição do coração. Por isso, o primeiro passo do perdão é tirar o inimigo dentro de nós. Não permitir que ele more conosco. Isso acontece, na maior parte das vezes, dando pequenos passos. O primeiro passo do perdão, repito, está em libertar-me do mal que me atingiu. Para isso é importante que eu faça experiência do perdão que eu recebi de Deus. Pode ser que isso demore, o que significa que oferecer o perdão pode demorar pouco tempo ou muitos anos. Perdão não é uma declaração de dizer que está “tudo bem” entre nós, mas é uma libertação que se realiza quando quem me ofendeu é retirado de dentro de mim.

 

Na sua primeira e recente encíclica “Magnifica Humanitas”, Papa Leão XIV considera também a necessidade do perdão social. Inclusive ele pede perdão nas vezes que a Igreja não cuidou e nem se ocupou da vida dos mais pobres, no decorrer da história. É uma encíclica, sobre a IA, que recomendo ler. O Papa recorda que nenhuma sociedade verdadeiramente humana, mesmo contanto com altas tecnologias, como a IA, pode ser construída sem misericórdia e sem a disposição de restaurar vínculos rompidos através do perdão. O perdão cristão revela precisamente essa vocação e missão cristã: tornar visível, nas relações humanas, o amor misericordioso de Deus que tudo renova e reconcilia. O perdão renova a vida pessoal de quem é perdoado e de quem perdoa e renova os relacionamentos sociais. Perdoar é um modo de amar. Amém!