segunda-feira, agosto 24, 2026

XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM










A pergunta de Jesus não nos pede simplesmente nossa opinião, mas nos interpela principalmente sobre a nossa atitude diante dele. E essa atitude não transparece só em nossas palavras, mas sobretudo em nosso seguimento concreto de Jesus. Como escreveu algum teólogo: "A breve proposição: 'eu creio que Jesus é o Filho de Deus' significa algo completamente diferente, se ela é pronunciada por Francisco de Assis ou por um dos atuais ditadores sul-americanos. O Deus desses homens não é o mesmo, ou, pelo menos, o Deus que cada um invoca para dirigir sua conduta".

As palavras de Jesus pedem uma opção radical. Ou Jesus é para nós um personagem a mais, ao lado de muitos outros da história, ou Ele é a Pessoa decisiva que nos traz a compreensão última da existência, a orientação decisiva para a nossa vida e nos oferece a esperança definitiva.

A pergunta "e vós, quem dizeis que Eu sou?" adquire então um conteúdo novo. Não é mais apenas uma questão sobre Jesus, mas sobre nós mesmos. Quem sou eu? Em quem eu creio? A partir de que oriento a minha vida? A que se reduz a minha fé?

Todos temos de lembrar sempre de novo que a fé não se identifica com as fórmulas que pronunciamos. Para compreender melhor o alcance "do que eu creio", é necessário verificar como vivo, a que aspiro, em que me comprometo.

Por isso, a pergunta de Jesus, mais do que um exame sobre nossa ortodoxia, deveria ser um apelo a um modo de vida cristão. Não se trata evidentemente de dizer ou crer qualquer coisa sobre Cristo. Mas também não de fazer solenes profissões de fé ortodoxa, para viver depois muito longe do espírito que essa mesma proclamação de fé exige e traz consigo.

 

ADESÃO VIVA A JESUS CRISTO

Não é fácil tentar responder com sinceridade a pergunta de Jesus: "E vós, quem dizeis que Eu sou?" Na verdade, quem é Jesus para nós? Sua pessoa nos chega através de vinte séculos de imagens, fórmulas, devoções, experiências, interpretações culturais... que vão desvelando e velando ao mesmo tempo sua riqueza insondável.

Mas, além disso, vamos revestindo Jesus do que somos cada um de nós. E projetamos nele nossos desejos, aspirações, interesses e limitações. E, quase sem dar-nos conta, o diminuímos e desfiguramos, inclusive quando tratamos de exaltá-lo.

Mas Jesus continua vivo. Nós cristãos não pudemos dissecá-lo com nossa mediocridade. Ele não permite que o disfarcemos. Não se deixa etiquetar nem reduzir a uns ritos, fórmulas ou costumes.

Jesus sempre desconcerta quem se aproxima dele com postura aberta e sincera. Sempre é diferente do que esperávamos. Sempre abre novas brechas em nossa vida, rompe nossos esquemas e nos atrai para uma vida nova. Quanto mais o conhecemos, mais sabemos que ainda estamos começando a descobri-lo.

Jesus é perigoso. Percebemos nele uma entrega aos seres humanos que desmascara nosso egoísmo. Uma paixão pela justiça sacode nossas seguranças, privilégios e egoísmos. Uma ternura que deixa a descoberto nossa mesquinhez. Uma liberdade que rompe nossas mil escravidões e sujeições.

E, sobretudo, intuímos nele um mistério de abertura e de proximidade a Deus que nos atrai e convida a também abrir nossa existência ao Pai. Vamos conhecendo a Jesus, na medida em que nos entregamos a Ele. Só há um caminho para aprofundar-nos em seu mistério: segui-lo.

