Na
verdade, há uma só bem-aventurança; as outras nada mais são que ressonância,
eco dessa única: “Bem-aventurados os pobres!” Deles – e só deles – é o Reino
dos céus! Compreendamos o que Jesus quis dizer! Na Bíblia, pobre é todo aquele
que se encontra numa situação de penúria, de impotência, de angústia e
incapacidade. Pobre é quem se sente pequeno diante dos desafios da existência.
Pobre é quem não tem o suficiente para viver, não tem casa, não tem comida, não
tem trabalhos; pobre é quem não tem saúde; pobre é o humilhado, pobre é o
aidético, pobre é o canceroso, pobre é o discriminado; é o frágil psíquica ou
fisicamente… Pobre é quem não tem voz, não tem vez, não tem sua dignidade
respeitada! Pobre é o solitário, o não amado, o deprimido… Todos esses são os
pobres da Bíblia
Mas,
por que Jesus os considera bem-aventurados? Por um motivo só: porque, do fundo
de sua miséria, eles têm mais facilidade de perceber realmente o que nós somos
e o que a vida é. Somos todos pobres e dependentes, somos frágeis e a vida, sem
Deus, nos traga como uma onda gigante e impiedosa! O pobre, porque já não tem
quem o possa socorrer, levanta os olhos para o céu e reconhece o amor terno e
presente de Deus. Por isso ele é feliz: porque descobriu que somos todos
pequeninos e amados por Deus. Infelizmente, somos cegos, enganamo-nos
facilmente, e quando estamos bem, achamos que somos os donos de nossa vida,
tendemos a colocar a confiança nas coisas, nas pessoas, no prestígio e em
tantas outras escoras… E, assim, vivemos na ilusão da autossuficiência e não
nos abrimos de verdade para Deus. O pobre, por não ter ninguém por ele, reza
com toda a verdade e, de verdade, faz de Deus o seu protetor, seu amparo, seu
refúgio! É por isso que nas Bem-aventuranças segundo Lucas, Jesus completa
quadro dizendo: Aí de vós ricos, ai de vós que estais saciados, ai de vós que
agora rides, etc. Não é um mal ter dinheiro, não é um mal – estar contente, não
é um mal ser querido… mas, o Senhor nos alerta aqui para um perigo: no nosso
contentamento, esquecer que tudo passa, esquecer que nossa verdadeira riqueza,
nossa alegria que não passa é Deus e o seu Reino! Olhemos em torno de nós e
veremos o quanto isso é real! Por que são os pobres os que mais procuram a Deus
e são mais generosos para com ele? Porque, não tendo a quem recorrer, percebem
que somente Deus é sua valia e sua riqueza. Quanto aos ricos, têm sua poupança,
seu plano de saúde, seu prestígio, seus amigos… e confia neles… muitas vezes
mais que no próprio Deus! Por que nos países ricos a religião está sendo
abandonada? Não é porque as pessoas são alfabetizadas, como se religião fosse
para ignorantes! É porque, do alto de sua fartura, elas se tornam satisfeitas
consigo mesmas, autossuficientes achando-se seu próprio Deus. Recordemos o que
diz São Paulo na segunda leitura de hoje: “Considerai, irmãos, como fostes
chamados por Deus. Pois entre vós não há muitos sábios de sabedoria humana nem
muitos poderosos nem muitos nobres. Na verdade, Deus escolheu o que o mundo
considera como estúpido, para assim confundir os sábios; Deus escolheu o que o
mundo considera como fraco, para assim confundir o que é forte!”
Meus
caros, estejamos atentos à advertência de Jesus! A verdade é que somente quem é
pobre de verdade aceita que Deus é sua riqueza e seu tudo. Cada um de nós e a
Igreja inteira, somos todos chamados a pensar nas palavras do Senhor!
Terminemos com as palavras do Profeta Sofonias: “buscai o Senhor, humildes da
terra, que pondes em prática seus preceitos. Deixarei entre vós um punhado de
homens humildes e pobres. E no nome do Senhor porá sua esperança o resto de
Israel! Eles serão apascentados e repousarão, e ninguém os molestará!” Que o
Senhor nos conceda a graça de estar entre esses pobres que vão colocando
somente nele a sua esperança!






