O
Evangelho nos coloca diante de uma cena tensa e reveladora. Sacerdotes e
levitas vêm de Jerusalém para interrogar João Batista. Eles não buscam a
verdade: querem controle. Eles perguntam quem João é, porque precisam
encaixá-lo em categorias conhecidas. Contudo, João não aceita rótulos fáceis.
Ele não se promove nem se confunde com a missão. João começa dizendo o que não
é, porque só quem sabe quem não é consegue apontar com clareza para quem
realmente importa.
Em
seguida, João recusa os títulos que o povo espera, não é o Messias e tampouco é
Elias. João Batista não é o Profeta, e aqui aparece uma lição espiritual
profunda. Enquanto muitos constroem a própria identidade a partir da aparência,
do cargo ou do aplauso, João constrói a sua identidade a partir da verdade. Ele
não se apropria do que não lhe pertence e não ocupa o lugar de Deus. Ele sabe
que a missão não é palco, é serviço.
Depois
disso, João finalmente se define. Ele diz ser apenas uma voz. Não a Palavra,
mas a voz, nem a luz, mas o eco. Tampouco é o centro, mas o caminho. Essa
imagem carrega uma força enorme. A voz existe para desaparecer depois que a
Palavra chega. Assim, João ensina que toda vocação cristã verdadeira aponta
para além de si mesma. Quando alguém retém a atenção em si, algo já saiu do
eixo. Quando alguém conduz ao encontro com Cristo, a missão cumpre seu papel.
Logo
depois, João fala do batismo com água e faz um contraste decisivo. Ele batiza
externamente, mas outro vem para transformar por dentro. Aqui, o Evangelho nos
convida a ir além da religião de gestos e ritos vazios. A água lava o corpo,
mas só Cristo renova o coração. A água prepara, mas o Espírito recria.
Portanto, João reconhece os limites da própria ação e confia plenamente na obra
que Deus realizará através do Filho.
Nesse
ponto, surge a frase mais forte do texto. João afirma que, no meio deles, já
está alguém que eles não conhecem. Essa afirmação ecoa como um alerta para
todas as gerações. Muitas vezes, Deus se faz presente, mas o coração distraído
não percebe. Cristo caminha no meio do povo, mas a pressa, o orgulho e a
autossuficiência cegam o olhar. O mistério não está ausente; o problema está na
falta de atenção espiritual.
Além
disso, João declara que não se considera digno nem de desamarrar a sandália
daquele que vem. Essa atitude não nasce de falsa humildade. Ela nasce do
reconhecimento da grandeza de Cristo. João entende que toda comparação cai por
terra diante da santidade do Filho de Deus. Ele ensina que a verdadeira
humildade não diminui o ser humano, mas o coloca na verdade. Quem se coloca no
lugar certo diante de Deus cresce interiormente.
Por
fim, esse Evangelho nos provoca diretamente. Ele nos obriga a perguntar se
reconhecemos Cristo presente no meio de nós ou se continuamos esperando um Deus
que se encaixe em nossas expectativas. Ele nos desafia a abandonar uma fé feita
apenas de perguntas e a assumir uma fé que escuta, acolhe e segue. João não
segurou ninguém para si. Ele preparou o caminho e saiu de cena.
Portanto,
hoje, o Senhor nos chama a fazer o mesmo. Ele pede que deixemos de buscar
protagonismo espiritual e aprendamos a ser voz, caminho e testemunho. Ele
convida cada um a olhar com mais atenção, porque Cristo continua no meio de
nós, falando baixo, caminhando perto e esperando corações disponíveis. Quem
aprende a reconhecê-lo já começa a viver o Reino.









