sexta-feira, janeiro 09, 2026

SOLENIDADE SANTA MÃE DE DEUS











Meus irmãos e minhas irmãs, hoje a Igreja nos convida, antes de tudo, a contemplar um mistério que não cabe inteiro nas palavras, mas que sustenta toda a nossa fé. Maria é Mãe de Deus. Portanto, quando pronunciamos esse título, não exaltamos apenas Maria, mas confessamos quem é Jesus. Ao dizer Mãe de Deus, a Igreja proclama que o Filho que ela gerou é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sem divisão, sem confusão, sem meio-termo.

Além disso, esse mistério nos leva diretamente ao coração da encarnação. Deus não entrou na história como ideia, teoria ou força invisível. Pelo contrário, Ele entrou pelo corpo, pelo tempo, pela carne, pelo ventre de uma mulher. Maria não gerou uma aparência de Deus, nem um profeta qualquer. Ela gerou o próprio Filho eterno do Pai, que aceitou depender dela, aprender com ela, ser embalado por ela. E aqui já aparece algo que desmonta o nosso orgulho, porque Deus escolheu o caminho da pequenez.

Por isso, quando chamamos Maria de Mãe de Deus, afirmamos que Deus confiou totalmente nela. Ele não ficou distante, não ficou no controle aparente, não se protegeu. Ao contrário, Ele se colocou nas mãos de Maria, no silêncio de Nazaré, na rotina simples de uma casa comum. E, desse modo, Deus nos ensina que a salvação não nasce do barulho, mas da obediência, não vem da pressa, mas da escuta atenta.

Maria não compreendeu tudo de uma vez. Ela caminhou na fé. Ela guardou as coisas no coração, ruminou os acontecimentos, atravessou a alegria e a dor sem abandonar a confiança. Quando segurou o Menino nos braços, ela não segurou apenas um filho, mas o Mistério. E mesmo sem entender tudo, ela disse sim. Esse, sim, sustentou o céu e a terra.

Por conseguinte, Maria se torna modelo para nós. Ela não fala muito, mas vive profundamente, e não se coloca no centro, mas aponta sempre para o Filho. Maria não exige explicações, mas confia. E, assim, nos ensina que a verdadeira fé não nasce da segurança humana, mas da entrega. Quem aprende com Maria descobre que seguir Deus não significa entender tudo, mas caminhar mesmo quando o caminho parece escuro.

Ao mesmo tempo, Maria como Mãe de Deus também se torna nossa Mãe. Porque, se Cristo é a Cabeça e nós somos o Corpo, a maternidade de Maria se estende a todos nós. Ela não cuida apenas do Filho perfeito, mas cuida também dos filhos feridos, confusos, cansados. Ela não abandona quando erramos, mas permanece quando o coração vacila. E isso consola profundamente, porque sabemos que não caminhamos sozinhos.

Por fim, celebrar Santa Maria, Mãe de Deus, nos obriga a olhar para a nossa própria vida. Se Deus quis morar no ventre de Maria, Ele também deseja morar em nós. Se Maria gerou Cristo para o mundo, nós somos chamados a levá-lo aos outros com nossas palavras, gestos e escolhas. Cada vez que acolhemos a vontade de Deus, algo de Cristo nasce novamente no mundo.

Portanto, hoje não celebramos apenas um título bonito. Celebramos um mistério vivo. Celebramos um Deus que se fez pequeno e uma mulher que confiou sem reservas. Que Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, nos ensine a guardar Cristo no coração, a oferecê-lo ao mundo e a viver uma fé simples, firme e verdadeira.













FESTA DA SAGRADA FAMÍLIA











O primeiro gesto de carinho dentro de uma família acontece pela atenção. Antes do abraço, do beijo e do afago, o carinho se manifesta pela atenção. Em toda a Sagrada Escritura, é fácil perceber como Deus acarinha a família humana dedicando-lhe atenção. A Bíblia mostra que a salvação se realiza na vida concreta das famílias. O sábio do Eclesiástico é muito objetivo nesse aspecto: o cuidado de um com o outro, dentro da família, é manifestação de uma família que convive com a presença divina. São Paulo retoma o mesmo argumento ensinando que o cuidado, no modo de tratar cada um dos membros da família, é resultado da presença divina na família .A família torna-se, desse modo, um “locus salutis”, um local de Salvação pela presença divina. Honrar, cuidar e educar são práticas que tornam a família reflexo do projeto divino. Cada gesto de amor e respeito é um passo na construção de um ambiente que cria espaço para Deus agir dentro de casa. Família que vive no respeito recíproco torna-se escola de vida, de santidade; local de salvação.

 

 O modelo de como conviver em família encontra-se no Evangelho, propondo José como pai exemplar. O contexto proposto pelo Evangelho é de ameaça à vida da Sagrada família: perseguição, risco de vida, ameaça de morte: “porque Herodes vai procurar o menino para matá-lo” . Esta é a terrível profecia que nunca foi encerrada na história da humanidade. A família vive constantemente sendo ameaçada de morte e, por isso, a ordem do anjo continua sendo válida: “foge”. A sabedoria angélica é estratégica: fugir para proteger, fortalecer e cuidar da família. Como José, hoje, precisamos acordar de noite — de tantas noites que nos envolvem em armadilhas — para pegar a família e partir para o Egito, onde se está a salvo. A noite é o tempo do descanso, o tempo de se tornar totalmente desarmado de tudo pelo sono. Por isso, a noite é o momento em que o mal age para destruir e roubar a vida. Assim como a noite hipnotiza pelo sono, assim a família corre o risco de viver hipnotizada em sonos que acordam em pesadelos. Por isso, é preciso saber fugir.

 

José foge, durante a noite, para proteger Jesus e Maria . Foge passando pela noite, pelos perigos e riscos que a noite oferece. Fugir de redes sociais que anoitecem o bom senso pela insistência na raiva, no ódio e na violência agressiva. Fugir de pessoas que hipnotizam famílias com promessas de renda, aproveitando-se da boa-fé de gente simples que termina na tragédia de misérias por ter caído em algum golpe. Tudo isso anoitece a vida e de tudo isso é preciso fugir para proteger a família. José, pai exemplar, compreende o perigo e toma atitude: foge. Entende que não dá para enfrentar e, por isso, a fuga não é covardia; é solução para salvar a família. A atitude de José ensina que fidelidade a Deus passa por cuidar concretamente da família, assumindo responsabilidades e decisões difíceis. Fugir de ameaça desestabiliza o cotidiano, cria conflito e gera crises, mas se for para o bem da família, é isso que precisa ser feito. Um dia, acontecerá o retorno, nem sempre para o endereço da origem.