Seguir humildemente seus passos, abrir-nos com Ele ao Pai, reproduzir seus gestos de amor e ternura, olhar a vida com seus olhos, compartilhar seu destino doloroso, esperar sua ressurreição. E, sem dúvida, rezar muitas vezes do fundo do coração: "Creio, Senhor, mas ajuda à minha incredulidade".










terça-feira, agosto 18, 2026

SOLENIDADE DA ASSUNÇÃO DE MARIA






Imaginemos a cena: uma jovem de Nazaré, recém-visitada pelo Anjo, acaba de receber em seu seio virginal o Verbo Eterno. Poderia ter ficado em casa, guardando para si o segredo divino. Poderia ter-se recolhido, esperando que os meses passassem em silêncio. Mas não. O Evangelho nos diz que Maria partiu apressadamente para a região montanhosa da Judeia. Levava consigo o próprio Deus; por isso não podia demorar-se.

Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. Bastou aquela saudação, aquela voz portadora do Verbo, para que tudo se transfigurasse. O menino João, ainda no ventre materno, reconheceu a presença do seu Senhor e saltou de alegria. Isabel, cheia do Espírito Santo, proclamou a primeira bem-aventurança mariana da história: “Bendita és tu entre as mulheres”. Toda a criação se punha em júbilo diante da Mãe de Deus. Maria, humilde serva, tornara-se arca viva da Nova Aliança.

A antiga Arca foi levada por Davi para a montanha de Sião. A nova Arca sobe apressadamente à montanha da Judeia, levando em si o Rei dos reis. Davi dançou diante da Arca; João Batista saltou diante de Maria. A antiga Arca permaneceu três meses na casa de Obed-Edom; Maria ficou três meses na casa de Isabel. Tudo se cumpre, tudo se eleva, tudo se transfigura. A tipologia é perfeita. Deus preparou desde sempre esta Mulher bendita para ser o sacrário vivo de sua presença.

Por isso a Igreja, fiel à Tradição apostólica e guiada pelo Espírito Santo, proclama o dogma da Assunção. Maria, preservada do pecado original, não conheceu a corrupção do túmulo. Seu corpo virginal, que gerara o Corpo de Cristo, foi elevado à glória celeste. Como ensina o Catecismo, “a Imaculada, preservada imune de toda mancha da culpa original, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”. O que Cristo prometeu a todos os justos na ressurreição final, antecipou-o em sua Mãe Santíssima.

Santo Agostinho dizia que Maria concebeu Cristo primeiro na fé, depois no ventre. A Assunção é o coroamento dessa fé. Isabel proclamou: “Bem-aventurada aquela que acreditou”. Maria acreditou até o fim, até o Calvário, até o Cenáculo. Por isso foi glorificada até o fim, até o trono celeste, até a coroa de doze estrelas. A humildade que a fez serva mereceu-lhe a exaltação que a fez Rainha.

Amados, esta solenidade não é apenas festa de Maria. É festa de nossa esperança. Vendo a Mãe coroada no céu, sabemos que nosso destino não é o pó, mas a glória. Maria assunta é primicia  e penhor da ressurreição que nos aguarda. São Paulo ensina que Cristo é a primicia dos que dormem; Maria é a primeira dos redimidos a participar plenamente do triunfo pascal. O que nela se cumpriu antecipadamente, cumprir-se-á em todos os que perseveram na graça.

Como vivemos esta verdade no dia a dia? Imitando a pressa de Maria. Ela correu à montanha porque levava Cristo; nós também devemos correr, porque o recebemos na Eucaristia. Cada comunhão bem feita é um novo Magnificat:  Cristo habita em nós, e por Ele nossa alma engrandece o Senhor. Não podemos guardar a graça para nós mesmos. É preciso visitar, servir, consolar, santificar. Maria não pregou; bastou sua presença para santificar João Batista. Nossa presença cristã, se formos fiéis, também santificará o mundo.

