O
primeiro gesto de carinho dentro de uma família acontece pela atenção. Antes do
abraço, do beijo e do afago, o carinho se manifesta pela atenção. Em toda a
Sagrada Escritura, é fácil perceber como Deus acarinha a família humana
dedicando-lhe atenção. A Bíblia mostra que a salvação se realiza na vida
concreta das famílias. O sábio do Eclesiástico é muito objetivo nesse aspecto:
o cuidado de um com o outro, dentro da família, é manifestação de uma família
que convive com a presença divina. São Paulo retoma o mesmo argumento ensinando
que o cuidado, no modo de tratar cada um dos membros da família, é resultado da
presença divina na família .A família torna-se, desse modo, um “locus salutis”,
um local de Salvação pela presença divina. Honrar, cuidar e educar são práticas
que tornam a família reflexo do projeto divino. Cada gesto de amor e respeito é
um passo na construção de um ambiente que cria espaço para Deus agir dentro de
casa. Família que vive no respeito recíproco torna-se escola de vida, de
santidade; local de salvação.
O modelo de como conviver em família
encontra-se no Evangelho, propondo José como pai exemplar. O contexto proposto
pelo Evangelho é de ameaça à vida da Sagrada família: perseguição, risco de
vida, ameaça de morte: “porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo” .
Esta é a terrível profecia que nunca foi encerrada na história da humanidade. A
família vive constantemente sendo ameaçada de morte e, por isso, a ordem do
anjo continua sendo válida: “foge”. A sabedoria angélica é estratégica: fugir
para proteger, fortalecer e cuidar da família. Como José, hoje, precisamos
acordar de noite — de tantas noites que nos envolvem em armadilhas — para pegar
a família e partir para o Egito, onde se está a salvo. A noite é o tempo do
descanso, o tempo de se tornar totalmente desarmado de tudo pelo sono. Por
isso, a noite é o momento em que o mal age para destruir e roubar a vida. Assim
como a noite hipnotiza pelo sono, assim a família corre o risco de viver
hipnotizada em sonos que acordam em pesadelos. Por isso, é preciso saber fugir.
José
foge, durante a noite, para proteger Jesus e Maria . Foge passando pela noite,
pelos perigos e riscos que a noite oferece. Fugir de redes sociais que
anoitecem o bom senso pela insistência na raiva, no ódio e na violência
agressiva. Fugir de pessoas que hipnotizam famílias com promessas de renda,
aproveitando-se da boa-fé de gente simples que termina na tragédia de misérias
por ter caído em algum golpe. Tudo isso anoitece a vida e de tudo isso é
preciso fugir para proteger a família. José, pai exemplar, compreende o perigo
e toma atitude: foge. Entende que não dá para enfrentar e, por isso, a fuga não
é covardia; é solução para salvar a família. A atitude de José ensina que
fidelidade a Deus passa por cuidar concretamente da família, assumindo responsabilidades
e decisões difíceis. Fugir de ameaça desestabiliza o cotidiano, cria conflito e
gera crises, mas se for para o bem da família, é isso que precisa ser feito. Um
dia, acontecerá o retorno, nem sempre para o endereço da origem.





