Quero
reforçar, como tenho feito nas duas primeiras pregações quaresmais, da
Quarta-feira de Cinzas e no Domingo passado, que a Quaresma é tempo de
conversão. Todos os tempos e a todo tempo serve para a conversão. Mas, a
proposta da Quaresma é propor de modo mais intenso a reflexão e a necessidade
da conversão pessoal. A vocação de Abraão, que ouvimos na 1ª leitura, diz que a
conversão nos coloca em movimento, nos desloca de uma terra, de um modo de
viver e nos faz caminhar. A pessoa que entra em processo de conversão é uma
pessoa que sai de um jeito de viver para viver de outro modo. Converter-se é
realizar uma passagem que acontece mediante a confiança em Deus, como cantava o
salmista: “no Senhor nós esperamos e confiamos porque ele é nosso auxílio e proteção.”
Considerando a 1ª leitura, no exemplo de Abraão, entendemos que a conversão é o
resultado de um ato de obediência e de total confiança em Deus. Só existe
conversão sincera em quem confia em Deus e é capaz de deixar um modo de viver e
de pensar para viver com a mentalidade do Evangelho. Isso, comparando com
Abraão, é sair de uma terra e migrar para a terra do Evangelho.
Considerar
a conversão a partir da atitude de Abraão, que deixa tudo e parte, faz
compreender que a conversão exige esforço; muito esforço. O esforço de
caminhar, o cansaço de continuamente não ceder às tentações, como refletimos no
Domingo passado, a renovação da confiança em Deus para se manter na fidelidade
diante de todos que pensam diferente... Tudo isso exige esforço. Diante de tais
situações, continua válido o incentivo do salmista: “reta é Palavra do Senhor e
tudo que ele faz merece fé.” Como você percebe a conversão não é uma empreitada
fácil porque nós, seres humanos, convivemos com a tentação da dúvida. Aqui
entramos no Evangelho da Transfiguração. Jesus sabia que os Apóstolos seriam
tomados pela dúvida ao verem crucificado. Sabia que, mesmo tendo visto todos os
milagres e ouvido todas as pregações, a Cruz seria um escândalo, quer dizer uma
pedra de tropeço. Iriam ficar balançados, em dúvida, diante da Cruz. Nós somos
assim; assim é a nossa natureza, sempre tentada a duvidar. Por isso, como cantava
o salmista, como proposto na 1ª leitura, existe a necessidade da fé e da
confiança para acolher a vontade divina, mesmo diante do escândalo da Cruz.
Como
eu dizia, Jesus sabia que os Apóstolos ficariam balançados, colocariam dúvidas
sobre sua natureza divina diante do espetáculo terrível e escandaloso da Cruz.
Para fortalece-los, Jesus convida Pedro, Tiago e João para uma experiência de
imersão na glória da luz divina que, nós humanos, só conseguimos através da
contemplação. Antes da Cruz, Jesus “foi transfigurado diante deles”, como diz o
Evangelho que ouvimos. Mostrou a eles a natureza da glória divina que habita
nele. Criou neles uma memória espiritual. Levou os discípulos a uma “alta
montanha”, como destacava Mateus no Evangelho, para colocar nos seus corações a
lembrança de uma profunda experiência da glória de Deus através da
contemplação. Por que fez isso? Para que eles não se deixassem levar pela
imagem humana de Jesus desfigurada na Cruz. A conversão acontece meditando e
recordando experiências da graça de Deus em nossas vidas. Diante das cruzes
que, inevitavelmente, acontecem em nossas vidas, a conversão cresce em nós
quando somos capazes de recordar experiências da luz divina que foram acesas em
nossas vidas e nos sustentam na fidelidade de sempre fazer a vontade divina,
mesmo quando não compreendemos a Cruz. Amém!