Olhemos para o céu onde Maria reina. Ela intercede por nós, seus filhos. Combate o dragão infernal que quer devorar nossa alma. Prepara-nos um lugar no deserto deste mundo, onde possamos perseverar até o fim. Corramos, portanto, com pressa santa, levando Cristo aos irmãos. Guardemos a pureza do corpo e da alma, pois somos templos do Espírito Santo. Um dia, se formos fiéis, seremos também glorificados em corpo e alma, conforme a promessa. Maria Santíssima, Rainha assumpta ao céu, rogai por nós.














terça-feira, agosto 11, 2026

JUBILEU SACERDOTAL PADRE MARCOS











Um padre é um homem de Deus

Ele segue o caminho do Senhor Jesus e vive sua vida para o bem do Reino. Ele vê as coisas como Jesus as vê: é alguém que pensa antes de falar e que ora antes de pensar. Fala com o coração e coloca as suas palavras em prática. Ele é um homem para os outros, alguém que tenta servir ao invés de ser servido. Trata a todos como um irmão ou irmã. Ele é amigo dos pobres e marginalizados. Ele os procura e busca efetivamente o seu bem-estar.

 

Um padre defende o que é certo

Ele diz a verdade. Incentiva outras pessoas a fazer o mesmo. Celebra os sacramentos com dignidade simples. Batiza "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo". Ele é chamado ao sacrifício e a oferecer sacrifício. Celebra a Eucaristia e convida outras pessoas a participarem do Corpo e Sangue de Jesus, ora pela comunidade e em nome dela.

Com os braços estendidos em oração, ele deseja abraçar o mundo inteiro e seu pequeno rebanho. É testemunha de Cristo na vida e na morte. Ele vê além das dimensões atuais de tempo e espaço. Ele anseia pela vinda do Reino e a busca tanto em seu coração quanto em sua vida.

 

Um padre celebra a vida

E também celebra a morte. Ele percebe a morte no meio da vida e a vida no meio da morte. Ajuda os outros a celebrar a vida e a chorar. Ajuda as pessoas a sofrerem com a perda daqueles a quem amam e a viver na esperança de vê-los novamente algum dia. Ele sabe quando ouvir, quando oferecer uma palavra de conforto e quando simplesmente sentar e ficar em silêncio ao lado de quem sofre.

Ele não tem medo de inclinar a cabeça, derramar uma lágrima ou segurar a mão de alguém em oração. Ele também não tem medo de sorrir, rir ou aliviar o coração das pessoas. Ele acredita que o amor é mais forte que a morte e que o amor é a única razão pela qual vale a pena viver. Ele é um homem de fé, um homem de esperança, um homem de amor, um homem de alegria.

 

Um padre é humano

Ele peca. Sabe o que significa ficar sozinho. O pecado e a solidão o humilham e o encorajam. Eles o pesam, mas o desafiam. Eles o fazem fraco, mas também forte. Eles o ajudam a sentir a dor dos outros e sofrem com eles em suas provações diárias. Eles o colocam de joelhos e à conversão do coração.

Confessa seus pecados e recebe o perdão de Deus, faz amizade com sua solidão e descobre a solidão do coração. Ele pede perdão, aprende a aceitá-lo e também como estendê-lo aos outros. Ele se faz amigo das pessoas, permite que outras pessoas sejam amigas e com elas constrói a família de Deus. É uma presença convidativa e acolhedora. Com ele, sempre há um assento extra à mesa do Senhor.

 

Um padre é um homem do povo

Ele vem deles e retorna a eles. Escuta suas histórias. Medita sobre elas. Os ajuda a encontrar a voz de Deus e a descobrir o significado de sua vida, mostrando-lhes como reconhecer a mão de Deus em tudo o que acontece. Viaja com eles pela vida, lembrando-os de suas origens e seu destino em Deus, ensina-os a orar e a ouvir.

Ele compartilha sua vida com eles e permite que eles compartilhem suas vidas com ele. Ele compartilha sua vida com eles. Busca fazer parte de sua história e os convida a se tornar parte da sua. Ama a sua companhia. Reconhece seus dons e os incentiva a se colocarem no serviço de outras pessoas. Ele vive para servir os outros e oferecer sua vida por eles.

 

Um padre é um homem de Cristo

Ele é pai, professor, médico e líder. Usa seus talentos para o bem das pessoas. Ele busca não chamar a atenção para si mesmo, mas para Deus: é um apóstolo, um discípulo, um seguidor de Cristo. A cruz é seu símbolo; a tumba vazia, sua esperança; a igreja, sua casa; o povo de Deus, sua família.

É o sal da terra. Dá sabor à vida das pessoas e sabores aos momentos que a preenchem. Ele é amigo deles e amigo de Deus, vive o evangelho e está disposto a morrer por ele. Para ele existe apenas Cristo. Nada mais importa. Nada mais o preocupa.

Ele é um sacerdote, um homem de Deus, um amigo dos pobres, uma pessoa em quem confiar e contar, um outro Cristo. Quer amar e ser amado. Ele está disposto a deixar sua vida por seus amigos. Ele é um sacerdote, um homem de Deus e segue o caminho do Senhor Jesus.

 

 

Fonte: Portal A 12

























segunda-feira, agosto 10, 2026

XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM










A noite cai sobre o mar da Galileia. Os discípulos remam contra o vento, longe da terra firme. Jesus os enviara para o outro lado enquanto Ele subia ao monte para orar. Agora estão sós, na escuridão, com as ondas fustigando a barca. A situação se agrava a cada momento. O vento não cessa, os braços cansam, o medo começa a roer o coração.

Pelas três horas da madrugada, quando a noite é mais densa e o cansaço mais pesado, eis que uma figura se aproxima caminhando sobre as águas. Os discípulos não reconhecem o Mestre. Gritam de pavor. Pensam ver um fantasma. A tribulação lhes turvou os olhos da alma. Fixemos bem esta imagem: os Apóstolos, chamados pessoalmente por Cristo, alimentados há pouco pelo pão multiplicado, agora trêmulos de medo diante d'Aquele que os ama.

 

A palavra que acalma o terror

Jesus fala: "Sou eu". No original grego, Ele diz "Ego eimi", o mesmo nome divino que Deus revelou a Moisés na sarça ardente. Cristo não vem apenas como Mestre ou profeta. Vem como o próprio Senhor que domina os elementos, que pisa sobre o mar como sobre terreno seco. São João Crisóstomo nos ensina que Jesus permitiu a tempestade para manifestar sua divindade de modo ainda mais glorioso.

Pedro, com aquele impulso que lhe era característico, pede para ir ao encontro do Senhor. Jesus responde com uma única palavra: "Vem". Pedro desce da barca e realiza o impossível. Caminha sobre a água. A fé o sustenta acima do abismo. Mas então o vento sopra forte, Pedro sente o vendaval, tira os olhos de Cristo e fixa-os na tempestade. Nesse instante, afunda.

Aqui está a lição capital que os Padres da Igreja repetem através dos séculos. A fé nos faz caminhar sobre as águas desta vida. Enquanto mantemos o olhar fixo em Cristo, o impossível se torna possível. A graça nos eleva acima da nossa fraqueza natural. Mas basta desviar os olhos, basta fixar-se nas circunstâncias adversas, no vento contrário, nas ondas ameaçadoras, para que comecemos a submergir. São Bernardo de Claraval dizia que a fé vacila não quando Deus muda, mas quando nós deixamos de olhar para Ele.

Jesus estende a mão imediatamente. Não espera que Pedro se afogue. Não pronuncia uma longa repreensão. Salva primeiro, depois instrui. "Homem fraco na fé, por que duvidaste?" A pergunta não é retórica. É pedagógica. O Senhor quer que Pedro entenda a causa da queda: a dúvida. Não a dúvida intelectual, mas a dúvida do coração que se divide entre Cristo e o mundo, entre a confiança e o medo.

Irmãos, esta cena se repete todos os dias em nossa vida. A barca é a Igreja, mas é também nossa alma. O vento contrário sopra sempre: tentações, provações, perseguições, doenças, fracassos, incompreensões. Há momentos em que remamos na escuridão e Cristo parece ausente. Ele está no monte, em oração, mas nós não O vemos.

É precisamente nessas horas que devemos lembrar: Cristo virá. Talvez às três da manhã, na hora mais escura, mas virá. Caminhará sobre aquilo que nos amedronta. Dirá ao nosso coração apavorado: "Coragem! Sou eu. Não tenhais medo". A questão é: reconheceremos sua voz? Ou O confundiremos com um fantasma, com uma ilusão, porque nossa fé está enfraquecida?

A aplicação prática é clara. No trabalho, quando tudo parece desmoronar, não tiremos os olhos de Cristo. Na família, quando os conflitos rugem como tempestade, mantenhamos o olhar fixo n'Ele. Na doença, na solidão, na tentação contra a pureza ou contra a caridade, olhemos para Jesus. Invoquemos seu nome. Ele estenderá a mão. Sempre. A Confissão é esta mão estendida. A Eucaristia é esta mão estendida. A oração confiante é o grito "Senhor, salva-me" que nunca fica sem resposta. Andemos sobre as águas da graça, não afundemos nas águas do pecado e do desespero. Jesus, eu confio em Vós.


segunda-feira, agosto 03, 2026

XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM







Deve-se notar alguns aspectos importantes nesse episódio: o limite humano de Jesus, perturbado pela morte de João Batista; o limite das multidões, que se deslocam das suas cidades e passam o dia com Jesus, revelando fome e cansaço; e o limite dos discípulos, que, pela falta de fé, interpelam Jesus para que deixe-as ir. Contudo, é exatamente diante dessas limitações que a potência de Deus se manifesta de forma favorável e generosa. Há apenas cinco pães e dois peixes, mas Jesus está com eles. Nada mais importa. A limitação de espaço, de tempo e de comida não é um problema, porque é precisamente esses limites que permitem a ação de Deus acontecer através de Jesus. Ao se colocar, nas mãos de Jesus, a matéria disponível, a solução de fé acontece. Do lugar deserto se passa ao local com muita grama. Do olhar voltado para a terra se passa para o céu. Das mãos dos discípulos, os cinco pães e os dois peixes passam para as mãos de Jesus e são abençoados. Das mãos de Jesus os pães passam novamente para as mãos dos discípulos, que os distribuem às multidões. Assim, o que antes eram limitações se convergem no mistério profundo que reside em Jesus, tornando-se uma fonte inesgotável de bem, de paz, de curas e de saciedade, ao ponto de os pedaços que sobraram encherem doze cestos. Nada que vem de Deus deve ser desperdiçado. Além disso os cestos, na verdade, são uma referência ao íntimo dos discípulos transformado, pois também passaram da incredulidade à fé. O episódio quer recordar que Jesus Cristo é a realidade que permite ao fiel enfrentar os próprios limites, olhar para estes com confiança, sabendo que só Jesus pode transformar o nosso pouco em muito para que todos sejam saciados.

Estamos diante de indicações que permitem colher o sentido positivo do empenho e da ação cristã no mundo. Se, por um lado, o fiel deve reconhecer os seus limites, por outro lado, é chamado a colocar em Deus a sua fé, pela qual supera todo estado de necessidades. Há realidades que o fiel sozinho não supera, mas é possível com Jesus Cristo. Todas as vezes que nos encontramos diante de limites, e o maior de todos é a morte, mas os aceitamos, abraçamos, reconhecemos e os apresentamos a Deus, por Jesus Cristo, tornam-se a matéria do prodígio. Todas as vezes que agimos com generosidade, partilhando os próprios dons diante dos nossos limites, oferecendo e se dando, do pouco que se tem e do pouco que se é, Deus age em nossa existência e faz a sua graça superabundar na realidade.

Se nos dispusermos a seguir Jesus pelo deserto da nossa existência e se confiarmos em sua proposta restauradora, presente na sua Boa Nova, nós assistiremos ao prodígio que ele nos ensina a fazer: Não foi ele quem multiplicou os pães e os peixes, pois, apenas passados por suas mãos e feita a ação de graças a Deus, foram novamente entregues aos discípulos. O prodígio ocorreu no momento em que os discípulos começaram a distribuir os pães à multidão que estava assentada não no deserto, mas na grama. A sentença de Gn 3,18-19 foi revertida por Jesus para a humanidade. Assim, somos nós que devemos nos deixar guiar pela proposta renovadora de Jesus; então veremos o prodígio: a mudança de mentalidade e de comportamento em cada um de nós, que faz nascer um mundo belo e querido por Deus. Um mundo não mais marcado por raciocínios mesquinhos, como propuseram os discípulos, mas um mundo onde a compaixão encontra o seu devido lugar em nossas mentes e em nossos corações. A lógica humana é revertida. Se não desperdiçássemos tantos bens (alimentos, água, energia, roupas, etc.), não haveria tanta miséria no mundo.






segunda-feira, julho 13, 2026

XV DOMINGO DO TEMPO COMUM

 







Vou iniciar minha reflexão com a mesma pergunta que os discípulos fizeram a Jesus: “por que falas ao povo em parábolas? A justificativa de Jesus é bem interessante e se concentra no início da sua resposta: “porque a vós foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos céus, mas a eles não é dado.” Quem conhece os mistérios do Reino? Aqueles que se tornam discípulos de Jesus. Mas, prestemos atenção. Jesus não compreende o discipulado como uma sala de aula, na qual um Mestre ensina e um grupo de pessoas aprende. A compreensão dos Mistérios do Reino acontece pelo seguimento de Jesus, pelo ACOLHIMENTO da sua mentalidade de vida, pelo modo como ele entende o que é a vida humana. Quem apenas acha bonito a parábola do semeador (e todas as demais parábolas de Jesus) faz parte daquele grupo de pessoas “do povo que se tornou insensível.” Ouvem, mas não compreendem com o coração. Quer dizer, não colocam a Palavra no centro de suas vidas. Para compreendermos a parábola do semeador é preciso ter uma atitude de acolhimento. Assim como o coração da terra é preparado para acolher a semente, assim é necessário que o coração esteja preparado para acolher a Palavra que irá iluminar a compreensão da vida.

Jesus fala do poder da Palavra comparando à uma semente, que é frágil, pequena e necessitada de ser cultivada. Onde se encontra, pois, a força da semente? Naquilo que ela contém dentro de si: ela contém um projeto de vida que produz ainda mais vida em forma de flores e frutos. A Palavra de Deus é uma semente que contém uma vida — a vida divina — que, sendo acolhida no terreno do coração produzirá flores e frutos do Reino de Deus, que são os valores da vida cristã. Isaias, na 1ª leitura, compara a Palavra com a chuva, dizendo que a chuva tem uma força de fecundar a terra para que nela produza frutos. Os símbolos são diferentes, mas a mensagem é a mesma: a Palavra é uma semente que contém dentro dela a vida divina; a Palavra é uma chuva que contém a vida divina. Interessante perceber, na parábola de Jesus, a prodigalidade do semeador: semeia em todas as partes, no chão duro, na beira do caminho e até sobre pedras. A chuva também cai no chão duro e sobre as pedras. São terrenos impróprios para o cultivo e precisam ser preparados. A este ponto da minha reflexão, convido cada um de nós a olhar para dentro de si e considerar se o meu coração — se a minha vida interior — está preparado e em condições de acolher a semente da Palavra de Deus.

 

Outro detalhe da parábola são as dificuldades. Jesus apresenta alguns obstáculos que impedem o acolhimento da Palavra: a superficialidade no modo de viver (vive de qualquer jeito), resistências com relação à Igreja, preocupações excessivas (ansiedades, medos, fobias...), dispersão pela perda de tempo (celular, TV, lazer...) são exemplos dados por Jesus que continuam impedindo o acolhimento da Palavra. Se a pessoa não é capaz de olhar para si mesma, olhar para seu modo de viver, nunca terá condição de crescer espiritualmente porque, como dizia Jesus no Evangelho, são pessoas insensíveis para com as coisas de Deus. O contrário disso é o coração acolhedor que escuta e compreende a Palavra não somente como explicações, mas compreende a Palavra a partir dos frutos que a Palavra produz em sua vida: paz interior, calma, paciência, serenidade... e dos frutos que produz na comunidade com relacionamentos fraternos, com a disposição de atuar em atividades pastorais da comunidade. Os frutos da Palavra não se medem pelo tanto de Teologia que se conhece, mas pelos frutos que produz dentro de si e nos relacionamentos com as pessoas. A vida cristã, na parábola de Jesus e na profecia de Isaías, nunca é vida parada, é sempre vida que produz flores e frutos do Reino de Deus. 

segunda-feira, julho 06, 2026

XIV DOMINGO DO TEMPO COMUM








Não se trata de umas ideias melosas, sentimentais! Não! Quando o Senhor nos convida a encontrar descanso Nele, está nos chamando à conversão à Sua Pessoa, a confiar Nele e a Ele entregar a nossa vida. Por isso mesmo, afirma: “Escondeste, Pai, estas coisas aos sábios e entendidos”, isto é, aos autossuficientes, ao que pensam que se bastam e podem fazer do seu jeito, vivendo a vida como se Deus não existisse, como se de Deus não precisassem!

Os “pequeninos” que aceitam Jesus e correm para repousar no Seu Coração são aqueles que desejam romper com a situação de pecado, vivendo a vida nova de filhos de Deus no Filho Jesus! Desses, São Paulo afirma na Segunda Leitura: “Vós não viveis segundo a carne, mas segundo o Espírito”, pois tendes o Espírito Santo de Jesus! E vede, Irmãos meus, a sentença clara do Apóstolo: “Se alguém não tem o Espírito de Cristo – isto é, não vive segundo o Santo Espírito de Cristo, deixando-se por Ele guiar – não pertence a Cristo!”

Portanto, nada de sentimentalismo meloso, nada de uma misericórdia desfibrada, descomprometida com a conversão: “Temos uma dívida não para com a carne – isto é, o pecado, o espírito do mundo, o viver segundo a nossa lógica -, para vivermos segundo a carne. Pois, se viverdes segundo a carne morrereis, mas se, pelo Espírito, matardes o procedimento carnal, então vivereis” a Vida nova no regaço do Coração do Rei manso e humilde!

Queridos Irmãos, vamos a Jesus que veio a nós como Rei pacífico! Que seja Ele o nosso Mestre, que seja o Seu Evangelho a nossa luz, que seja o Seu caminho a nossa verdade! Não podemos tranquilamente os dizer cristãos vivendo segundo uma mentalidade mundana ou mesmo vivendo segundo a nossa lógica! Ser discípulo do Senhor, ir até Ele, que nos convida “Vinda a Mim!”, exige – exigirá sempre! – o trabalhoso e constante processo de conversão!

Seria uma triste engano, seria uma mentira pensar que alguém pode ser cristão desrespeitando os preceitos do Senhor, vivendo de modo contrário a norma recebida Daquele que é manso e humilde de Coração. Duvidais disto? Então ouvi: “Se Me amais, observareis Meus mandamentos! Se alguém Me ama, guardará Minha palavra e Meu Pai o amará e a ele viremos e Nele estabeleceremos morada!” (Jo14,15.23) Que fique claro: não é qualquer amor que é cristão, não é uma conversa mole de uma amor qualquer que nos faz discípulos de Cristo! Amor verdadeiramente cristão, que nos une ao Senhor e aos irmãos, é aquele que brota do amor ao Cristo Jesus e do compromisso com Seus preceitos! Isto é viver segundo o Espírito, isto é estar aberto para o Senhor, isto é correr a corrida da vida para repousar no Seu Coração!